por Redação

Tudo o que rolou no Theatro Municipal durante o primeiro dia do evento que bagunça as certezas do universo feminino

Canta pra subir

Na escadaria do Theatro Municipal de São Paulo, a baiana Virgínia Rodrigues arrepiou todo mundo com um repertório que homenageou as mulheres. A voz poderosa de Virgínia abriu a Casa Tpm 2019 com clássicos como "Yáyá Massemba", famosa na voz de Maria Bethânia. "Vou apreender a ler para ensinar meus camaradas", entoou a cantora, com ajuda do coro da emocionada plateia. Bonito demais!

O que queremos dos nossos relacionamentos hoje?

A pergunta acima deu origem às investigações desta edição especial da Casa Tpm e é com ela que batizamos a mesa de abertura, mediada pela atriz Martha Nowill, que, depois de uma breve reflexão sobre a questão, convidou ao palco a psicanalista Vera Iaconelli, a maquiadora e apresentadora Vanessa Rozan e a atriz Cris Vianna.

“Temos um campo cada vez mais aberto para jogar fora velhos modelos. Eu, como tantas mulheres, venho tentando me relacionar loucamente”, disse Martha, antes de passar a palavras às convidadas.

Na busca por respostas, é inevitável encontrarmos mais perguntas. E algumas são clássicas: “Por que a gente espera o ‘felizes para sempre’?”, questionou Vanessa, que seguiu com uma reflexão a respeito do relacionamento que as mulheres têm com elas mesmas. “Levando para o universo da beleza, mulheres têm relações com o corpo super destrutivas, mesmo sabendo que é uma questão cultural. A mulher vem na Casa Tpm, ouve podcasts, mas não consegue aplicar a si mesma. Eu sei que o casamento não dura pra sempre, mas a gente ainda está presa a isso”, completa a maquiadora. 

Vera entrou na conversa, pensando sobre a pergunta de Vanessa. “Apostar no pra sempre é legal, faz uma festa maravilhosa, curte”, diz, para em seguida refletir sobre o ambiente em que essa busca está inserida. “A gente está num momento de pais que vieram de uma relação onde os papéis eram bem definidos. A gente não tem uma solução hoje, se vai casar, se vai ter filhos ou não. A minha dificuldade é encontrar no outro um jeito de fazer isso funcionar, que não é o jeito conhecido. A gente ainda tem um lugar lá que espera que o pra sempre aconteça.”

Cris seguiu com a reflexão, partindo de um ponto que costuma alimentar muitas discussões, que é a questão racial nas buscas amorosas das mulheres negras. “Meu ex namorado era negro e nós conversávamos sobre isso. Pra gente, era um orgulho termos nos apaixonado. ‘Se a gente tiver um filho, vai ser a coisa mais linda.’ As pessoas diziam: ‘Você tem que ter um filho desse homem’. Tem? pra quem? Por quê? A gente queria ser uma referência, existe isso na relação”, disse a atriz. “Quando me separei, tive amigas que diziam ‘não se preocupe em se relacionar só com homem negro’. Eu tenho certo na cabeça que quero ser feliz, independentemente da cor. A gente carrega coisas na relação sem perceber”, concluiu, sobre os muitos e diferentes pesos que acrescentamos em cada relação que desenvolvemos.

“A gente sempre quer acabar tudo rapidamente, com acesso a mais pessoas. A gente termina achando que acabou o problema e vai repetindo tudo em outros relacionamentos. Às vezes a gente tem que ficar e ralar”, provocou Martha. “Quando você se relaciona com o outro, tem que ver coisas com você. A história dos seus pais e a sua história se chocam. Fracasso é você ficar casado e infeliz. A gente entra nas relações e não quer correr o risco de se conhecer. Eu vou trocar de pessoa e ela não vai me devolver isso —  se divorcia do outro, mas não se divorcia de você”, pensa Vera. “O feminismo impulsionou as mudanças e os homens foram correndo atrás. Temos poucos homens que estão lá na frente. Eu recebo muitas mulheres que vão reivindicando nos relacionamentos uma tutela, um lugar meio café com leite. Pedindo que o companheiro sustente, compareça na cama. Tem uma série de lugares que são armadilhas para mulheres.” Cris aproveitou para convidar as mulheres a desviar das armadilhas. “A gente tem que desejar sair desse lugar porque a gente vive no machismo. Feminismo é mais do que ficar com a axila peluda ou não. A pessoa tem que estar disponível para ouvir, discutir, entender. Acho que as mulheres têm mais facilidade de falar.”

Querer sair desse lugar leva a novas fórmulas e as relações abertas fazem parte de todas as discussões. “Nos relacionamentos atuais, uma das coisas mais difíceis de lidar é a monogamia”, disse Martha. “Hoje, eu sei que não funciona o poliamor pra mim, porque eu não dou conta. Eu gostaria de ser mais iluminada, mas não sou.” Cris concorda: “Eu sou muito prática e básica, que seja eterno enquanto dure. Gosto de insistir um pouco nas relações, porque vai ficando mais gostoso no dia a dia. Eu não dou conta de ter uma relação aberta”. 

É difícil dar conta de tanta opção, mas conversar ajuda. E vamos seguir que agora a Casa Tpm abre espaço para um homem, o apresentador, ator e roteirista Fabio Porchat.

Balde de perguntas, com Fabio Porchat

“Meu fetiche é ar-condicionado”, respondeu o apresentador Fabio Porchat, para uma das várias e divertidas perguntas que as leitoras e leitores da Tpm enviaram pela internet. “Sinto que estou caminhando para um abismo”, brincou Fabio, sobre o conteúdo dos papeis que guardavam as dúvidas.

O editor de conteúdo da Editora Trip, Alexandre Makhlouf, foi o porta-voz da galera e perguntou: você participaria de uma suruba com outros homens? “Claro, só o Dória faz suruba só com mulher”, respondeu o apresentador, arrancando gargalhadas da plateia. O sexo continuou pautando a conversa. “Fabio, já fingiu orgasmo?”, mandou Alexandre. “Já. Pra impressionar a mulher você finge que gozou pra depois gozar de novo e parecer que teve uma recuperação incrível. Como homem é idiota. Homem só conta vantagem, não conta derrota”, respondeu.

Masculinidade tóxica, machismo, feminismo foram o centro das perguntas seguintes. “Tem moleque tomando Viagra pra ir no puteiro. Olha que vida horrível. Voce cria homens que têm que ser muito viris, brigar, dar porrada. Isso é muito prejudicial. Se esse homem se der conta de que ele tá se dando mal com o machismo, talvez olhe pro machismo de outra forma”, concluiu. O papo terminou quente: “Fio-terra, vamos  nessa?” “Tudo é válido se dá tesão!”, escapou o apresentador.

A cilada dos relacionamentos abusivos

“Agressão comigo jamais”, disse a dançarina, cantora e atriz Rita Cadillac. O tema é delicado e ela lembrou da experiência de vida ainda jovem que a fez tomar essa posição, tão difícil para a maioria das mulheres, também pela dificuldade de se enxergar neste lugar. E foi a partir desse pensamento que a jornalista Luara Calvi Anic, mediadora da mesa, iniciou o debate, com a pergunta: “Será que a gente sabe quando está em um relacionamento abusivo? Quais são as violências silenciosas pelas quais a gente passa e não percebe?”.

Mayara Ferreira, da rede de psicanalistas feministas Divam, que atendem mulheres gratuitamente ou por preços sociais, começou seu posicionamento falando sobre a importância de começar a responder essa pergunta desmistificando o que é violência. “Toda vez que falo sobre violência de gênero, tem que desmistificar, porque a gente associa à violência física, mas existem outros tipos, que não são físicas. Tem violência patrimonial, moral, psicológica. E essas violências são naturalizadas, a gente nem identifica. E isso ocorre em relacionamentos afetivos, mas, em todas as nossas relações, elas existem, as violências praticadas em ambientes de trabalho, familiar, entre amigos…”

A atriz Kenia Maria, nomeada em 2017 como Defensora dos Direitos das Mulheres Negras pela ONU Mulheres Brasil, alerta para a questão cultural de se relacionar amor e dor como uma forma de mascarar relações abusivas. “A gente reconhece o amor através da dor, então tem que ficar atenta, até mesmo na infância, porque tem sempre um padrão. Dentro de casa, a gente acha bonitinho a menina ter um namorado ciumento, vê essa romantização das relações abusivas até nas redes sociais”, disse.

E foi bem jovem que Rita começou a pensar sobre isso. “Aos 17 anos, eu falei para o pai do meu filho que ele podia me matar, mas eu iria embora”, disse, deixando claro que prefere sair antes que os primeiros sinais se tornem os primeiros problemas gravas. “Eu tive um relacionamento e, no início, estava tudo lindo, belo e, depois de três meses, começou com: ‘Mas por que você deu um selinho?’, ‘Ah, essa roupa não vai ficar legal’. Daí, quando comecei perceber que começou a botar empecilhos, acabou para mim. Porque, se você vai deixando, chega numa agressão física e, antes disso, eu termino esse negócio.”

Em seguida, a conversa chegou à necessidade de empatia. “Tem que ajudar todas as mulheres, se você é vizinha e sabe que isso tá acontecendo, você pode ajudar. Temos que ajudar toda mulher, preta, branca, indígena, preferência sexual. Tudo q a gente puder socorrer e gritar para ajudar, a gente tem que fazer.” Mayara lembrou do momento político do Brasil para lembrar a importância de batalhas por mudanças institucionais: “Temos que pressionar por políticas públicas, a gente tem que entender qual o momento histórico que estamos vivendo, com conquistas de 20 anos acabando ou por um fio. Temos que pressionar, é fundamental.”

“Tem uma pesquisa que aponta que uma das explicações que os homens dão é o inconformismo pelo fim do relacionamento. E ciúme tem a ver com posse”, provocou Luara. “Para mim, isso tudo é um aprendizado. Eu já fui estuprada pelo meu próprio marido, fui obrigada a casar porque a mulher tem que fazer o que a família quer, aos 17, com o pai do meu fllho, que foi quem me estuprou”, contou Rita. “O que se entende por amor tem a ver com posse. Você tira as liberdades individuais. A gente tem que questionar o amor romântico, a construção do amor, não só entre homem e mulher, mas também entre duas mulheres”, alerta Mayara.

E, independentemente de qual é o formato da relação, Kenia encerrou a discussão contestando uma das frases mais nocivas e repetidas do machismo, de que, em briga de marido e mulher, não se mete a colher. “O homem aprendeu que ele é Deus, então, a gente tem que ir lá saber o que está acontecendo. Esse é o momento do país. Chegou a hora de meter a colher, causar constrangimento na reunião de família, perguntar pro seu irmão se ele está pegando a pensão. Vamos desconstruir essas relações”, convocou. “Estou com ela e não abro”, finalizou Rita.

A voz da experiência

O que muda e como vemos nossa sexualidade após os 60 anos? Essa discussão, fundamental, é ainda pouco presente. E a Casa Tpm reuniu para debater este tema a jornalista e escritora Isabel Dias, autora do livro 32 - Um homem para cada ano que eu passei com você, a atriz Bruna Lombardi, e a terapeuta de casais Tai Castilho.

E Isabel abriu o bate papo contando de onde partiu a ideia de seu livro, que é a experiência vivida por ela e por uma quantidade imensa de mulheres. “Descobri que meu marido me traía com várias mulheres ao mesmo tempo, não com uma, duas, várias. E, na minha geração, casamento era para sempre. Me dei 32 experiências sexuais”, contou, para, em seguida, a mediadora, a jornalista Rita Lisauskas, pedir palmas para ela. Nem precisava insistir. E a escritora seguiu contando como fez para realizar o mergulho pessoal que fez na sua própria sexualidade. “Fui pra internet, fiz um perfil num site de namoro e fui investigando. Quando me separei, eu nem sabia o que era autoestima. Comecei a marcar cafés e fui conhecendo pessoas maravilhosas. Descobri que eu comia uma quentinha e achava que era um banquete”, brincou Isabel.

Bruna entrou na conversa refletindo sobre tudo que envolve o caminho da mulher com o próprio sexo e as dificuldades de performar uma vida saudável com sua líbido. “A sexualidade corresponde a uma grande força natural, imensurável, poderosa. Transformar ela no que a pornografia imagina, no que a propaganda impõe, no que esperam de você como mulher, é uma cilada.”

Tai trouxe para a conversa a questão da líbido. “A diminuição da líbido depende do ponto de vista. Com o passar do tempo, a relação vai mudando. A líbido muda. Nos casais com mais de 50 anos, vejo mulheres traídas por homens que foram buscar mulheres mais jovens. As mulheres se deprimem. Mas também vejo homens com mais de 60 com bastante dificuldade de sair dessa ideia das maratonas sexuais. A sexualidade tem relação com o poder pra eles. E eles têm o Viagra, a mulher não tem”, disse. “Eu fui me conhecer, me tocar, me aprender velha. Nós temos culturalmente incutido o ‘fecha a perna’, ‘tira a mão daí’, ‘não deixe ninguém olhar’. Não posso dizer que não tive um bom casamento, mas a gente se perdeu, inclusive na cama. Passou a ser cumprimento de tabela. Na hora que eu me separei, em busca de novidade, não só de pessoas, mas acessórios”, contou.

“A desconstrução dos mitos sobre a mulher é fundamental para adquirir autonomia em relação à sexualidade. Nessa fase dos 50 da mulher, é realmente uma fase difícil pela queda hormonal, tem mulheres que tomam hormônios e que não param de sangrar, algumas engordam. Mas precisamos desconstruir o mito da mulher que chega na menopausa e não tem mais libido”, disparou Tai. A mediadora, Rita, questionou se, existindo de fato a mudança hormonal, não haveria realmente uma diminuição da líbido. “Se você tem um parceiro que consegue te valorizar, se tem uma liga, a líbido tá ali”, completou Tai, que falou da importância do encontro na relação. Isabel complementou: “Sendo um encontro, pode não ser paixão, mas tem tesão. Eu não tenho data de validade”. Bruna ficou curiosa para saber sobre o fato de ter feito com vingança, o que Isabel questionou. “Comecei por vingança, mas depois eu conquistei o prazer”, contou. “Fiz uma tabela no Excel. A gente esquece, confunde Jesus com Genésio. Pegava uns mais novos, experiência nem sempre é tudo na vida. E não foram só homens”, revelou, ovacionada.

As questões da sexualidade pós-60 chegaram também à preocupação com as DSTs, em especial ao HIV, cuja contaminação aumentou em 600% nesta faixa etária. “Se um cara falava que era dos anos 70 e não usava camisinha, não sabia colocar, eu brincava: ‘E se a gente ficar grávidos?’. E eu também fui aprender, né? Casada há 32 anos, nem sabia mais o que era preservativo. Eu fui clara no perfil: queria um amigante, amigo e ficante, mas eu não queria dividir minha casa com ninguém, só com meu cachorro”, disse Isabel.

Para encerrar, Rita convidou as três a dar dicas para a plateia de como envelhecer transando muito. “Existem milhões de chances de transformação. A única certeza da vida é a mudança, não a morte, a morte também é uma mudança”, aposta Buna. “Sexualidade não tem idade. A questão da menopausa é importante e a medicina tem muitas coisas que ajudam as mulheres. A mulher acha imprescindível que o outro a ache bonita. Depois dos 60, ela pode encontrar alguém. As mulheres de 60 estão mostrando que a sexualidade delas é diferente, mas que existe, sim”, disse Tai. E Isabel arrasou: “Comecem no espelho, saiam do comodismo. Eu me via com 50 e poucos anos sentada, fazendo crochê e assistindo novela. Eu não gosto de navela, tem que ter um plus, a vida passa muito rápido. O mais importante é se concentrar em você e aproveitar oportunidade. Não deixem passar oportunidades”, finalizou a escritora.

Vivência tântrica com Carol Teixeira

“É muito bom falar boceta no Theatro Municipal”, disse a terapeuta tântrica Carol Teixeira para abrir o papo sobre autoconhecimento e gozo feminino, na última mesa da primeiro dia da Casa Tpm. “Eu descobri no tantra uma ferramenta para levar a mulher ao encontro do próprio corpo. Percebi que tinha muita feminista que fingia orgasmo na cama. Eu precisava levar o empoderamento, que já estava muito bem resolvido na terapia, também para o corpo.”

Em uma conversa sem mistérios nem tabus, Carol falou sobre seus primeiros contatos com a tantra e de como se apoderar de sua energia sexual foi revolucionário. “Quando saí da primeira massagem tântrica, percebi a potência que eu podia gerar”, contou. As descobertas transformaram não só seu comportamento na cama, mas também seu próprio entendimento enquanto feminista.“Eu descobri que era uma falsa empoderada. A gente se coloca numa jaula que é a ‘liberdade’ da mulher contemporânea. Eu achava que a performance era liberdade. Mas isso configura uma mulher que ainda é uma pecinha no jogo patriarcal. O prazer vai muito além”, disse. “O orgasmo do tantra é um estado pleno de presença, vulnerabilidade e entrega”, explicou.

No fim da conversa, Carol propôs uma exercício de respiração para energizar o chacra da energia vital, sexual e criativa. “Você vai saindo do estado mental e indo para um estado alterado de consciência”, explicou. Depois, a plateia se organizou em duplas e Carol pediu que cada um olhasse fundo nos olhos de outro e sentisse a vulnerabilidade, o respeito e a emoção que emana dos corpos e assim Carol encerrou esse sábado cheio de energia feminina no Theatro Municipal.

Créditos

Imagem principal: Simon Plestenjak

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