Capítulo 9: Sommelier de quarentena

por Milly Lacombe

Depois de oito anos, Otávio e Marina encaram os cabelos no ralo e a desconstrução masculina que nunca passa pelo corredor de limpeza do mercado. Acompanhe a história contínua de Milly Lacombe

Perdeu os primeiros capítulos desta história? Leia aqui.

Quarentena, dia 14

– Marina, vou até o mercado. O que você quer?

– Assim de bate pronto eu quero que você coloque uma máscara e não se aproxime de ninguém

– Pode contar com isso. Só me diz onde acho uma máscara

– No armário da área de serviços. Coloca a máscara antes de sair e só tira quando voltar

– Entendido

– E o sapato que você usar para ir à rua fica do lado de fora do apartamento

– Tipo uma oferta para quem passar?

– Que seja. Mas não entra com o sapato em casa

– Tá todo mundo fazendo assim ou apenas você (e eu por associação)?

– Todo mundo que tem algum senso de responsabilidade tá fazendo assim

– Ok então. Agora então me diz o que você quer do mercado

– Pera que eu tenho aqui anotado em algum lugar. Achei. Quero mamão, salada, abacate, atum, cebola, lentilha, sabão em pó, desinfetante, papel higiênico e arroz integral. Eu posso pedir para entregarem, você sabe né?

– Sim, mas não vão entregar hoje e eu preciso de alguma bebida e de um chocolate ou de coisas para fazer um brigadeiro

– O que te deu?

– Não sei, me bateu uma vontade

– Larica?

– Antes fosse. Você tem maconha aí, aliás?

– Não tenho não.

– Que lástima. Vou lá, então. Me deseja sorte

– Sorte pra gente, né?

– Que assim seja

Otávio colocou a máscara, pegou a sacola reciclável e saiu. Voltou depois de quase uma hora e encontrou Marina na sala em mais uma de suas reuniões pelo computador. Marina apontou para a tela indicando a Otávio que não podia falar porque estava em reunião, mas de repente ela falou – primeiro com a tela, depois com ele:

– Joana, um minuto. Otávio, puta que o pariu! Você entrou de sapato em casa. Tira o sapato e deixa ele lá fora! Caralho, Otávio

– Foi mal. Esqueci dessa parte, mas todas as outras eu fiz magnificamente

– Do que adianta fazer todas magnificamente e errar em uma delas? Você acha que o vírus decide se transportar pela média entre erros e acertos?

– Foi mal, Marina, foi mal. Tô colocando o sapato como oferenda na porta, pode relaxar

– E vai tomar um banho

– Vou já já. Antes vou guardar as compras

– Não! Você vai tomar um banho – Marina volta a olhar para a tela do computador – Joana, te ligo depois, pode ser? Preciso colocar o Otávio no banho agora em nome de ter algum controle sobre a minha quarentena

– Meu Deus! Tô indo para o banho. Pode continuar com a sua reunião

– Já desliguei. Vou guardar as compras. Coloca sua roupa direto no cesto das roupas sujas. Lava corpo, cabelo, bunda e lava o pinto para variar.

– Meu pinto estava dentro da cueca, que estava dentro da calça, Marina. Caralho!

– Considere a quarentena uma oportunidade para você aprender a lavar o pinto, que tal?

– Você nunca reclamou do meu pinto, que porra é essa agora?

– Podemos falar sobre isso depois do seu banho?

Otávio entrou no quarto dela e bateu a porta. Marina foi para a cozinha lavar todas as embalagens antes de guardá-las. Vinte minutos depois ele aparece na cozinha:

– Pronto, Marina, lavei até meu esôfago. Posso circular pela casa agora?

– Cara, eu não sei de verdade onde você acha coragem para se comportar assim. Que você esteja a fim de correr riscos foda-se, mas me submeter a isso?

– Marina, você tá lidando com isso como se a gente estivesse em Chernobil

– Né! Por que será que eu estou reagindo assim? Pirei?

– Eu acho que sim, de verdade. Te vejo comentar a quarentena dos outros muitas vezes ao dia com a Joana: não sei quem tá fazendo errado, não sei quem mais tá delirando, fulano é irresponsável, ciclano é um imbecil. Você virou sommelier de quarentena

– Otávio, de verdade, você tem alguma ideia do que tá acontecendo no mundo, de como esse vírus é contagioso, de como os sistemas de saúde não estão dando conta?

– Tenho, Marina. Falo com minha mãe, falo com o Marcelo e eventualmente me permito ler algumas coisas. Eu tô sabendo. Sei que está apenas começando e que vamos passar por um período de sombras. Mas o que a gente pode fazer a não ser a nossa parte?

– Exato! Faça a sua parte. Leva a sério o que eu peço. Se não por você, por mim

– Justo, Marina. Tá bem. Tem razão. Vou levar a sério. Mas para de se meter na vida dos outros. Deixa cada um viver a sua quarentena. As pessoas terão que se acertar com seus destinos cedo ou tarde. Pera, deixa eu acabar que agora engatei. Para de julgar tanto. Ontem, no fim do dia, quando a gente estava ali no chão tomando cerveja e falando da vida, você relaxada, eu me lembrei de por que me apaixonei por você naquela roda de samba em Copacabana. Você não era essa mulher tão séria, tão julgadora, tão tensa. Você dançava, você cantava, você flertava

– E você, Otávio? Quem era você naquela roda de samba? Um cara envolvido, um cara que sorria, que transbordava vida. Olha você agora. Um bicho do mato que passa os dias em casa, que fala com o Marcelo e com a sua mãe e, a menos que tenha uma amante, com mais ninguém que eu saiba. Um cara encostado em mim para tudo, que fala em ir ao mercado apenas quando não temos mais Leite Moça e chocolate em pó

– Eu vou sempre que você me pede, Marina

– Exato! Eu preciso pedir. Preciso pedir sabão em pó e desinfetante porque você não faz a menor ideia se temos ou não temos essas coisas em casa. Você tem alguma ideia de como isso pesa no meu dia? Você é o cara que fica em casa, você passa o dia em casa. Você acha que eu, por ser mulher, nasci com um chip que me faz saber cuidar da casa e fazer lista de supermercado? Eu aprendi a fazer isso. Se você lava o banheiro uma vez na semana, você já paga de macho desconstruído mesmo sem saber como exatamente temos panos de chão e desinfetante no armário. Como chegaram ali? Quem notou que precisávamos comprar mais? É lindo que você seja poeta, que me deixe comer teu cu, que me coma de quatro sem que eu me sinta oprimida, mas tem mais coisas num casamento, tem mais coisas numa relação. E o cara que eu vi tocando naquela sexta-feira de maio numa roda de samba em Copacabana não é esse que mora comigo hoje

– Por que não falamos disso nunca?

– Eu não sei, Otávio. Mas eu não tô falando nenhuma novidade, né? Essa desconstrução da qual você tanto se gaba passa por saber essas coisas. Então não sei dizer por que nunca falamos disso

– Nem disso, nem da sujeira do meu pinto

– A gente já falou sim da sujeira do seu pinto, Otávio. Eu já reclamei algumas vezes, mas eu acho que vocês são tão encantados com o próprio pau que não acreditam de verdade que a gente possa ter nojo. É um equipamento tão grandioso que vai sujo mesmo. O que acontece com vocês que não aprendem a lavar o pau? A buceta é toda pra dentro, tudo escondido, peles e peles, lábios e lábios, e a gente consegue limpar. O bagulho de vocês é pra fora! Eu nunca vou entender

– Marina, nem toda buceta é limpa como a sua, tá?

– Ah, nem vem, Otávio

– Não é mesmo. É que no meu caso eu gosto do cheiro, seja ele qual for

– Tá legal, Otávio. O macho perfeito. Gosta tanto de buceta que não liga se tá limpa ou suja

– Não ligo mesmo. Vou fazer o quê? Quer saber pro que eu ligo? Cabelo no ralo. Tenho um puta nojo e você, apesar de ser uma grande lavadora de buceta, é uma péssima limpadora de ralo. Pronto. Taí. Satisfeita?

– Quase oito anos depois você vem me dizer que tem nojo dos cabelos no ralo? Quer falar dos seus pelos pelo azulejo branco do banheiro? A Lia lava e dez segundos depois já tá tudo cheio de pelo outra vez. Vai soltar pelo assim na puta que o pariu

– Bom, vamos entrar em looping eterno, é isso? Podemos passar a noite reclamando um do outro

– Poderíamos. Mas acho que não vamos perder esse tempo, né? Assim que a quarentena acabar a gente toma nosso rumo e você vai morar em uma casa onde os ralos não terão cabelos

– E você achar seus pintos limpos por aí

– Ou bucetas. Tô bem cansada de pintos e de tudo o que vem em volta deles. Vou achar um curso pra virar sapatão e tentar minha sorte

– Fico feliz por você. Agora se me dá licença vou levar meu pinto sujo para a cama. Boa noite

Otávio estava lendo no quarto quando sentiu o cheiro de brigadeiro quente pela casa. Pensou que aquela era realmente a vingança perfeita. Sorriu, apagou a luz, virou para o lado e dormiu.

Esta história continua. Acompanhe os próximos capítulos na Tpm.

Créditos

Imagem principal: Manhã Ortiz

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