Capítulo 8: Nem faz o jantar, nem mata a porra da barata

por Milly Lacombe

Por acaso existe algum gene que faz com que as mulheres nasçam capazes de cuidar de uma casa e os homens com aptidão para consertar o encanamento? Acompanhe a continuação da história de Milly Lacombe

Perdeu os primeiros capítulos desta história? Leia aqui.

Quarentena, dia 13

– Otávio, corre aqui!

A voz de Marina vinha da cozinha e parecia carregada de apreensão. Otávio estava falando com a mãe no telefone e disse a ela que precisava ir ajudar Marina e depois voltava a ligar. Chegou à cozinha e viu Marina de joelhos, uma mão apoiada no armário, a outra no chão e olhando alguma coisa embaixo da pia.

– O que houve?

– Tem um montão de água aqui embaixo. Não faço a menor ideia da onde vem e tenho agora uma reunião com a Joana. Cuida disso, por favor

Marina levantou e deixou Otávio na cozinha resolvendo o problema. Depois de uma hora, quando a reunião acabou e ela viu Otávio lendo no sofá da sala, perguntou:

– O que era, Otávio?

– Não sei. O encanador já deve estar chegando

– Encanador?

– É. O Marcelo arrumou um que pode vir agora

– Eu acho você um fanfarrão, Otávio. Não tem porra de encanador nenhum. Não vai entrar ninguém aqui. Você tá completamente maluco, é isso? A gente tá em lockdown, não tem ninguém circulando

– O Marcelo disse que encanador pode vir

– Só se for para desentupir teu cu. E eu não quero saber o que o Marcelo disse ou acha. E nem o que você acha. Estamos em quarentena total. Não entra ninguém aqui. Por mim, por você, pelos porteiros, pelas pessoas que têm que estar na rua trabalhando e pelo próprio encanador. Pelo amor de Deus, entende de uma vez por todas o que está acontecendo

– O que está acontecendo é um drama generalizado, é isso que tá acontecendo. Se o encanador chega aqui, lava as mãos e não tem contato com a gente, o que pode pegar?

– O vírus! O vírus pode pegar. O encanador, que a gente aliás nem sabe se está doente, vai vir da casa dele como? Com quantas pessoas ele vai cruzar no caminho? Vai chegar perto do porteiro? Vai pegar o vírus no caminho ou contaminar alguém?

– Marina, vírus existem há bilhões de anos. E, quando esse for controlado, vão ter outros. Nunca mais vamos circular livremente por causa deles?

– Olha, não vou ser eu o seu balcão de informações, até porque você tem suas verdades inabaláveis, mas me diz que tipo regular de vírus coloca o mundo de joelho e trancado em suas casas? Que tipo de vírus deixa aviões no solo, fecha hotéis, fecha shoppings, para a circulação de pessoas no mundo inteiro, faz médicos se vestirem como o maluco do Breaking Bad? Você acha mesmo que estamos falando de uma epidemia banal e corriqueira? Não custaria se informar um pouco

– Então vamos ficar com um vazamento até tudo passar, é isso?

– Não, meu amor. Não vamos não. Você pega a caixa de ferramentas que meu pai me deu quando casamos e dá seu jeito. Usa sua soberana inteligência para consertar o que estiver causando o vazamento. Vê se o Alex tem alguma coisa na portaria que possa ajudar, vê se algum vizinho pode ajudar você com um material ou até com alguma sinapse que por acaso você seja incapaz de fazer. Seja criativo

– Você sempre detestou o fato de eu não ser o macho da casa, né?

– O que é um macho pra você? Uma só pessoa que reúna todos os integrantes do Village People? Seu machismo, de um jeito ou de outro, acaba saindo de você, né? Do mesmo jeito que mulheres não nascem com um gene que faça a gente ser capaz de cuidar de uma casa, os homens não nascem com o gene do encanador, do eletricista, do pedreiro. Todos esses talentos são construídos na gente pela família e pela sociedade e depois internalizados por cada um de nós. Você sabe muito bem o que eu penso. O que eu acho curioso é que você não faz nada nem de um universo e nem do outro: nem conserta o cano, nem faz o jantar, nem mata a porra da barata, nem faz uma merda de um supermercado direito. E eu tô usando a palavra “curioso” aqui porque hoje acordei educada

– E o que eu faço com o coitado do encanador que já deve estar chegando?

– Você faz o certo: pede desculpa por ter feito ele sair de casa na pandemia, explica que você é um completo irresponsável movido pela ignorância do macho babaca que acredita que o vírus é apenas mais uma gripe, pega os dados bancários do pobre coitado, vê quanto custaria a visita e deposita o valor na conta dele

Pelo resto do dia Marina escutou a voz de Otávio na cozinha. Eram palavrões intercalados com pedidos de ajuda aos céus e barulho de metais batendo e caindo. Ela ouviu nomes de santos que nem sabia que existiam, ou talvez fossem apenas nomes de jogadores do Flamengo que Otávio acreditava terem poderes sobrenaturais e aos quais recorria em horas mais difíceis. O interfone tocava com regularidade e ela notava que Alex estava envolvido na tarefa. Eram quase seis da tarde quando Otávio apareceu na sala outra vez. Estava suado, sem camisa e com o aspecto de um jogador de peteca que foi obrigado a correr uma maratona com um revólver nas costas. Se jogou no chão de taco da sala perto do sofá, deitou com os braços e as pernas abertas e dele saiu um som que ela só tinha escutado quando enfiou um dildo no seu cu pela primeira vez.

– E…

– Consertado – ele disse

– Meus parabéns, Otávio. Fico feliz por essa conquista

– De qual delas está falando? Da dor nas costas? Do meu dedo inchado? Do galo na minha cabeça?

– Que galo?

– O galo que eu fiz tentando sair de dentro do armário que fica embaixo da pia. Se não estivéssemos trancados aqui eu acharia até bom fazer um exame porque foi uma puta pancada. Você não ouviu?

– Ouvi muitas coisas, não saberia precisar o momento do galo. Quem é Elesbão, aliás?

– Um dos santos mais desocupados do mundo, segundo minha mãe, que diz para recorrer a ele se for urgente

– Quer um uísque?

– Você não vai mais trabalhar hoje?

– Terminei mais cedo

– Eu acho que tô pra uma cerveja, sabia?

– Quantas transformações em um só dia

– Cerveja combina mais com a virilidade que o dia me obrigou a resgatar. Tô até com vontade de ir para a janela mexer com mulheres que passam na rua, tocar Garota de Ipanema na esquina

– É. Tem uma certa coerência nisso, mas infelizmente não tem nenhuma mulher passando e Garota de Ipanema, apesar do colossal machismo da letra, não vai ser jamais reconhecida pelo machismo

Marina vai até a cozinha e volta com duas latas de cerveja.

– O dia pede que a gente beba na lata, não acha? – ela diz estendendo um braço em direção a ele, que pega a lata e senta. Marina senta no chão ao lado dele.

– Sem dúvida. Vem cá, você escuta essas letras de Vinicius, Chico e outros poetas que objetificaram tanto as mulheres e sente o quê?

– Se eu paro para prestar atenção em algumas letras fico triste. Outras são tão machistas que eu não consigo mais escutar. Mas algumas são poesia pura, que escaparam do machismo, que escaparam da objetificação, que escaparam da opressão. Essas eu acho que podem fazer descer anjos

– Quais, por exemplo?

– As boas?

– As que não contêm machismo

– Ah, do Chico tem muitas. Vai Passar, Construção, Geni, Apesar de Você… E do Vinicius, deixa ver. É complicado. Pensa no Samba da Benção. Tão lindo o Samba da Benção. Mas olha que situação: além de machismo a letra tem racismo. Difícil falar disso porque era um outro mundo, um outro Brasil, né? Mas a gente tem que encarar esse nosso passado e o fato de alguns dos maiores gênios da nossa poesia e da nossa música terem feito uma arte que flerta com tantos preconceitos

– Como a gente separa o puritanismo da crítica que precisa ser feita?

– Como assim?

– Até onde vai a liberdade de expressão, a liberdade criativa e onde começam os direitos civis, o debate moral?

– Não sei se a essa altura da história a gente pode falar em puritanismo, em politicamente correto. Agora que tanto preconceito está sendo arrancado das nossas entranhas não tem muito espaço para dizer quais abusos a gente tolera e quais a gente não tolera. A gente tem que falar de todos, debater a entrelinha, expor tudo e todos, mesmo aqueles que a gente ousou chamar de gênios

– Toda cantada é imoral?

– Cantada de homem? É. Toda cantada de um homem numa mulher é uma invasão que pressupõe que aquela mulher vai ser legitimada pelo olhar de um homem, que ela está ali para ser vista por ele, que a beleza dela depende do olhar dele, que o "elogio" vai fazer o dia dela ser melhor, mesmo que nem mesmo ela pense assim

– Mas nem toda mulher pensa assim

– Mas toda mulher é vítima da estrutura machista que organiza a sociedade que faz um homem agir assim. Pensando assim ou não, ela é uma vítima

– Marina, uma dúvida sincera, não me mata. Não fica chato o mundo assim?

– Otávio, chato é um mundo que separa as pessoas por marcas identitárias como cor da pele, sexualidade, pelo que a gente carrega no meio das pernas e que diz que o universal é o homem branco que se comporta heterossexualmente e que todas as coisas certas estão associadas a ele. Isso é chato porque, na hora que você diz que existe um universal e que o universal tem essas características, você inferioriza todo o resto e cria uma sociedade onde todo mundo vai tentar se parecer com esse sujeito ou tentar conquistar esse sujeito. Hoje em dia o cara que diz o que ninguém mais se atreve a dizer, o macho que fala coisas horrorosas que ofendem e humilham, alega que está apenas exercendo seu direito de se expressar e assim se conectando com outros machos igualmente babacas nesse delírio de poder e de superioridade. Esse cara tá sendo chamado de corajoso. É uma maluquice, uma doidera, uma completa inversão de valores. Que coragem existe em diminuir alguém?

– Tá certo, não existe. Mas tem dias que eu sento para escrever e parece que tudo o que eu escrevo tem preconceito. Tá difícil criar. Tá difícil pra caralho criar

– Antes era fácil, né? Quando a gente não estava tão atentas para a objetificação, quando o racismo era tolerado devia mesmo ser mais fácil criar. Liga pro Chico e pergunta como ele faz para criar hoje em dia

– Ele tá criando?

– Pois é

– Você acha que o Chico já deu o cu?

– Ah, pronto. Lá vem você com essa obsessão de quem já deu o cu. E eu sei lá. Espero que já tenha dado, que tenha sido muito bem comido por uma mulher

– Ou por um homem

– Ou por um homem, que seja. Outra cerveja?

– Deixa que eu pego essa rodada, que é por conta da casa. Moça bonita e gostosa aqui nesse boteco não paga nem levanta pra pegar

Otávio ergueu seu corpo do chão com alguma dificuldade e, entre gemidos, foi até a cozinha e não viu quando Marina sorriu.

Esta história continua. Acompanhe os próximos capítulos na Tpm.

Créditos

Imagem principal: Manhã Ortiz

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