Capítulo 1: Eu acho que não te amo mais

por Milly Lacombe

Em ”Otávio e Marina, uma história de desamor na quarentena”, a escritora Milly Lacombe narra um relacionamento aprisionado em seu colapso. Acompanhe os capítulos na Tpm

Quarentena, dia 1

– Eu acho que não te amo mais

A frase foi jogada à mesa sem que houvesse nenhum tipo de preparo ou antecipação. Marina estava prestes a levar o garfo à boca e, ao escutar o que dizia o marido, largou o talher e abriu os braços.

– Tá maluco, Otávio? Da onde tá vindo isso agora?

– Eu não tô mais aguentando, Marina. A gente não se toca, não se fala sobre nada que não seja utilitário, não ri mais...

– Otávio, você tá vendo o que tá acontecendo no mundo? Tem uma pandemia varrendo a gente do planeta, tá tudo desmoronando e você vem falar em rir? Essa tua alienação me emputece

– E esse teu rigor racional me enerva. Eu não quero mais ser covarde e ficar dentro de um relacionamento por conveniência, nem mesmo com pandemia. Chega. Quero um relacionamento que me cause palpitação

– Quer palpitação? Então sai. Vai ver o mundo às vésperas de o governo decretar lockdown completo. Faz as malas e se manda

– Eu vou passar um tempo na casa do Marcelo. Falei com ele hoje de manhã e ele disse que me recebe

– Ótimo, vai sim – Marina disse isso enquanto se levantava recolhendo o prato ainda cheio, a taça de vinho pela metade e se dirigindo à cozinha – Vai atrás da tua palpitação, Otávio. Vai fundo

– Eu vou amanhã de manhã

– Oi? Não, meu amor. Você vai hoje. Vai agora mesmo. Pega a mala no maleiro, joga tudo o que conseguir, e se manda

– Ah, Marina. Para com isso. São quase dez da noite. O Marcelo tem filho pequeno, isso não tem cabimento

– Otávio, o que não tem cabimento é você me dizer, do nada, do absoluto vazio, que não me ama mais

– Eu disse que achava que não amava, e não é do nada, você sabe. Você tem sido testemunha do nosso relacionamento sem sexo, sem afeto, sem troca

– Faz realmente muita diferença para quem tá do outro lado esse detalhe semântico do “eu acho”. Pega o teu “eu acho” e enfia no cu

– Nossa, quanta agressividade. Precisa? Até porque você sabe muito bem que não me importo em enfiar coisas no cu

– Se você não sabe por que eu não rio mais talvez seja porque o que você tem pra oferecer é esse tipo de piada 

– Marina, não é normal um relacionamento de anos passar por isso?

– Claro que é. O que não é normal é, às vésperas do apocalipse, um dos dois dizer que vai se mandar

– Que apocalipse? Pelo amor de Deus. A gente já passou por outros surtos de gripe antes. Essa é mais uma. Não dramatiza, Marina

– Tá bem. Não dramatizo não. Tô indo dormir. Você pega seu violão, faz sua mala e se manda. Amanhã quero acordar e não ter que te ver. Amanhã é vida nova pra mim

– Uau. Para quem não conseguiu ver o “eu acho que não te amo mais” chegando, você até que está se saindo muito bem

– Otávio, meu querido. Eu já vivi bastante para saber que a partir de uma declaração como essa que você fez só resta zerar o tabuleiro e recomeçar. Minhas lágrimas podem até cair, mas você não vai ver, não

– Meu deus, quanta arrogância. Não consegue mostrar vulnerabilidade, né? Sempre tão forte, tão soberana. Pode deixar que faço minha mala e me mando hoje mesmo. Você fica bem acompanhada da tua prepotência

No dia seguinte, Marina acordou cedo e foi fazer o café. Tinha sido uma noite tensa, de sono intermitente, pensando em Otávio e no que o mundo vivia. Estava triste, mas não conseguia saber se era por Otávio ou por antecipar o sofrimento pelo qual o Brasil estava prestes a passar. Tinha se formado em matemática e, embora trabalhasse numa agência de publicidade, nunca perdeu de vista a devoção pela lógica e pela ciência. Diante de tudo o que tinha lido, sabia que a pandemia seria devastadora. Pensando nisso, não conseguiu chorar quando abriu o closet que ficava num anexo ao quarto e viu que as roupas de Otávio já não estavam mais lá. Será que era ela que não o amava mais e a reação da noite anterior tinha sido apenas raiva por não ter tomado a atitude antes dele?

Se serviu de café pensando em como tinha sido acertada a decisão de não ter filhos. Não conseguia nem imaginar atravessar tudo isso tendo que administrar crianças trancadas dentro de um apartamento. Crianças que, certamente, sobrariam para ela quando Otávio entrasse na crise típica de todo o babaca e resolvesse sair de casa para refletir sobre a vida deixando ela com as crianças. Pensou que seria lindo se, nessa hora, ela tivesse coragem de dizer a ele: "não me ama mais, Otávio? Então faz assim: fica aqui com as crianças que eu vou me mandar". Por que as mulheres com crianças pequenas não faziam isso quando seus maridos entravam em crise? Ou os filhos são mais delas do que deles? Deu um gole no café e sorriu imaginando a reação de Otávio vendo ela sair deixando as crianças sob os cuidados dele. No final, seria melhor mesmo ficar sozinha, sem ter que lidar com ele e seu jeito “não tô nem aí” de levar a vida.

Imaginou Otávio andando de cueca e sem camisa pela casa, deitado no sofá lendo um livro qualquer enquanto ela trabalhava em seu computador e o mundo ruía lá fora. As contas continuariam chegando e ele, como sempre, não se preocuparia com isso. E quando ela manifestasse apreensão ele pegaria um livro de poesia para ler para ela. Estranho como coisas que eram tão eróticas no começo hoje pareciam apenas irritantes. Estava sem fome, então terminou a xícara de café passando os olhos pelo feed do Twitter e foi tomar um banho. Não escutou o celular tocando e, quando saiu, viu que havia cinco ligações perdidas de sua chefe. Ligou para ela:

– Oi, Joana. Desculpa, estava no banho

– Tudo bem. Marina, não vem aqui pra agência. A gente acabou de saber que o lockdown começa às oito da noite e não tem ainda data para acabar. Ninguém mais sai de casa a não ser para ir ao supermercado, à farmácia ou para o hospital. Fica aí e se organiza porque vamos precisar seguir de algum jeito 

– Por sorte trouxe meu computador ontem para casa. Vou seguir trabalhando daqui e a gente vai se falando

– Não sei quanto tempo isso vai durar, mas se durar muito a gente não se sustenta e teremos que começar a demitir

– Pera, Joana. Uma coisa de cada vez. Deixa eu olhar os números com calma. Não vamos antecipar nada sem ter os dados, os números e alguma certeza dos fatos, ok?

– Que os anjos iluminem essa sua calma e lucidez, Marina. A gente se fala mais tarde. Beijo

Marina colocou uma roupa leve pensando que não ligaria o ar-condicionado, deixou o cabelo molhado cair sobre as costas e ensopar a camiseta e, andando mecanicamente pelo apartamento, pegou o laptop, abriu sobre a mesa de jantar e começou a trabalhar. Agora estava arrependida de não ter transformado o quarto de hóspedes em escritório. Mas como podia imaginar que teria que trabalhar de casa, coisa que sempre detestou? Quando comprou o apartamento de três quartos e transformou dois deles em uma grande suíte acoplada a um closet tinha pensado em manter pelo menos o quarto de hóspedes para receber seus pais que vinham visitar duas vezes por ano, e também para que Otávio tivesse um lugar reservado onde pudesse tocar e compor.

Balançou a cabeça como quem diz a si mesma que tinha feito besteira, mas que agora não havia remédio, e enfiou a cara no computador: planilhas e mais planilhas aguardavam sua aprovação e suas correções. Eram cinco da tarde quando percebeu que ainda não tinha comido nada. Teria que se forçar a comer mesmo sem fome. Estava a caminho da cozinha quando ouviu a campainha tocar. Alguém tinha subido sem que o porteiro interfonasse? Achou estranho, foi até o olho-mágico e demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Abriu a porta.

– Você tá de sacanagem, né?

– Marina, o filho do Marcelo tá com sintomas do vírus. Eu não posso ficar lá

– E nem aqui, Otávio. Olha a situação em que você se meteu

– Mas eu moro aqui, Marina

– Morava até dizer que queria se separar, Otávio

– Mas eu passei os últimos sete anos aqui

– Passou porque um dia entrou e nunca mais saiu. E porque a gente se apaixonou até desapaixonar

– Você desapaixonou?

– Otávio, olha só, esse seu gaslighting não vai me pegar dessa vez. Vai dormir na sua mãe

– Marina, você sabe muito bem que não posso fazer isso. Ela tem 85 anos e é grupo de risco

– Mas é só uma gripe, meu amor

– Não para uma pessoa de 85. Me deixa entrar, por favor

– Caralho, Otávio. Puta que o pariu. Entra. Entra! Era só o que faltava: ficar presa nesse apartamento com alguém que disse que não me ama mais

– Eu disse “acho que não amo”. Acho! – Otávio entra e arrasta a mala até a porta do quarto deles. Marina mantém distância.

– E eu te acho um merda, Otávio. Acho! Acho! Olha, tu te ajeita no quarto de hóspedes. E só sai de lá se precisar muito pelos próximos 10 dias

– Oi?

– Oi o quê? Não tá vindo da casa do Marcelo que tem um filho com sintoma? Então toma tenência 

– Mas eu preciso ir ao banheiro, comer…

– Eu te falo por WhatsApp quando você pode sair e usar a cozinha. O banheiro você pode usar o da sala, mas só sai do quarto depois de me avisar que vai sair. Eu estou trabalhando de casa, na mesa de jantar, porque em vez de fazer um escritório para mim nesse apartamento resolvi fazer um estúdio para você poder se recolher, olha que estupidez. E agora, como não tenho data para voltar à agência, vou trabalhar da única mesa que existe aqui, que é a da sala

– Não tem chuveiro no banheiro da sala!

– Ficou fã de banho de repente? Sei… Te aviso quando puder tomar banho no MEU banheiro

– Marina, pelo amor de Deus, eu não tô doente

– A quarentena vai dizer se você está ou não. Dez dias. E isso porque tô sendo bacana já que 95% dos casos apresentam sintomas nos 10 primeiros dias. O certo, certo mesmo seria te manter lá dentro por 15 dias. É isso ou um hotel

– Você quer me castigar pelo que eu disse?

– Eu? Quem sou eu para te castigar? Sua mãe?

– O que eu vou fazer dentro do quarto por tanto tempo?

– E eu sei lá. Compõe. Toca. Lê. Aplica essa letargia que você cultiva há anos e seja feliz

– Uau, por que será que não sei se te amo mais?

– Não força tua barra não, Otávio

– Isso, Marina. Exerce seu poder de executiva, de chefe da casa, pra cima de mim, como você ama fazer 

– Otávio, pega teus traumas e se recolhe nesse quarto antes que eu mude de ideia

– O que eu vou comer?

– Você abre a geladeira e se vira. Ou você espera que eu continue cozinhando para você? Já não tá de bom tamanho eu seguir fazendo as compras? Vou, finalmente, me comportar como chefe da casa agora, que tal? Onde já se viu um chefe da casa que cozinha para o marido como eu fiz durante anos mesmo trabalhando mais do que você? 

– Só conta como trabalho quando é atrás de uma escrivaninha, né? Com relógio de ponto, chefe, holerite, produtividade. Ah, a produtividade, a eficiência. O babaca que tenta ganhar a vida fazendo poesia, tocando, compondo, escrevendo, não tá trabalhando porque seria uma ofensa achar que tem gente vivendo daquilo que ama fazer, e não deixando paixões de lado para ganhar mais e mais a ponto de nem ter no que gastar

– Me conta exatamente como você ganha a vida fazendo o que ama fazer. O que você ganha paga o aluguel? Paga o supermercado? Quem paga quase todas as contas dessa casa, Otávio?

– Você ganha dez vezes mais e esse apartamento é seu. O que você queria? Que eu te pagasse aluguel? Eu não preciso morar num apartamento no Leblon, Marina. Não preciso ir para a Europa duas vezes por ano. Não preciso de carro na garagem

– Não precisa, mas usa

– Uso porque essa é a vida que você construiu e eu tô nela

– Otávio, meu amor, vamos recapitular. Um: estava nela. Dois: eu construi? Essa sua auto-estima de merda é a coisa menos erotizante que existe no mundo inteiro. Por que será mesmo que eu não tenho mais vontade de dar pra você? Intrigante…

– Se o cara é humilde, vocês reclamam porque é frouxo. Se o cara é galudo, reclamam porque é machista. Vocês não sabem o que querem

– Chega, Otávio. Tu te enfia com teu machismo dentro desse quarto e fecha a porta. Começa com generalização vai me dando um bode que nem sei do que sou capaz. Entra na porra desse quarto e começa a quarentena antes que eu me irrite ainda mais e te coloque para fora em busca da tal palpitação

Otávio colocou a mala para dentro, bateu a porta com tanta força quanto podia e ainda teve tempo de escutar Marina dizer: “Uau, que tigrão”.

Esta história continua. Acompanhe os próximos capítulos na Tpm.

Créditos

Imagem principal: Manhã Ortiz

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