por Tania Menai
Tpm #149

Cidadão do mundo, o designer carioca David Elia cria objetos que buscam provocar reflexão

Em novembro passado, o Museum of Art and Design (MAD) de Nova York levou a América Latina para três de seus andares, espalhando pelas galerias o artesanato, a fotografia e o design mais expressivo da região. Ali no quarto andar está uma cadeira de bar, preta, daquelas que você puxa para que mais um amigo possa se juntar à roda de samba. A diferença é que a cadeira está toda furada como se estivesse no meio de um fogo cruzado.  “Vida e morte andam lado a lado no Rio de Janeiro”, explica David Elia, 32 anos, criador da obra intitulada Bala perdida. “Ela representa uma realidade global, não só brasileira. Seja o Oriente Médio ou as escolas americanas, todos enfrentam a extrema violência”, diz ele, que pretende provocar discussão. A criatividade não parou por aí: ao lado da cadeira, está uma mesa de canto, com vidro blindado e balas de revólver coladas na parte de baixo.

“O trabalho do David fez os meus olhos saltarem”, disse Lowery Stokes Sims, curadora da exposição em cartaz até 6 de abril de 2015. Com sensibilidade e sofisticação ímpar, David vive hoje em Mônaco. Ele nasceu no Rio de Janeiro, onde morou até os 7 anos de idade, quando sua família se mudou para o sul da França. Essa foi a primeira de várias mudanças. Mais tarde, ele se formou em universidades americanas e, de lá, foi para Paris, onde trabalhou por um ano em um escritório de arquitetura. A próxima cidade foi Milão, onde estudou design industrial e acabou descobrindo sua grande paixão: os móveis. Ele fez as malas novamente, dessa vez para trabalhar por quase um ano com os Irmãos Campana, em São Paulo, experiência que acabou culminando com uma mudança para o Rio de Janeiro, onde ele fundou o estúdio Design da Gema.

Com alma

“Gosto de contar histórias por meio de objetos que tenham alma e que mostrem a mão do artista”, diz ele, que já teve uma bandeja feita de papelão reciclável vendida na cobiçada loja de design do Museu de Arte Moderna (MoMA) nova-iorquino.

Uma das criações mais estonteantes é uma cadeira, que lembra um tronco, da coleção Desmatamento. Misturando madeira e galhos, a parte inferior do objeto é azul, cor que simboliza o sinal usado pelos agentes florestais para marcar as árvores que não devem ser cortadas. “Estudei os códigos florestais, inspirei-me no azul do artista francês Yves Klein e segui a forma simples, que aplico em todo o meu trabalho. Contribuir com essa discussão é muito estimulante”, conclui.

Vai lá: designdagema.com

Tania Menai é jornalista, mora em Manhattan há 17 anos e é autora do livro Nova York do Oiapoque ao Chuí, do blog Só em Nova York, aqui no site da Tpm e também do site www.taniamenai.com

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