por Rosane Queiróz
Tpm #88

Nossa repórter desvenda o ”pagamento após o resultado” de videntes que ”amarram” seu amor

 

Gosto de consultar as cartas. Até arranho um baralho cigano para as amigas. Sei que sou de Oxum, porque fui à Bahia. Daí a ligar para a espírita vidente Luana*, dos classificados de uma revista semanal, é outra história. Mas sou curiosa, e pareceu divertido criar uma historinha fake e sair por aí desafiando as videntes que prometem o impossível: “amarrar” um homem, com 100% de garantia.

Luana, “a especialista”, anuncia que tem “auto” poder de unir casais. O pagamento é após o resultado. Em tempos de crise, nada a perder. Só preciso de uma boa dose de cara de pau para encarnar a personagem Rosana (minha quase xará, para eu não trocar as bolas), uma mulher disposta a qualquer negócio para salvar seu casamento. Rosana desconfia que o marido tem outra. Será que Luana poderá ajudá-la?

É a própria, uma moça de cabelos loiros pedindo retoque na raiz, quem abre o portão da mansão com placa de “aluga-se”, na zona sul de São Paulo. “Moro aqui desde criança, mas vou me mudar.” A casa está cheia: crianças pulando na piscina, homens de pulseiras douradas, cinco carros na garagem. O sofá, com o assento afundado, denuncia que muita gente senta ali enquanto espera para entrar na sala multicolorida, onde a mãe de santo acende velas para Iemanjá, São Jorge, Preto Velho. Sobre a mesa forrada de vermelho, Luana abre o baralho cigano e meu destino se revela em imagens de facas, ratos, caixões. “Vejo outra mulher”, Luana confirma. “Mas ainda não aconteceu nada entre eles. Você precisa agir rápido.” A “outra” teria feito um trabalho espiritual, uma macumba básica para roubar meu marido. Para cortar o tal trabalho, dá um trabalhão. “Vou precisar de duas velas, uma da sua altura, outra da altura dele”, anuncia a vidente. “Mas para que velas tão grandes?”, pergunto, feito a Chapeuzinho Vermelho. “Elas representam o casal”, garante. O mais intrigante é o preço das velas, baseado na metragem. Eu meço 1,62 metro. “A vela custa R$ 162.” A do meu marido inventado ficaria em R$ 182. Amarrar homem baixinho sai mais barato.

Banquete do truque
Luana se empolga e me propõe organizar um banquete para 21 entidades do candomblé. “Você não pode agradar uma entidade e desagradar outra”, justifica. A lista dos ingredientes pode até ficar por minha conta. Mas quem tem tempo para zanzar atrás de canjica, dendê e folha de bananeira? “Tenho fornecedores que entregam o material aqui”, ela sugere. “Tudo por R$ 600.” Detalhe: eu não preciso ir ao terreiro no dia do ritual. “Na primeira fase, você não participa.” Que fofa! Ela resolve tudo e eu só assino o cheque. Ué, e o pagamento após o resultado? “Isso é uma gratificação. Você dá R$ 300, R$ 500, quanto puder.” Prometo mandar o cheque do banquete. No dia seguinte, desisto por telefone. “Mas eu já acendi as velas ontem de madrugada!”, diz Luana, brava.

Intrigada com o preço da festança, pesquiso na net as comidinhas de santo: Oxum gosta de camarão com coco. Iemanjá ama arroz com mel. Obá divide o quiabo com Xangô. Mas quem me dá uma luz, em meio a esse enredo obscuro, é o sociólogo e babalorixá Armando Vallado, de 52 anos, 30 deles dedicados ao candomblé. “Nunca ouvi falar em banquete para 21 entidades”, diz ele. “Mas, se quiser fazer uma oferenda a todos os orixás, você vai gastar uns R$ 150.” Para elaborar sua tese de doutorado, “Poder e Conflito nas Religiões Afro-brasileiras”, Armando mergulhou no que chama de “submundo da magia”. Conversou com dezenas de videntes, dessas que põem faixas na rua, e viu coisas que “até Deus duvida”. “Num ritual de amarração, uma moça trouxe até um lenço com o sêmen do homem que queria”, conta.

Dos que procuram esse tipo de serviço, o babalorixá acredita que 80% são mulheres, entre 25 e 35 anos, solteiras, que já teriam passado por duas ou três relações frustradas. A classe social é difusa. “Outro dia uma moça , que nem rica é, foi ao meu terreiro e disse: ‘Pago quanto você quiser para me trazer fulano’. Convidei-a a se retirar. Não acredito nesse tipo de trabalho”, diz. “Essas supostas videntes tiram dinheiro de mulheres desesperadas, não fazem ritual nenhum e somem. Até porque não existe trabalho de candomblé sem que a pessoa que encomendou esteja presente”, avisa ele.

“Uma mulher enterrou um papel com o nome de seu marido num cemitério, para ele ficar frio com você como um defunto!”

Vodus, cuecas e sabonetes
A essa altura, já aperfeiçoei minha personagem de filme de Almodóvar e tenho hora marcada com o “Rei da Amarração”. Talvez pela proximidade do Dia dos Namorados, os cartazes do pai de santo tenham se proliferado nos postes do bairro paulistano da Vila Madalena. Inclusive em frente ao meu prédio.“Meu pai Oxalá é o rei, venha me valer!”, lembro da canção de Vinicius e Baden Powell, no táxi, a caminho da audiência com o Rei*. E não é que o casarão dele também está para alugar? Como diz Armando Vallado, “essas pessoas vivem se mudando”. O interfone não atende. Por celular, sou encaminhada a outro endereço, atrás de um grande shopping. Espero uma hora no terraço do sobrado, escoltada por uma estátua de Iemanjá e um segurança que ronca na cadeira ao lado.

Quarentão e de terno risca de giz, o Rei poderia ser o gerente do seu banco. Vem acompanhado de uma morena, a Joana*, que joga os búzios (por R$ 15), como uma pré-avaliação dos casos. “Uma mulher enterrou um papel com o nome de seu marido num cemitério, para ele ficar frio com você como um defunto!”, sensacionaliza ela. Medo! Digo que quero o marido amarradão até o Dia dos Namorados. “Dá para fazer em 48 horas”, promete a vidente. Ela define bem o que, afinal, significa “amarração”: “Ele pensa em você 24 horas, só pensa em fazer sexo com você, não tem cabeça para mais nada”. Ou seja, o cara vira um obsessivo.

Por isso mesmo, a psicanalista Diana Corso acredita que tantas mulheres embarquem nessa busca insensata por bruxas e feitiços amorosos. “Quando outra mulher, supostamente dotada de dons mágicos, assegura que esse homem será só seu, está dizendo: ‘Eu garanto que você será sempre desejável’. Isso é sedutor, é tudo o que uma mulher precisa ouvir de outra”, esclarece Diana. A vidente Joana ainda explica a máxima da magia. “Muitos querem o amor a qualquer custo, mas não conseguem. “Só unimos casais que são almas gêmeas. E você e seu marido são.” Falta apenas eu comprar três kits, de R$ 150 cada, um de amarração e dois de limpeza astral. O conteúdo? Só posso saber se marcar uma nova audiência, com o Rei.

Até a última carta, espero que algum deles revele: “Você não se chama Rosana coisa nenhuma...”. Mas nem a grã-mestre Taiana*, que promete em banners amarrar moços comprometidos, desmascara a cliente mentirosa. De olheiras fundas e jaleco branco, Taiana joga o baralho egípcio (por R$ 50) num cenário que mistura móveis de quarto de bebê com velas vermelhas em forma de cabeças humanas e bonequinhos de pano sem rosto. “São vudus. Do bem”, garante. Sua umbanda, explica, é de linha africana. O “poblema”, como ela diz, é que o trabalho da amante do meu marido é forte e custa R$ 800 para desfazer. Eu só preciso trazer uma cueca dele, uma calcinha minha e uma foto nossa. Mas não devo comparecer ao “templo” no dia do despacho. E a garantia? “Em 15 anos, ninguém voltou para reclamar.”

Somando tudo, a brincadeira começaria em R$ 3.009. Termino minha saga com duas velas gigantes, de 4 quilos cada, compradas da astrovidente Priscila*, 27 anos, dona de uma sala azul calcinha num prédio caquético do centro. Cada vela custa R$ 50, e seria preciso queimar 15 para reacender a paixão. Exausta, entro no metrô com os pacotes pesados e lembro da recomendação de Priscila: “Tome um banho de sabonete azul”. Bonitinha essa parte. Gostei do tom do Phebo, turquesa. Além do banho azul, tomo um chá poderoso, de sumiço.

* Os nomes foram trocados para preservar a repórter (medo!).

matérias relacionadas