Amor em tempos de isolamento

por Carol Ito

De festa de casamento pelo Zoom à webnamoro, reunimos relatos de casais para sacar como a pandemia vem afetando os relacionamentos

Festa de casamento pelo Zoom, webnamoro, casais que resolveram juntar as escovas de dentes ou apressar o término. Para quem pode ficar em casa e vive (ou viveu) um romance, a quarentena tem sido um catalisador de emoções e uma oportunidade para redefinir rotas. Reunimos relatos de casais para sacar como a pandemia vem afetando os relacionamentos amorosos. 

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Festa de casamento no Zoom

Vicky Kacelnik, 24 anos, estilista, fala sobre a relação com Gabriel Hidal, 28, economista

"Meu marido – nossa, acho que é a primeira vez que uso essa palavra! – e eu ficamos noivos no ano passado, depois de um namoro de mais de sete anos, e marcamos o casamento para maio de 2020. Quando a gente estava voltando de uma viagem no Carnaval, ficamos sabendo do primeiro caso de coronavírus em São Paulo. Meu marido virou para mim e disse: 'Acho que vamos ter que adiar o casamento'. Aquilo caiu como uma bomba para mim, a gente tinha planejado tudo nos mínimos detalhes. Eu brinco que, nos últimos meses, vivi as fases do luto, da negação à aceitação. 

“Aquilo caiu como uma bomba para mim, a gente tinha planejado o casamento nos mínimos detalhes”
Vicky Kacelnik, 24, estilista

No dia em que era para ter sido nossa festa de casamento, os nossos amigos organizaram uma surpresa. Eles avisaram que, na data, a gente tinha que estar on-line em determinado horário e vestidos com roupa de festa. Ao longo do dia, fomos recebendo coisas [por delivery] para fazer uma mini-festa de casamento, com comidas, flores, docinhos, bebidas e até um bolo. Em cada brigadeiro tinha uma palito espetado com a foto do rosto de alguns amigos. 

Quando chegou a hora, recebemos um link do [aplicativo] Zoom e entramos em uma videochamada com mais de 80 pessoas. Nossos familiares gravaram homenagens, teve até vídeo com as crianças simulando a entrega das alianças. Somos judeus e um amigo que acabou de virar rabino fez uma bênção religiosa, a gente quebrou copos, que é uma tradição judaica. Foi muito especial para nós. Ficamos muito emocionados com a organização e a dedicação deles.

A gente acabou se casando no civil há alguns dias, porque não queríamos deixar de sonhar, viver esse momento. Remarcamos a festa para novembro e estamos acompanhando."

Casamento às cegas

Sabrina, 21 anos, estudante de jornalismo, fala sobre a relação com Carla, 26 anos, profissional do comércio exterior*

"Eu seguia ela no Twitter há algum tempo e a gente começou a conversar na quarentena. Ela é amiga de um amigo meu e mora em Joinville, enquanto eu moro em São Paulo. Nesse meio tempo, já oficializamos nosso namoro e combinamos de, a partir de julho, passar a quarentena juntas na minha casa. 

“A melhor parte é estar mais disponível para conhecer a pessoa. É como um Casamento às cegas”
Sabrina, 21, estudante de jornalismo

A pior parte é não poder se ver, sair juntas, etc. A melhor parte é estar mais disponível para conhecer a pessoa. É como um Casamento às cegas [reality show da Netflix em que os participantes escolhem seus parceiros sem conhecê-los pessoalmente]. O fato de a gente não poder ficar com mais ninguém também ajuda na relação. 

Imagino que quando a gente se encontrar vai ser normal, já temos uma convivência, ainda que virtual. Também digo isso porque já estive em um webnamoro que durou seis meses e, depois de conhecer a pessoa, tive um relacionamento que durou mais de quatro anos. Também já fiz muitos amigos pelo Twitter e, quando a gente se conheceu pessoalmente, a amizade continuou. 

Acho que, de certa forma, a quarentena aproxima mais as pessoas. Até em relação a amizades, voltei a ligar mais para os meus amigos e amigas. Isso fortaleceu muitos laços, apesar da tragédia que está acontecendo."

Fechados para balanço

Ricardo, 40 anos, empresário, fala sobre o término da relação com Augusto, 34 anos, psicólogo*

"Estávamos em um relacionamento aberto há um ano, morando juntos. Com a quarentena, tivemos bastante tempo para conversar sobre a gente e, depois de um mês, decidimos terminar. Ele morava no meu apartamento e resolveu voltar para o dele, mas a gente continua conversando, é tranquilo. Acho que ainda tenho muito que aprender sobre relacionamento aberto, ter outras experiências para entender melhor.

“Foi pesando o fato de não podermos nos relacionar com outras pessoas, enquanto o sexo entre a gente estava esfriando há tempos”
Ricardo, 40, empresário

Foi uma oportunidade para olhar para os nossos sentimentos. Antes, acabávamos nos vendo mais no final de semana por conta do trabalho, era mais corrido. Quando a gente parou para se enxergar, de verdade, percebemos que era uma relação de amigos que bagunçavam, não de namorados. Foi pesando o fato de não podermos nos relacionar com outras pessoas, enquanto o sexo entre a gente estava esfriando há tempos. Resolvemos assumir e falar sobre o que estava acontecendo. 

A quarentena teve um efeito acelerador desse processo. Sabe quando um casal resolve fazer uma viagem e se isolar do convívio com outras pessoas para tentar salvar o casamento? Teve esse efeito. Fizemos um balanço e conseguimos manter o mais valioso, que é a amizade."

Juntando escovas de dentes

Marcelo Perdido, 36 anos, músico, fala sobre a relação com Fabiane Sakai, 30 anos, arquiteta

"Namoro com a Fabiane desde agosto. Já tínhamos planos de morar juntos, mas a pandemia acabou acelerando as coisas, servindo como um test drive. Eu tinha uma viagem de trabalho marcada para março, que foi cancelada. Nesse período, ela ia ficar em casa para cuidar do meu cachorro.

A gente foi entendendo a gravidade da situação e, como ela já tinha feito a mochila para ficar em casa, foi ficando, ao mesmo tempo em que a pandemia foi piorando. Uma hora, a gente achou que deveria buscar as coisas dela e passamos a morar juntos, oficialmente. O apê é para uma pessoa, tem um quarto suíte e uma sala. A gente teve que dividir os espaços para um não atrapalhar o trabalho do outro. Mas tem dado certo. 

“Se eu estivesse sozinho, talvez a limpeza estivesse pior, estaria mais relaxado com a alimentação. A gente se ajuda a ficar melhor”
Marcelo Perdido, 36, músico

A parte mais gostosa é ter uma pessoa para conversar, para cuidar de você. Por exemplo, a Fabi teve recentemente uma infecção no ouvido e teve que ir para o hospital. Seria muito ruim passar por coisas como essa sozinho.

Estamos muitos mais sensíveis, reflexivos e até desmotivados, às vezes. Mas, de repente, você sai do quarto e a pessoa fez um bolo, sabe? É muito bom. Acho também que estar com alguém me ajuda a fazer as coisas um pouco mais direitinho. Se eu estivesse sozinho, talvez a limpeza estivesse pior, estaria mais relaxado com a alimentação. A gente se ajuda a ficar melhor."

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Amor à distância

Juliana Aires, 28, recepcionista, fala sobre a relação com Matheus Rodrigues, 23 anos, bartender

"Namoramos há pouco mais de um ano e moramos em casas separadas. Decidimos não nos ver durante esse período, porque eu continuo saindo para trabalhar e ele tem histórico de problemas respiratórios, mora com a mãe idosa. Ele está ficando em casa porque ficou desempregado por conta da pandemia.

“Pudemos ver como lidamos com a adversidade, o que pega mais no calo um do outro”
Juliana Aires, 28, recepcionista

No aniversário dele, mandei uma cesta de café da manhã de presente, às vezes ele me manda um lanche no trabalho, a gente tem esses carinhos por meio de serviço de entrega. Também conversamos por vídeo, ligação, mensagem, mas não é a mesma coisa. 

Recentemente, a gente brigou por uma coisa boba, por falta de comunicação, o que não teria acontecido em uma situação normal. Estamos tentando lidar com a questão de forma racional, mas, nesse último mês, a saudade começou a bater mais forte. 

Com a pandemia, pudemos ver como lidamos com a adversidade, o que pega mais no calo um do outro. Entender isso pode ser bom para a convivência quando a gente for morar junto, que é algo que já estava nos planos. Vi que ele é uma pessoa ótima e ainda quero morar com ele depois que a crise acabar."

Conquista no confinamento

Camilla Molica, 29 anos, atriz, fala sobre a relação com Virgílio Neto, 34 anos, artista plástico

"Estávamos juntos há cinco meses quando começou quarentena. Ele veio para o meu apartamento e ficou, foi acontecendo naturalmente. Confesso que eu estava com bastante receio no começo, porque a gente estava no início do relacionamento, vendo as cores da paixão, e, de repente, decidimos morar juntos.

“Estamos nos descobrindo cada vez mais apaixonados por conta dessa disposição em conversar, se entender”
Camilla Molica, 29, atriz

Depois de duas semanas confinados, estava tudo incrível, mas eu decidi falar sobre as minhas inseguranças, o que foi bem importante. A gente criou um ambiente muito seguro e aberto para falar sobre as nossas dificuldades. Uma das coisas que conversamos foi sobre a necessidade de manter nossa privacidade, ainda que dividindo o mesmo espaço. 

Às vezes, você quer conversar com um amigo, com a mãe, o irmão, para falar coisas que você não quer que a outra pessoa escute, mas não é porque você deve algo a ela, é só porque não quer compartilhar, mesmo. A gente chegou num lugar muito legal nesse sentido. Estamos nos descobrindo cada vez mais apaixonados por conta dessa disposição em conversar, se entender.

Engraçado que, principalmente no início de uma relação, a gente quer sempre estar muito bem para o outro, né? Você quer estar do seu melhor jeito, com seu melhor astral, ser criativa, engraçada. Mas estar junto é lidar com os dias em que o outro ou você não está bem, falar sobre as fragilidades. Essa é a maior dificuldade, mas também é uma das coisas que mais tem me feito aprender."

*Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados

Créditos

Imagem principal: Creative Commons

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