por Tania Menai

’’Ter duas mães num parto só não é privilégio de muitos. Mas este foi o final feliz de uma longa jornada, que começou há oito anos’’

O relógio marcava 17 horas e 24 minutos, no dia 9 de agosto de 2011, quando a pequena Amalia Matylda chegou ao mundo. Ela pesava 3,3 quilos e tinha 49,5 centímetros. Na sala de parto, em Boca Ratón, na Flórida, Ana (nome fictício), vivenciava as dores do parto acompanhada pelas mulheres de sua vida: a mãe, a avó e as irmãs. Mas nenhuma das familiares teve o privilégio de ser a segunda pessoa a segurar a bebê. Ali também estava a mãe adotiva da recém-nascida, a canadense Cathy Vignola, então com 43 anos. Foi ela a eleita, pela mãe biológica, a ser o segundo colo de Amalia.

Ter duas mães num parto só não é privilégio de muitos. Mas este foi o final feliz de uma longa jornada, que começou há oito anos, quando Cathy casou-se com o psiquiatra Joel Gold, em Montreal, no Canadá, cidade natal de ambos. "Eu tinha 35 anos, meu marido tinha 34. Por isso, tínhamos a certeza de que começaríamos uma família imediatamente. Mas isso não aconteceu", diz ela, com um charmoso sotaque francês, caminhando pelo descolado bairro do Park Slope, no Brooklyn, onde vive o casal. "Só consegui engravidar quatro anos mais tarde e perdi o bebê na quinta semana de gestação", lamenta.

A primeira alternativa, naquele caso, seria o procedimento de uma inseminação artificial. No entanto, Cathy - que é coach em nutrição, é vegetariana, faz yoga e meditação – tem aversão a medicamentos. "Não tomo nem aspirina. O caminho da injeção de hormônios e ingestão de remédios, necessários para este procedimento, não me agrada", diz ela.

Ainda assim, ela se abriu para a opção da inseminação intra-uterina: quando injeta-se o esperma diretamente na mulher, em vez de fazer a inseminação num tubo de ensaio. "Fiz isso mais pelo meu marido do que por mim; àquela altura ele já estava muito ansioso", lembra. "Mesmo assim, não tomei nenhuma medicação ou hormônios, apenas tive o procedimento da inseminação".

Quatro tentativas, nenhum sucesso. Os médicos já falavam em obter ovos de uma mulher mais nova, inseminá-lo e colocá-lo no útero de Cathy, que já, na época, completara 40 anos. "Isso não é para mim. Aquela oferta foi apenas uma confirmação de que aquela não era a estrada que eu queria seguir", conta ela. "Meu próximo passo foi conversar com meu marido sobre adoção – ele nunca esteve inclinado a adotar uma criança, mas desta vez, foi ele quem se abriu para uma nova idéia".

Em novembro de 2009, enquanto Joel digeria a nova possibilidade, Cathy engravidou – naturalmente – pela segunda vez. E pela segunda vez, perdeu o bebê na quinta semana de gestação. Essa foi a gota d’água para o caminho da adoção.

Orfanato não era uma opção. Cathy e Joel queriam criar um bebê desde suas primeiras horas de vida. A solução seria buscar uma gestante prestes a doar seu bebê após o nascimento, igualzinho à comédia-dramática Juno, que acumulou 232 milhões de dólares nas bilheterias em 2007. O filme conta a história a partir do prisma de uma adolescente de 16 anos de Minnesota, interpretada por Ellen Page, que engravida do ex-namorado e procura uma mãe adotiva para criar seu bebê.

Com algumas similaridades com a obra ficcional, em junho de 2010, Cathy e Joel foram apresentados a uma advogada de adoção, que atua na Flórida. "Aquele é um dos melhores Estados para pais adotivos: legislação local permite que em apenas dois dias depois do nascimento da criança, todos os papéis sejam assinados – o bebê é nosso e os pais biológicos abrem mão de seus direitos", explica Cathy. "Em outros estados americanos, este processo não acontece com a mesma rapidez".

A partir daí, a vida do casal virou do avesso. Um agente social visitou a casa de Joel e Cathy para fazer o que se chama de home study, ou um estudo do lar. Ela passou quatro horas analisando a casa e entrevistando o casal junto e separadamente. Este boletim teve de ser validado pela corte de família de Nova York, já que o processo estava acontecendo na Flórida.

"Temos de nos provar para os pais biológicos, para o advogado, para assistentes sociais, para o FBI – até impressão digital tivemos de tirar. Trata-se de uma quantidade infinita de documentos para provarmos, inclusive, que não temos passado criminal." Todas estas etapas são pagas pelo casal. Passada essa etapa, que durou dois meses, no final de setembro de 2010, os dois viajaram para a Flórida a fim de se reunir com a advogada. E assim, foi dada a largada para a busca da mãe perfeita.

Cathy e Joel não economizaram centavos – afinal, não se coloca etiqueta de preço em vida de filhos. Mas Cathy confessa que sua advogada é uma das mais caras do país por ser rígida com todos os envolvidos. Por exemplo, além de todos os custos legais, os pais adotivos são responsáveis por arcar todas as despesas da grávida durante a gestação: isso inclui aluguel, todas visitas médicas, acompanhamento psicológico (para se ter certeza que a gestante está convicta de sua decisão), além de um advogado que represente a grávida, dando equilíbrio às negociações.

Outra regra a jamais ser quebrada: ambas as mães só podem se comunicar por meio do escritório da advogada. Nada de e-mail, torpedo, Facebook ou telefone, mesmo depois do nascimento. Este aspecto difere crucialmente de Juno - no filme, a adolescente aparecia de surpresa na casa dos pais adotivo. Na vida real, as mães não compartilham nem endereço nem telefone. Estas exigências resultam num índice de 3% de falha desta advogada. Ou seja, apenas 3% dos processos atendidos por ela morrem na praia. Este número é minúsculo se comparado aos 17% de falha no restante dos processos de adoção nesta modalidade estado da Flórida.

O primeiro passo para se achar uma grávida é colocar um anúncio de página inteira nos jornais distribuídos gratuitamente na região – no caso, Boca Ratón. Neste anúncios, postado pelo escritório, o casal oferece pagar todas as despesas da gestante. E por esta razão, o feedback nem sempre é o melhor: muitas grávidas desesperadas por dinheiro acabam respondendo ao anúncio. Em alguns casos, elas praticamente trocam o bebê para poder pagar as contas durante os nove meses de gestação.

Cathy e Joel receberam cerca de 25 perfis de mães - e, em alguns casos, de casais - aptos a doarem seus bebês. "Havia pessoas drogadas e até uma mulher cujo bebê era o produto de um estupro – havia muita violência envolvida naquelas histórias. Entendo que estes bebês precisam de um lar saudável, mas não estávamos prontos para abrir mão de nossos critérios", diz Cathy.

"Meu marido é psiquiatra, então era importante para ele que não houvesse conexão com abuso de drogas, álcool ou doenças mentais. Ele trabalhou no setor psiquiátrico de um hospital por 15 anos, e viu o que acontece com bebês que nascem nestes ambientes", ressalta. "Talvez por causa de nossas exigências, a mãe ideal demorou mais para aparecer". Normalmente, o casal adotivo escolhe um dos perfis e comunica à advogada. A partir daí, a ela envia o perfil dos pais adotivos aos pais biológicos. Se eles gostarem, os quatro se encontram pessoalmente e seguem o processo até o nascimento da criança.

Finalmente, em fevereiro de 2011, Cathy e Joel escolheram uma mãe biológica: uma mulher solteira, cujo parto seria no final de junho. "Nós éramos o segundo casal adotivo que ela conheceu; o primeiro ela descartou. Ela queria muito que nós adotássemos seu bebê, tivemos uma ótima conexão", sorri Cathy.

O casal então recebeu toda a documentação para ser assinada. Foi quando a mãe biológica deu para trás. "Doar o bebê era o seu desejo racional. Emocionalmente, ela não estava preparada – e ela tem todo o direito de dizer não quando quiser", conta Cathy.

Para evitar essa montanha-russa de emoções, a advogada adotou a estratégia oposta: ela passou a enviar o perfil de Cathy e Joel primeiro para os pais biológicos. Se eles gostassem, a advogada então enviaria o perfil destes pais para Cathy e Joel. "Foi quando ela nos introduziu à Ana e Aron (nome fictício), um jovem casal de ex-namorados, grávidos há sete meses." Ana tinha apenas 21 anos e se dizia despreparada para ser mãe, apesar de seu ex ainda gostar dela e estar pronto para assumir a empreitada: história idêntica ao filme Juno; inclusive ambos pais biológicos, no filme e na vida real, são judeus – identidade que eles também dividem com Cathy e Joel.

Diferentemente dos perfis quase assustadores de pais e mães que Cathy e Joel receberam meses antes, este casal prometia: Ana vem de uma família unida e estável, tinha um teto, e um bom seguro saúde. Não havia histórico de abuso sexual, álcool ou drogas – apenas um pouquinho de rock'n roll, o que levou a uma gravidez indesejada.

Os jovens tampouco responderam a anúncios de jornal: Ana expressou ao seu obstetra seu desejo de doar seu bebê. O médico, então, a encaminhou para a advogada de Cathy, que imediatamente fez a conexão entre os casais. "Ficamos muito felizes, mas decidimos não celebrar imediatamente, porque nenhum acordo é finalizado até os papéis serem assinados após o nascimento. Tínhamos de estar preparado para se alguém desse para trás". Ela revela que fez um esforço para não se emocionar, apenas fazer o que era preciso burocraticamente para que a adoção acontecesse.

"Quando recebíamos boas notícias não ficávamos eufóricos, e quando vinham notícias ruins, procurávamos não despencar. Buscamos o equilíbrio, para manter o pensamento positivo", diz Cathy, que medita todos os dias, quando acorda e antes de dormir. Com este mantra, entre junho e agosto, ela foi para a Flórida algumas vezes para acompanhar Ana nas visitas médicas e ver sua menininha no ultrasom. A cada retorno a Nova York, ela estava mais certa de que, numa destas voltas, ela traria um bebê na bagagem.

No começo de agosto, o casal alugou uma casa em Boca Ratón e voaram para lá, coincidentemente, um dia antes de Amalia nascer. A família de Ana recebeu o casal com euforia, Ana e Aron assinaram os papéis e em dez dias, Amalia estava no Brooklyn. "No avião entre a Florida e Nova York ninguém acreditava no meu corpo de mãe de recém-nascido", brinca ela, que tem um corpo esculpido por décadas de yoga. "Eu apenas agradecia aos elogios", ri.

Uma das frases mais poderosas do filme Juno é "uma mulher torna-se mãe ao engravidar. Um homem torna-se pai quando o bebê nasce". No caso de Cathy, seu desejo em ser mãe era tão grande, que seus amigos e família já a viam como tal.

"Sou abençoada por ter recebido apoio incondicional de todos. Nunca senti nada negativo a minha volta. Inclusive, foi a minha sogra quem nos falou sobre a existência da nossa advogada. A maior dificuldade foi entre mim e meu marido – demorou até chegarmos à decisão que nos faria feliz."

Cathy, ainda sobre Juno, diz: "O que nos difere do casal do filme é o fato de os pais não estarem preparados para receber o bebê enquanto casal. Apenas a mãe estava convicta. Tanto que eles se separam e a mãe adota a criança sozinha."

"Eu jamais imporia a adoção ao meu marido. Acho que eu teria aberto a mão da maternidade por ele – ou então aquela diferença significaria que não deveríamos estar casados. Mas eu nunca o forçaria tomar um passo gigante como este", confessa. "Hoje, o sorriso de Joel ao segurar Amalia revela que ele é o homem mais feliz do mundo. Apesar das nossas novas olheiras, estamos prontos para começar tudo de novo para adotar um segundo bebê."

Sem dúvida, um sucesso de bilheteria.

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