Alô alô marciano
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Confesso que meu amigo Joaquim e eu fomos os últimos da nossa turma a comprar celular. Na verdade, eu nem comprei. Meu chefe, há uns anos, se irritou com a incapacidade de me achar e me deu um. Antes disso, bastava eu ligar do orelhão e pronto. Tudo bem que nós dois éramos motivos de piada, mas ao menos a gente ainda não tinha entrado no “maravilhoso mundo da satisfação aos demais.” E eu ainda argumentava: não sou mãe, nem obstetra, nem cardiologista. Ninguém precisa de mim urgentemente. Meses depois, Joaquim também se rendeu.
O problema do celular não é o aparelho – que foi feito para dar conveniência -, mas a falta de etiqueta de quem usa. Em Nova York, reparei: não se fala à mesa no restaurante. Isso realmente é o fim! Mas se fala andando na rua. E muito. O que será que tanto se fala? Aí tem as pessoas que já não tem linha fixa em casa, ou seja, se o celular estiver descarregado, elas ficam incomunicáveis. Há outras cujo celular não pega dentro de casa (juro!). E tem aquelas que aderiram ao blackberry, deixando a vida de qualquer um que as acompanha um inferno. Conheço gente que fala com você respondendo e-mail, seja no táxi, no restaurante ou no elevador. E tem também os que andam com o celular na mão. Quando chegam no lugar marcado, avisam. Só por avisar, afinal, o celular está na mão e o desejo de usá-lo é mais forte que o desejo de não perturbar o outro.
Certa vez, o David Brooks, hoje colunista do New York Times, disse que o celular passou a ser um instrumento onde as pessoas relatam suas vidas em tempo real: “Entrei no avião. Agora estou colocando as malas no guarda-volumes. Agora estou afivelando o cinto”. Na boa… who cares? Ele diz que devemos aproveitar as horas no carro, na rua, ou sozinhos, justamente para descansar a mente. Ou, pelo menos, usar o telefone para se encontrar com alguém no parque ou para dar notícias boas. Isso sim é uma delícia!
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