por Laís Fleury
Tpm #99

A brasileira Laís Fleury passou oito dias no Alasca como guia de sete senhoras americanas

Pat Schultz é uma americana de 70 anos que teve a ideia de reencontrar as amigas que conheceu há 40 anos no acampamento Northland, em Ely, Minnesota, onde trabalhou como instrutora de canoa por 20 anos. Resgatou o mailing das frequentadoras da década de 60 e convidou 450 mulheres para acompanhá-la em uma expedição de oito dias no rio Alatna, para praticar a mesma atividade de quando se conheceram: remar uma canoa canadense. Apenas seis embarcaram nessa aventura.

O rio Alatna integra o parque nacional Gates of the Artic, ao norte do círculo ártico, no Estado do Alasca. É conhecido como a última área intocada da América do Norte: não há estradas, trilhas nem placas e o acesso é feito por hidroavião fretado. Enquanto o popular parque nacional do Denali (onde fica a montanha mais alta da América do Norte) recebe 1 milhão de visitantes por ano, esse recebe apenas 4 mil.

Conheci Pat porque fui uma das instrutoras que a levaram para realizar esse sonho. No preparo para a expedição, percebi a idade avançada das minhas “alunas” pelas fichas médicas: uma delas tinha uma lista de dez remédios para ansiedade e controle de glaucoma. Outra acusava ter tido uma torção no joelho 26 anos atrás. Fiquei apreensiva. Não conseguia imaginar como seria fazer uma expedição de canoa com sete senhoras entre 50 e 70 anos em um lugar tão remoto.

Nosso ponto de encontro foi em uma simpática pousada na cidade de Fairbanks. Pat deu as boas-vindas e logo mandou seu recado para os instrutores: “Não gostaria que subestimássemos a capacidade física do grupo de carregar coisas pesadas e de remar por horas seguidas. Qualquer ajuda seria sinônimo de ofensa”. OK, hands off!

Pegamos um avião até Bettles, cidade de 23 habitantes, que tem uma rua e um hotel para receber turistas. De lá, fretamos dois hidroaviões até o lago Kutuk, já no rio Alatna. Levamos dez barris para estocar a comida oferecida pela administração do parque como protocolo de prevenção a ataques de ursos e cinco canoas Ally Pack desmontáveis, que cabem em uma mochila.

Sobrevoamos o vale do rio por uma hora e meia, e, do alto, já era possível perceber a chegada do outono. A vegetação rasteira da tundra nas montanhas já estava avermelhada, e as árvores nas margens do rio apresentavam um tom dourado.

Remamos três horas por dia. No primeiro, fomos saudados por um castor que brincava na água turquesa do rio e por bald eagles (águia típica do Alasca), que se colocavam imponentes no topo das árvores à procura de peixes. No verão, os rios descongelam e atraem milhares de salmões que viajam mais de 800 quilômetros contra a correnteza das águas salgadas do Pacífico até o rio Alatna para desovar. Nessa época, conhecida por salmon run, a pesca é permitida por eles já estarem no fim da vida. Garantimos nosso jantar quase todos os dias.

Os dias eram longos. O sol se assentava às 11h da noite. Além de remar, fizemos caminhadas e visitamos cachoeiras. A vantagem de caminhar é ter tempo para apreciar os detalhes da natureza. Tínhamos em mãos o guia Alascan Wildflowers, de Verna Pratt, e identificamos várias flores selvagens, que têm em comum o pequeno tamanho devido ao período curto de exposição ao sol ao longo do ano. De tão baixas, você se sente um gigante num jardim selvagem.

O esforço físico maior era montar e desmontar acampamento todo dia. Cada dupla que compartilhava uma canoa carregava os equipamentos individuais e parte dos do grupo. Os barris de metal aliados ao peso da comida somavam 20 quilos. Ficava agoniada em vê-las fazendo várias viagens até as canoas para descarregar o equipamento.

Acampar em terras de ursos exige disposição. As barracas ficam longe da área da cozinha uns cem passos para garantir a proteção do grupo longe do cheiro da comida. Elas pouco reclamavam de dores no corpo, mas tiravam a “siesta” à tarde.

Um dos maiores desafios era o frio. Pegamos chuvas de granizo e tivemos nossas barracas cobertas por gelo ao amanhecer. Para aumentar o desconforto, esquecemos que o metabolismo de um adulto em seus 50 anos é mais lento e levamos os mesmos sacos de dormir que usam os adolescentes com os quais trabalhamos. Tive que emprestar parte das minhas roupas quentes para Cindy, além de ferver água toda noite para ela dormir abraçada em sua garrafa.

Canto e contos
Expedições em lugares remotos naturalmente convidam os viajantes a momentos de introspecção e contemplação da natureza. Não foi o nosso caso. As amigas que não se viam há quatro décadas não deram espaço ao silêncio. Nos jantares, servidos ao redor de fogueiras, elas compartilhavam histórias de suas relações familiares e profissionais e surpreendiam-se ao descobrir o caminho que cada uma escolheu. Cantavam os hinos do acampamento, lembravam de momentos divertidos e, com um humor sarcástico, cutucavam uma a outra por se reconhecerem já quase na terceira idade.

O bate-papo constante da mulherada também durante o dia nos impediu de ver os animais. Na época em que fomos estava acontecendo a maior migração de caribus do Alasca. Cerca de 490 mil animais migravam do noroeste para o sul do Estado para fugir do inverno que se aproximava. Percebemos a presença da fauna local, como caribus, ursos e lobos, só por meio de pegadas frescas nos acampamentos e na margem argilosa do rio.

Acampar no frio, ficar uma semana sem banho quente e fazer esforço físico não é para qualquer um. Em nenhum momento as senhoras perderam o bom humor, estavam felizes por estarem próximas à natureza e entre amigas. A maioria delas era casada, mãe de família e com o processo de aposentadoria encaminhado. Falavam com orgulho de como os filhos estavam criados e, por isso, preparavam-se para retomar a liberdade, desfrutar a vida ao lado do marido, dedicar-se a trabalhos voluntários e deixar o mundo melhor para seus netos. Genial!

Me questiono se meu estilo de vida vai mudar aos 60 anos. Se quando tiver filhos minha liberdade e possibilidade de conhecer o mundo serão tolhidas e se terei amigas que prefiram acampar a se hospedar num hotel luxuoso na Europa. Essa experiência, enfim, me responde todas essas perguntas.

DICAS

COM QUEM IR A Nols não é uma agência de turismo, mas uma escola de formação de lideranças por meio de atividades ao ar livre em áreas remotas. Ela oferece cursos de várias atividades, como caminhada, escalada e canoagem, em diversos lugares do mundo e, sob demanda, organiza expedições para grupos menores. (800) 710-6657, www.nols.edu.

QUEM LEVA
Não existe voo direto de São Paulo a Anchorage, a maior cidade no Alasca. A escala geralmente é feita em Atlanta ou Seattle e custa em média R$ 3.130 ida e volta. Muitas companhias aéreas fazem esse trecho, como Alaskan, Delta e American Airlines.

COMO CHEGAR ATÉ O PARQUE Chegando a Anchorage, você consegue alugar um carro no aeroporto. Hertz e Avis são as locadoras mais comuns. Um carro econômico custa em torno de R$ 3.130 por sete dias. São 576 quilômetros até Fairbanks e a viagem dura oito horas. www.hertz.com e www.avisalaska.com. Lá, deve-se pegar um avião até Bettles. Nós fomos pela Wright Air Service, a passagem custa R$ 607 por pessoa, ida e volta. www.wrightair.net. De Bettles até o parque Gates of the Arctic é necessário fretar um hidroavião. O valor é cobrado pelo total do peso da aeronave, que inclui a quantidade de pessoas e equipamentos. Fomos com a Brooks Range Aviation e pagamos R$ 9.200 para dois hidroaviões, ida e volta. As senhoras pagaram, para a Nols R$ 4.416 cada uma, com toda a logística incluída desde Anchorage.

TÁXI AÉREO Como você só consegue entrar no parque por avião, vai precisar do serviço da Brooks Range Aviation. Esse é o principal táxi aéreo de Bettles. Você pode falar diretamente com o proprietário, Judy Jespern. (800) 692-5443, www.brooksrange.com.

ONDE FICAR Fairbanks É a porta de entrada para o centro norte do Estado e é acessada por estrada, algo raro no Alasca. Nada é barato por lá, devido à dificuldade de acesso. A pousada Ah! Rose Marie B&B é localizada na casa do proprietário, John Davis, que está lá diariamente para receber os visitantes. O café da manhã é bem simpático. O preço do quarto duplo sai R$ 165,60, com as taxas inclusas. (907) 456-2040, ahrosemarie@yahoo.com. BETTLES É uma das portas de entrada no Ártico. Por incrível que pareça, é no inverno a alta estação, devido à aurora boreal. Ela é muito visitada pelos japoneses, pois eles acreditam que ter relação sob a magia das luzes cintilantes da aurora boreal traz muita sorte para o casal. O Bettles Lodge é o principal “hotel” da cidade. Tem um restaurante gostoso, uma mesa de sinuca e à noite promovem um karaoke que os turistas japoneses adoram. Devido ao difícil acesso, a diária sai R$ 322 por casal. (800) 770- 5111, www.bettleslodge.com.

ONDE COMER Fairbanks O restaurante Lavelle’s Bistrot é bem gostoso, serve excelentes frutos do mar e grelhados de halibute (típico peixe do Alasca). Ele está localizado dentro do hotel Apring Hills Suítes. 575 First Ave, (907) 450-0555, www.lavellesbistro.com.

SOBRE O PARQUE
Para viajar pelo Gates of the Artic National Park and Preserve é preciso pedir autorização e agendar uma palestra com o guarda-parque do centro de visitação, Zachary Ritcher. O parque também oferece contêineres para estocar comida como prevenção de ataques de ursos. Acesse o www.nps.gov/gaar para mais informações, ou mande um e-mail para: gaar_visitor_information@nps.gov.

*Laís Fleury, 36 anos, além de trabalhar como instrutora de atividades ao ar livre para a Nols e a Outward Bound Brasil, é empreendedora social pela Ashoka

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