por Redação
Tpm #104

O mundo está mais feminino ou é a mulher que está mais masculina?

No Brasil, as mulheres representam 60% dos estudantes universitários. Ao mesmo tempo, ocupam mais postos de chefia do que nunca. Nos Estados Unidos, a maioria dos cargos de gerência já pertence à mulherada – que, por outro lado, anda com altos índices de doenças tipicamente masculinas, como hipertensão. Por tudo isso, é o caso de perguntar: A mulher é o novo homem? A repórter especial Nina Lemos, a escritora Marta Góes, a pesquisadora Denise Gallo e o psicanalista Oscar Cesarotto discutem. Se isso de fato for verdade, onde foi que erramos?

Gênero na passarela

Mulher-homem, homem-mulher: espaço para novas falas ou a urgência mercadológica em definir o “target”? - por Denise Gallo*

A mulher é o novo homem? Depois da Mulher Alfa, da Nova Mulher, da Mulher X, da Mulher Y, da Mulher 2.0, da Terceira Mulher, da Millenium Woman, da Mulher Polvo, olha só onde fomos parar: somos agora o novo homem. Tudo bem que os gêneros são mesmo frutos de práticas discursivas que mudam ao longo do tempo, mas as construções do gênero feminino na cultura contemporânea parecem mais sintonizadas com a lógica da moda – “o off-white é o novo preto” – do que com os reais e complexos desafios que afligem mulheres e homens do lado de cá das páginas das revistas.

Nas voláteis redes dessas significações, a pergunta feita por Freud no início do século passado – o que quer a mulher? – não só segue sem resposta, como agora vale também para os homens: o que quer o homem? Aliás, se pensarmos que masculinidade e feminilidade andam com contornos um tanto borrados, a própria afirmação “a mulher é o novo homem” não elucidaria muita coisa, já que ninguém mais sabe ao certo o que é ser homem também. Essas indefinições seriam muito positivas, caso servissem para impulsionar reflexões corajosas, para formular novas indagações e dar voz a outras respostas. A questão é que o (não) debate que se instaura na mídia é cheio de armadilhas perigosas que, no fim das contas, ora propõem uma mera inversão simétrica – homens-frágeis, mulheres-poderosas –, ora perpetuam os mesmos velhos clichês, como aquele que afirma que a nova economia é mais afeita ao talento feminino porque as mulheres são intuitivas e flexíveis, enquanto os homens são agressivos e competitivos e, por isso, não servem mais.

Quem mandou fazer sucesso?
Outra constatação “mil e uma utilidades”, repetida em praticamente todas as reportagens sobre o tema e que merece um olhar crítico, é que a emancipação da mulher é a grande responsável por suas mazelas. A mulher se igualou ao homem e, agora, está doente, está sozinha, está ferrada, coitada. Antes de mais nada, é preciso lembrar que não estamos na Suécia e que é bastante questionável falar em igualdade em um país onde uma mulher é agredida a cada 15 segundos, onde o debate sobre a legalização do aborto está no pé em que está, onde as capas das maiores revistas femininas ainda colocam no corpo belo o principal patrimônio feminino. Dessa forma, por aqui, ainda há bastante o que fazer antes de cantar a vitória da igualdade.

Mas, mesmo olhando com otimismo para os avanços, é curioso notar como a mídia gosta de falar do preço que as mulheres pagam por suas conquistas: “Conquistaram o mercado de trabalho e pagam o preço de continuarem solteiras”, “priorizaram a carreira e pagam o preço de não terem se tornado mães”. Pagar o preço, nessa fala, pressupõe que exista um desejo único que une todas as mulheres, uma “natureza feminina” que berra, inconformada, com o corpo que não obedece aos seus verdadeiros instintos: casar, acasalar com amor e ter filhos. Absorvemos essas verdades sem perceber que há nelas um determinismo do qual precisamos nos libertar, mesmo que seja para escolher ter a mesma vida que nossas bisavós. A mulher é o novo homem, o homem é a nova mulher, o que é ser homem, o que é ser mulher? Se está tudo em aberto, por que não experimentar novas configurações, sem a urgência mercadológica de dar contornos ao “target”? Feminino e masculino continuarão a ser aprendidos mas, quem sabe, com novas e mais surpreendentes lições.

*Denise Gallo, 40, é pesquisadora, mestre em comunicação e semiótica e estuda as representações da mulher na mídia e na publicidade. Seu e-mail: dgallo@uol.com.br

 

A semelhança certa

Já flagrou um colega de trabalho chorando no banheiro? Em alguns aspectos, não nos faria tão mal parecer com um homem - por Marta Góes*

 

 

De volta a uma redação, depois de trabalhar em casa durante alguns anos, notei diversas mudanças: leitura ótica em vez de crachás, boas-vindas no Twitter, mensagem em vez de conversa, tudo mais rapidinho. Mas voltei imediatamente no tempo, ao ouvir alguém perto de mim perguntar: “Já tomou o xarope?”, “Escovou os dentes?”, “Chame sua irmã: quem bateu primeiro?”. Foi tão nostálgico quanto cheiro de lápis de cor ou o som de uma música de época. Lembrei imediatamente do tempo em que minha cabeça se repartia entre títulos, fotos e legendas e alguém para buscar as crianças na natação, o dinheiro da faxineira, o presente do aniversário do amigo e a dívida: “Não, não vai dar para passar no Mac”. Revi, num flash, uma noite em que eu chorei escondida no banheiro de uma revista semanal, ao me dar conta de que, mais uma vez, quando eu chegasse eles já estariam dormindo.

Mas uma nota dissonante me saltou aos olhos, ou melhor, aos ouvidos, nesses telefonemas. Percebi que a conversa do xarope agora é também masculina. Para meu espanto (e alívio) encontrei homens tentando administrar demandas do cotidiano. De vez em quando um deles avisa da porta: “Vou buscar o Pedro no futebol e já volto”, “Vou para casa cuidar um pouco do Nicolas”. Pode ser que as redações agora sejam mais liberais do que a maioria dos ambientes de trabalho – não sei se nos bancos ou nos escritórios de advocacia os homens também se ocupam de assuntos domésticos. De todo modo, os jornalistas sempre se acharam supermodernos, mas eram convencionais na divisão de tarefas.

Tarefa não. Privilégio
As estatísticas mostram a mulher mais parecida com os homens – e, até, sofrendo das mesmas doenças que eles. Mas, num pequeno círculo, tão minúsculo que ainda não aparece nos radares, verifica-se o inverso: o cotidiano deles ficou mais parecido com o delas. Foram, digamos, persuadidos a dividir encargos: fica mais difícil escapulir de louças sujas, de geladeiras vazias, de rodízios quando se casa com mulheres que não acham natural cuidar da família sozinhas. E que, além do mais, dividem a conta. A surpresa é que muitos homens gostaram de participar da infância dos filhos. Compreenderam que se trata de um privilégio.

Já vimos isso acontecer em questões mais específicas. Encargos outrora invisíveis (as donas de casa apareciam nas estatísticas como “sem ocupação”) ganharam importância em mãos masculinas. Cozinhar, por exemplo, virou um programa: eles convidam os amigos, compram panelas bacanérrimas, plantam ervas. Cuidar das crianças também pode mudar de categoria. Pelo menos à minha volta, eles adoram buscar as crianças na natação. Exibem a alegria de quem escolheu, em vez do peso de quem foi obrigado a cumprir, a leveza de quem oferece, em vez do rigor de quem se cobra. Diante disso, acho pouco provável que algum deles já tenha chorado no banheiro, em noites de fechamento. Em alguns assuntos, não nos faria mal parecer mais com os homens.

*Marta Góes é jornalista, escritora e mãe de um filho e uma filha. Dirige a revista Private Brokers e é autora dos livros Alfredo Mesquita, um Grã-fino na Contramão, Mulheres Virando o Jogo, entre outros

Ser o novo homem? No, thanks

Lá em casa, livros de política convivem pacificamente com a minha coleção de esmaltes - por Nina Lemos

 


Ser o novo homem? Não, obrigada, não estou interessada. Vocês podem continuar exercendo a macheza de vocês numa boa. Eu gosto de ser mulher e estou muito bem dentro do meu corpo. Gosto de ser meio histérica, de ter pressão baixa, chorar fácil, ficar menstruada e ser maternal com todas as pessoas que aparecem pela minha frente. Gosto até de ser meio fresca. Só que eu também gosto de discutir política, de ter opinião, de ser livre, independente, me bancar. Mas isso quer dizer que eu não seja mulher? Não, pelo contrário. Vamos com calma.

É engraçado isso. É só a gente começar a ganhar mais (ainda menos que os homens) e a ter algum poder (ainda menos que os homens) e alguma liberdade, que logo começam a dizer que a gente é o “novo homem”. Não podemos ser apenas mulheres inteligentes, que trabalham duro, elegem presidentes, são eleitas presidentas, montam banda de rock, dirigem multinacionais, escrevem livros, pintam quadros?

Ter opinião, obra, força e coragem não quer dizer que a gente seja homem. Quer dizer que a gente é ser humano, do tipo mais ou menos bem resolvido. E que tivemos a mesma chance que eles de nos educar, estudar, saber. Direitos iguais. Isso não era para ser o óbvio?

Mas ainda não é. Ainda mais no Brasil. Quem cuida das tarefas domésticas quando chega em casa? E quantas mulheres que você conhece ganharam o apelido de “malcomidas” quando viraram chefes? Praticamente todas?

De homem pra homem?
Na minha casa, livros de política convivem pacificamente com minha coleção de esmaltes. E minhas obras completas do Freud estão perto dos meus cremes meio caros, mas que eu adoro. Todos os livros do grande homem Phillip Roth convivem com uma coleção de leggings de todos os gostos e cores.

E não é por ter a unha pintada de rosa que eu não vou poder negociar aumento em uma conversa com o chefe “de homem para homem”. Quantas vezes você ainda ouve essa expressão? Mas, não, a conversa é entre duas pessoas. Simples.

Muitas moças ainda se masculinizam quando assumem posição de poder. “Tem que ser mais brava que homem, senão você vai ser engolida.” Isso é um pouco verdade, ainda, infelizmente. E muitas mulheres caem nessa. Muitas também ainda têm medo de serem, assim, meio peruas. “Senão, não vão reconhecer que eu sou inteligente.”

Uma amiga minha, fodona do meio acadêmico, só teve coragem de assumir que adora se maquiar depois de alguns anos de análise. Espero que ela não sofra preconceito na academia por ser vaidosa. Tomara que ela não tenha que virar “um homem” se for reitora. É que ser mulher é superlegal. A gente ama. Tomara que o mundo deixe a gente continuar sendo garotas.

*Nina Lemos é jornalista, repórter especial da Tpm e uma das criadoras do blog 02Neurônio. É autora dos livros A Ditadura da Moda, Almanaque 02 Neurônio: Guia da Mulher Superior, entre outros

 

Mulher: o futuro do homem

Como ficará o mundo em que as novas configurações dependem de quem traz o leitinho para as crianças? - Por Oscar Cesarotto*

 


Anos há, um poeta disse que a mulher era o futuro do homem. Demorou. O futuro já chegou, com os homens sendo agora o passado das mulheres. Tudo o que eles faziam, elas também são capazes, igual ou até melhor. O parque humano, composto de dois grandes grupos, sempre dividiu os afazeres da vida cotidiana. Uns labutavam, outras pariam; dominava-se o mundo com o suor da testa, enquanto a dor alumbrava a existência, dentro de casa.

Num novo milênio, as conquistas femininas extrapolam o âmbito doméstico, abrangendo o planeta; ao mesmo tempo, o corpo de cada uma é reconquistado em causa própria. A medicina muito tem contribuído para harmonizar períodos & vontades, possibilitando ou impedindo a perpetuação da espécie, liberando das regras & suas exceções. A histeria (do grego hysteros, útero), como Freud demonstrara, é uma estrutura psíquica, para além do órgão, tanto que existe em versão masculina. Historicamente, porém, no comunismo soviético, quando todos desempenhavam as mesmas tarefas produtivas, as camaradas foram dispensadas de dirigir tratores, para que a vibração não afetasse as funções reprodutivas. Respeito à diferença, não discriminação.

Hay que enternecer
Hoje, nos Estados Unidos, são mais as trabalhadoras do que os operários. Não que eles sejam zangões, é que perderam o que elas ganharam. O desemprego joga os homens na rua, ou para dentro de casa, para serem os reis derrocados do lar. Na crise atual do capitalismo apátrida, consolida-se o matriarcado perante o declínio da figura do pai, humilhado pela inadimplência. Casamentos acabam quando a carteira assinada vale mais que o papel passado. As novas configurações familiares dependem de quem traz o leitinho para as crianças.

Em outras terras, a paternidade é reconhecida pelo Estado com meses de licença-prêmio para crescer junto com o recém-nascido. Assim caminha a humanidade. A oportunidade de ficar no ninho propicia que o macho vire coruja, para felicidade geral da prole & noites de choro mais bem distribuídas. Com essa previdência social, todos se beneficiam, podendo enternecer, mas sem perder a virilidade. As próximas gerações agradecem.

A grande questão, entretanto, é quem veste as calças; antes, o que tem por baixo. Para a fecundação, a tecnologia dispensa a penetração, outrora patrimônio & orgulho dos que não apenas produzem a semente, como também realizavam o delivery in loco. Tomara que não se percam certos costumes ancestrais, como fazer neném à moda antiga, ou brincar de kama sutra, ou pecar sem conceber, o céu não tem limite. O risco, mais do que a mulher ser o novo homem, é que o novo homem, o proletariado do consumo, não possa dar conta do recado sem Viagra ou cartão de crédito.

*Oscar Cesarotto é psicanalista, doutor em comunicação e semiótica e autor dos livros Um Affair Freudiano, Jacques Lacan – Uma Biografia Intelectual, Sedições, entre outros

 

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