por Luiz Antonio Ryff
Tpm #87

Capitã Pricilla, a mulher que mantém os traficantes longe da favela Dona Marta

Chefiando 125 homens da ocupação policial no morro Dona Marta, uma das mais famosas favelas cariocas, a capitã Pricilla é a única mulher no comando de tropa da PM do Rio

A capitã Pricilla desce o morro Dona Marta com a pistola na mão direita. As crianças gritam seu nome e acenam. Ela para e, enquanto segura a arma, acaricia a cabeça de um menino de 4 anos com a mão livre. Pergunta com doçura pelos irmãos do garoto. Vestindo um colete à prova de bala de 6 quilos, acompanhada por dois PMs que fazem sua segurança, um ao lado e outro atrás carregando um fuzil, ela caminha pelo labirinto de becos estreitos e escadarias pavimentadas vistoriando a favela. É seu dia de folga. Não há tensão no ar, mas não dá para relaxar. Sua cabeça está a prêmio. “Você acha que os traficantes gostam da ideia de terem perdido o morro para uma mulher?”, ela me pergunta.

É seca quando passa por alguém que tenha cumprido pena ou prestado pequenos serviços ao tráfico. Questiona se está trabalhando e deixa claro que está de olho. Na área mais pobre, no miolo da favela, onde 71 casebres ainda são de madeira, ela conversa com os moradores para saber se estão no cadastro das casas de alvenaria que serão feitas pelo governo federal. Ela recolhe donativos e escolhe as famílias mais necessitadas para receberem ajuda. Na falta de criminosos a combater, a polícia atua como mediadora de conflitos prosaicos, como briga de marido e mulher ou entre vizinhos. A capitã também proibiu os bailes funk. “Havia uma determinação judicial. E eles eram organizados pelo tráfico”, justifica.

À sua maneira, ela acumula a função de xerife da favela, papel tradicionalmente desempenhado pelo chefe do tráfico local, expulso pela polícia em dezembro. Para a comunidade, há décadas acostumada com a figura de um mandachuva, não resta dúvida, a capitã Pricilla é a nova dona do morro.

Desde dezembro ela comanda a Com­pa­nhia de Policiamento Comunitário do Dona Marta, chefiando 125 homens. Está à frente de um projeto piloto que é um dos grandes investimentos políticos do governo estadual: mostrar que é possível acabar com o tráfico em uma comunidade e melhorar a vida de seus habitantes com ações sociais.

O tráfico foi expulso no fim do ano. A avaliação é que o chefe, conhecido como Mexicano, tenha fugido levando cerca de 30 soldados e abandonado um faturamento mensal estimado entre R$ 150 mil e R$ 300 mil com a venda de droga. É um dinheiro que deixa de circular no morro, e muitos habitantes ainda se ressentem disso.

Depois que a polícia limpou o terreno, o poder público entrou com outras ações. Informalmente, a capitã faz contato com a prefeitura e com os órgãos públicos intermediando pedidos. As melhorias têm chegado. A quantidade de garis comunitários quase triplicou. Aumentou o número de médicos de família e a oferta de cursos técnicos. Uma escola de música está funcionando na sede da companhia da PM. Ela se orgulha desse papel. “Você vê a comunidade melhorar. As pessoas passam a ter sonhos. Gosto de ser um canal para essa comunidade que vivia à margem da sociedade.”

Michael Jackson e best-seller
A favela Dona Marta, em Botafogo, não é a maior do Rio. Nem a mais perigosa, ou a mais pobre. Embora pequena, com cerca de 9 mil moradores – uma gota no oceano de 1,1 milhão de pessoas que vivem em comunidades do tipo na cidade –, a Dona Marta é uma das mais famosas. Muito por causa de sua localização. Surgida nos anos 40, está no coração da zona sul, aos pés do Cristo Redentor e nas costas do Palácio da Cidade, a antiga embaixada inglesa e hoje sede da prefeitura. Os muros da mansão já foram alvo de algumas balas vindas da área vizinha. Do alto do morro é possível ver outros cartões-postais, como a lagoa Rodrigo de Freitas, o Pão de Açúcar e a baía de Guanabara.

A favela costuma ocupar as páginas dos jornais cariocas. Vez ou outra é notícia no exterior, como no violento confronto entre os bandidos Zaca e Cabeludo pelo controle do morro nos anos 80, quando o resto da cidade despertou para o poderio bélico dos criminosos. Em outra ocasião, em 96, o interesse da imprensa mundial foi motivado pela gravação do clipe de “They Don’t Care About us”, estrelado por Michael Jackson e filmado por Spike Lee. A segurança da produção do vídeo do rei do pop foi feita pelo tráfico. E o então chefe do movimento, Marcinho VP, repassou para obras na comunidade o dinheiro que lhe foi pago. Marcinho VP ganhou notoriedade a partir do episódio, ao dar uma entrevista a jornalistas. Depois, pela relação com o cineasta João Moreira Salles, autor do documentário Notícias de uma Guerra Particular, sobre o tráfico no Rio. E virou personagem central do best-seller Abusado, do jornalista Caco Barcellos, inspirado nele e no morro.

Apesar de tanto interesse e da vizinhança rica, a favela é um poço de problemas. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (cálculo da ONU para medir a qualidade de vida em um lugar, que vai de 0 a 1) é de 0,443. O equivalente ao da Eritreia, na África, o 164º país de uma lista com 179. Iluminação pública e sane­amento básico são os principais problemas. Apenas metade das casas tem rede de esgoto, o resto escorre pelos valões.

Preocupadas em transformar o Dona Marta em um modelo, as autoridades bolaram ações vistosas. Em junho foi instalado um plano inclinado de 450 metros – uma obra importante para um local que tem declives superiores a 60º em certos pontos. Em março, foi a primeira favela a ganhar uma rede de internet sem fio.

Presidente da Associação de Moradores da Favela, José Mário Hilário, 48 anos, reconhece a melhora. “Ainda não tá 100%. A comunidade está abandonada há 70 anos”, diz. Nascido e criado no morro, ele vivenciou a mudança dos barracos de madeira pelos de alvenaria, nos anos 80, quando a permanente ameaça de remoção virou garantia de posse. Também assistiu à chegada do tráfico e às guerras pelo controle. Ele não abre a boca para falar do tráfico. Sobre a presença policial, também é cuidadoso, mas diz que o relacionamento está menos conturbado. “No início houve muita desconfiança. Era uma ocupação da polícia e eles não conheciam ninguém.”

Os PMs contam que era comum que moradores cuspissem no chão quando passavam. A situação era mais complicada porque o chefe do tráfico era nascido na favela e querido na comunidade. No passado, meninas que conversassem com policiais tinham o cabelo raspado à maneira do que ocorreu com as francesas que confraternizaram com os ocupantes nazistas durante a Segunda Guerra.

Ainda é preciso ganhar a confiança e mostrar que a operação é de longo prazo. Muitos temem a repetição do que ocorreu em 99, quando a PM ocupou a favela e o governo prometeu realizar ações sociais. “Não fizeram nada. Dez meses depois, o Bope foi embora e o tráfico voltou”, lembra Zé Mário.

A capitã tenta convencer a todos que, desta vez, é pra valer. Aquariana, Pricilla Azevedo (“o nome é errado mesmo, meu pai é burro. Eu adoro”, ri) enfrenta sua missão mais importante aos 31 anos. Filha de um bancário aposentando e de uma professora de escola pública, está há 11 na PM, onde o tio é sargento. Entrou fazendo o curso de três anos para oficiais.

Bíblia e pistola
Para a tarefa no Dona Marta, seu nome foi referendado pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame. “A escolha recaiu sobre a capitã Pricilla por sua experiência e atuação de destaque em batalhões e comunidades de áreas conturbadas. É uma oficial que enfrentou e superou circunstâncias difíceis e seguiu as diretrizes da Polícia Militar. Hoje, a presença dela marca a nova realidade do morro.”

Até elogio do presidente Lula ela recebeu. Em uma cerimônia de entrega de casas do PAC no morro, ele tirou foto com a capitã. “É extraordinário ter uma mulher negra no comando”, declarou. Mas ela não quer ser diferenciada por ser mulher ou negra. Diz receber tratamento igual. Pricilla não é vaidosa. A unha é curta, sem esmalte. Mantém o cabelo preso, como manda o regulamento da PM. Não usa batom nem maquiagem. No máximo usa um hidratante labial. O visual é o mais discreto possível, um brinco pequeno e um anel de prata.

Ela vive para o trabalho, que lhe rende cerca de R$ 3.200 líquidos. Não raramente, em vez de ir para casa, em um município vizinho do Rio, dorme no posto de policiamento na favela. Nas poucas horas de lazer, gosta de churrascaria e de ir à praia para relaxar. Mas costuma ir sempre aos cultos da Assembleia de Deus. E não vê conflito entre Deus e a profissão muitas vezes violenta que escolheu. “Minha arma é a Bíblia quando tem que ser a Bíblia. E a pistola quando tem que ser a pistola”, diz ela, que pede a ajuda de Deus toda vez que atira.

Tranquila, pequena (tem 1,65 metro e 61 quilos), Pricilla olha timidamente e fala baixo. Difícil imaginá-la em situações de confronto contra bandidos, sua rotina, já que fez carreira em áreas conflituosas. “Eu mudo completamente. Me transformo. Nem gosto que falem comigo. Falo até palavrão”, admite envergonhada. Ela não diz se já matou alguém nem dá detalhes das operações. Mas admite que já viu colegas serem baleados em tiroteios. “Podia ter sido eu.”

Futura comandante

Medo de morrer só sentiu uma vez, quando foi vítima de um sequestro relâmpago em 2007. Saía de casa para ir ao culto evangélico com a mãe e a avó quando foi rendida por dois assaltantes. A mãe e a avó foram liberadas. Ela seguiu no carro. Os assaltantes ficaram irritados quando perceberam que ela estava sem dinheiro nem cartões de banco e começaram a bater. Foi amarrada, vendada, e ficou com uma arma enfiada na boca durante o trajeto até uma favela em Niterói, onde um grupo de cinco outros bandidos esperavam. Ouviu um deles dizer que ia revistá-la porque ela podia ser policial. Pricilla deu um nome falso. Para sua sorte, estava desarmada e sem documentos que a identificassem. Para seu azar, acharam munição e condecorações da PM. Ela disse que o namorado era PM. Apanhou ainda mais. “Bateram muito. Socos, pontapés... Pisaram na minha cara. Fiquei cheia de hematomas durante duas semanas.” Enquanto o carro era depenado, aproveitou a escuridão para fugir. Tentou pedir ajuda em uma casa, mas foi expulsa a vassouradas. Alertados pelos gritos, os criminosos a recapturaram.

Foi enfiada no porta-malas do carro. “Ouvi eles dizerem que eu estava dando muito trabalho, que era melhor tacar fogo no carro comigo dentro. Nessa hora, pensei que fosse morrer. E não queria morrer queimada. Preferia com tiro.” Com os pés, empurrou o banco traseiro que estava solto e conseguiu fugir mais uma vez.

Nos dias seguintes, voltou ao morro. “Prendi todos eles. Eu mesma. Ficou faltando unzinho. Quando eles me viam, eu olhava para a cara deles e falava: ‘E agora? Vocês perderam a oportunidade de me matar’”, conta com um sorriso largo. A experiência, em vez de traumatizá-la, lhe deu mais força. “Fiquei com mais vontade de trabalhar.” Depois de tudo que passou, ela se mantém focada no seu objetivo maior: um dia chegar a comandante de batalhão, um feito nunca alcançado por uma mulher na polícia do Rio. “Mas eu vou ser”, afirma determinada. “Não passei esses perrengues todos à toa”, sorri.

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