Nos acostumamos a pensar que o Google sabe tudo, mas, quando o assunto é diversidade, é Christiane Silva Pinto quem tem as respostas

Quando criança, Christiane Silva Pinto sonhava em ser engenheira aeronáutica ou astrônoma. Mal sabia ela que esses planos não dariam certo, mas que a vida a levaria a ser responsável por grandes transformações dentro de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. Em 2014, quando tinha apenas 23 anos, ela criou o AfroGooglers, comitê de igualdade racial do Google Brasil. O trabalho que começou a desenvolver ali aumentou o número de pessoas negras que trabalham na empresa no país. Hoje, aos 28, no posto de gerente de marketing, é uma das principais vozes do mundo corporativo brasileiro na luta por igualdade racial.

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“Chris é uma dessas garotas fora da curva, com quem divido uma jornada ativista”, diz Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta, maior evento de cultura e empreendedorismo negro da América Latina. “Ela faz um trabalho incrível no Google. Fiz duas palestras lá e, desde então, tenho uma grande admiração pela Chris”, conta Eliane Dias, CEO da produtora Boogie Naipe, que cuida dos Racionais MC’s.

“Sofro racismo desde meus 2 anos. Era chamada de macaca, neguinha. Não tinha a opção de não saber que sou negra”
Christiane Silva Pinto

No debate de abertura da Casa Tpm, em agosto passado, Chris – Chocochris para os amigos – falou com leveza sobre temas como privilégio, meritocracia e racismo. “No movimento negro me perguntam: ‘Você tem paciência de escutar um comentário racista e ainda assim parar para ensinar a pessoa?’. Se eu ficar conversando só com os negros, que são a minha prioridade, a gente vai se educar, mas as pessoas que detêm o poder não vão mudar de mentalidade. E infelizmente a gente precisa delas”, disse no debate que abriu o evento.

Em nome do pai

A trajetória bem-sucedida de Chris foi impulsionada pelo caminho cheio de curvas que seus pais, nascidos em famílias humildes, tiveram que percorrer. “Tem muita superação na história deles, o que me fez buscar o meu melhor”, conta. “Desde pequena, sempre quis ser a melhor aluna. Pensava que minha obrigação era ir além de onde eles conseguiram chegar.”

Sua mãe, Marlene, começou a trabalhar aos 5 anos, carregando lenha, no interior de Minas Gerais. Foi doméstica, costureira e terminou o ensino médio em um supletivo, com a filha no colo. Seu pai, Arnaldo, deficiente físico desde os 6 anos, foi criado pelos irmãos, que o incentivaram a estudar. Com um mestrado em contabilidade, trabalhou em grandes empresas. “Só cheguei aonde cheguei porque, apesar de tudo o que passaram, meus pais conseguiram nos dar educação de uma forma que a

maioria dos negros não consegue ter acesso.”

Graças ao esforço deles, Chris estudou em uma escola particular e fez curso de inglês. “Mas sofro racismo desde meus 2 anos. Era chamada de macaca, neguinha. Não tinha a opção de não saber que sou negra. Meus pais não são militantes, mas era impossível não falar disso em casa.”

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Quando terminou o último ano do ensino fundamental, foi aprovada no curso técnico em eletrônica integrado ao ensino médio. Eram pouquíssimas alunas e apenas uma professora, que escutava comentários machistas. Chris chegou a ouvir de um dos professores que deveria desistir do curso, quando teve dificuldade em uma das matérias. Ela foi até o fim e se formou, mas o machismo que viu ainda na sala de aula a fez desistir da futura carreira. Seguiu o conselho do professor de violão, que percebeu sua criatividade e sugeriu que ela fizesse jornalismo. Chris passou com uma das melhores notas na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.

“Tinha acabado de sair da universidade e passei a liderar pessoas que estavam na empresa há muitos anos”
Christiane Silva Pinto

Na faculdade, fez intercâmbio na França. Foi estagiária da revista Capricho, onde entrevistou celebridades como Katy Perry e Taylor Swift, fez matérias sobre sexo lésbico e levou meninas negras para o grupo de consultoras da revista. “Comecei a me perceber trabalhando pela inclusão. Eu já tinha um pouco essa cabeça, mas não era tão atuante no movimento.”

Chris entrou no Google na área de recursos humanos, onde atuou por seis anos. O AfroGooglers nasceu do incentivo dos organizadores do comitê norte-americano Black Googler Network, que ficaram impressionados com a proatividade da jovem para organizar esse movimento dentro da sede brasileira. “Tinha acabado de sair da universidade e passei a liderar pessoas que estavam na empresa há muitos anos”, lembra. “Não era normal você ver uma menina recém-efetivada sentada para conversar com o presidente da empresa, fazendo reunião com os grandes líderes executivos. Isso desenvolveu muito a minha carreira.”

A princípio, ela reuniu cinco pessoas no comitê; hoje são mais de 130, entre negros e brancos. “Trocamos informações, vídeos, ideias, depoimentos entre funcionários negros e aliados. Se queremos conversar, educar e conscientizar, realmente precisamos de uma integração muito grande, porque, no fim das contas, o que queremos é que esses aliados se conscientizem e possam ser realmente antirracistas, e não só não racistas.” Todos os posicionamentos relacionados a raça, seja para dentro ou para fora da empresa, passam pelo comitê, como a criação dos Doodles temáticos, que já homenagearam Milton Santos e Carolina de Jesus, a escolha de convidados e palestrantes em eventos e os programas de recrutamento. “Não somos afro convenientes, tudo sempre vai passar pelos profissionais negros.”

Ideias em expansão

Chris também comandou projetos como o YouTube Black Brasil, que incentiva criadores negros de conteúdo e serviu de modelo para ações parecidas em outras sedes da empresa pelo mundo. No departamento de marketing, ela realiza um trabalho com foco em diversidade e inclusão. “Já fiz muito para dentro da empresa, pelo RH. Agora, quero fazer para fora, em campanhas que são vistas por milhões de brasileiros”, diz. “Por essa minha experiência, aprendi muito mais sobre outras comunidades. A gente precisa entender qual é o nosso lugar de fala e nosso lugar de escuta, para usar isso de forma consciente e falar em defesa também dos grupos dos quais não fazemos parte.”

 

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Para ela, crescer sem acesso à história do negro no Brasil, dos movimentos e da resistência impacta diretamente na saúde mental de afrodescendentes, o que ela sentiu na pele. “Tive depressão em 2017 e até hoje estou me curando. Nadar tem me ajudado muito, é como meditar”, conta. “Quando morre uma menina como a Ágatha Félix, as pessoas brancas pensam ‘poxa, que merda’. Eu sinto como se ela fosse minha prima.”

“No fim das contas, o que queremos é que esses aliados se conscientizem e possam ser realmente antirracistas, e não só não racistas”
Christiane Silva Pinto

Chris também usa seu tempo livre para ir a eventos do movimento negro, painéis, palestras, feiras. “É onde mais aprendo.” Mas também sabe se divertir. Ela é uma das organizadoras do bloco Cerca Frango, criado por ex-alunos da ECA— USP, que sai no bairro de Perdizes, na zona oeste paulistana. “É meu momento preferido do ano!” Há quatro anos namora um funcionário do Google.

Hoje, sua palavra de ordem é “aquilombar”. “Priorizo estar com pessoas negras, ir a eventos do movimento, fazer parte de grupos de mulheres negras.” Ela frequenta o Aparelha Luzia, um quilombo urbano e cultural em São Paulo. Vai a shows de artistas negros como Xênia França, Rincon Sapiência, Tássia Reis, Luedji Luna, Liniker, Racionais MC’s. Lê livros de autores negros. Trança seu cabelo com afroempreendedoras. E compra roupas de estilistas negros, como Isaac Silva, e da Dresscoração. Tudo isso para fortalecer o movimento. “Sucesso para mim é saber que eu continuo indo na direção que eu acredito.” Dentro ou fora do trabalho, Chris segue firme nela.

Créditos

Imagem principal: Alex Batista

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