por Redação
Tpm #142

Estela Renner, Bela Gil, Neka Menna Barreto e Marcos Palmeira falam a respeito

“A indústria alimentícia é extremamente competente na distribuição de produtos. Por onde você anda, existe uma opção de compra de comida a poucos metros de distância. O dinheiro gasto para comprar um salgadinho é pequeno. Contudo, se você for comparar de fato, esse investimento não é tão pequeno assim. Por exemplo:  1 quilo de salgadinho é bem mais caro do que 1 quilo de laranja.

A indústria também se vale da composição ultrapalatável de seus produtos. Uma mistura de gordura, sal e açúcar faz com que os produtos tenham aceitação enorme perante o paladar do consumidor. Já o consumidor acha prático, barato e gostoso comprar um produto industrializado. E, se na comunicação do produto ele lê: ‘néctar’, ‘zero gordura trans’ e outros termos do tipo, por que não comprar? 

Educação é tudo. Se a sociedade tivesse plena noção dos malefícios do excesso de sal, açúcar e gordura, estaria mais preparada para se defender dos assédios diários da indústria. Logo o consumidor vai entender o seu poder. Vai sacar que, a cada compra que faz, ele está votando. Está elegendo a empresa que merece seu real. Comer mal parece ser mais barato, mas não é. Comer bem é mais barato, tanto na compra mensal quanto no longo prazo, pois quem se alimenta bem gastará menos com remédios no futuro. A saúde não está na farmácia, está na cozinha.

A comida orgânica já é mais acessível hoje. Em São Paulo, existem várias companhias ótimas que entregam esses produtos em casa – como Caminhos da Roça, Sítio A Boa Terra, Sementes de Paz, Organic Delivery. Escolher dar seu dinheiro para essas companhias é votar em um sistema de agricultura integrado, é votar na cultura de diversidade de sementes e produção local.

O que venho dizendo desde que fiz o filme Muito além do peso é que a indústria não terá opção. Terá que partir para uma linha de produtos que visam saúde. E saúde mesmo, na composição de produtos, e não no rótulo. Por quê? Porque os grandes visionários da economia sabem que essa será a nova tendência mundial. O consumidor tem, hoje, mais acesso à informação do que o presidente dos Estados Unidos tinha 20 anos atrás. Ele logo saberá quais empresas de fato têm saúde na sua composição de produtos e quais estão apenas querendo vender mais.”

Estela Renner, 40 anos, diretora e roteirista de ficção. Lançou em 2012 o documentário Muito Além do Peso, que retrata a epidemia de obesidade entre crianças no Brasil

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“Comer bem não é necessariamente mais caro, se a pessoa se dedicar a preparar os alimentos. Porque o preço barato que pagamos no fast-food se deve justamente à rapidez e ao ultraprocessamento no seu preparo. A base dos alimentos rápidos e industrializados está em produtos subsidiados, como trigo, milho, soja, leite e carne.

Para isso mudar, um incentivo do governo seria necessário. Infelizmente isso não ocorre com frequência, até porque uma sociedade saudável não traz dinheiro a nenhum setor. O ideal por enquanto é comprar diretamente do produtor, porque a maioria dos supermercados cobra de 100% a 300% sobre o valor de compra.”

Bela Gil, 26 anos, nutricionista e apresentadora do programa Bela cozinha, no GNT

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“Caro é poluir rio, envenenar lençóis freáticos, machucar a terra, matar abelha, mudar o ritmo da flora e da fauna. Isso é muito caro. As leis no Brasil ainda aceitam muita coisa que já é proibida em outros países. 

Não existe uma lei que controle o sitiante que enfraquece sua terra com agrotóxicos. A comida que nasce dessa terra parece que é, mas não é. Um morango não é um morango 100% morango. Se pensarmos com amplitude, olhando toda a cadeia do alimento até chegar na nossa mesa, é muito mais caro o alimento não orgânico. O preço vai para a saúde. Aí você vai comprar um remédio, quanto custa? E um médico? Orgânicos são um pouco mais caros, mas quem os consome gasta menos com médico. Nunca foi tão fácil comprá-los. E a solução para barateá-los é justamente aumentar a demanda e a oferta. É importante popularizar o orgânico e, claro, informar o quanto ele traz benefícios em uma escala maior que sua própria cozinha.”

Neka Menna Barreto52 anos, chef, banqueteira e nutricionista

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“Primeiro precisamos entender o que chamamos de mais barato. Não estamos mensurando o gasto com remédios nem a destruição da natureza. Esse valor precisa ser revisto, mas acredito que, quando os consumidores exigirem a informação de origem do que estão comendo, esse preço tende a ficar mais justo. Ele jamais será igual ao de um alimento convencional industrializado, produzido por alguém que é explorado por quem vende.

A comida orgânica será mais barata com a cobrança do consumidor pelo aumento da oferta. Ainda perdemos produtos no campo. O mais importante é entendermos o real valor do alimento. O que está embutido nesse ‘mais barato’ dos alimentos convencionais? Na produção orgânica ganha quem produz e quem consome. Sem atravessadores.”

Marcos Palmeira, 50 anos, ator e produtor de alimentos orgânicos

 

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