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Zapping

Depois do controle remoto nunca mais fomos os mesmos

em 21 de setembro de 2005

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    Alguém de vocês se lembra quando tínhamos que levantar da poltrona pra mudar o canal de TV? Quando cada salto da Globo pro SBT significava também um salto da cadeira? Quando a mudança de um programa pra outro exigia não somente um movimento mecânico dos dedos, mas um exercício de comprometimento e negação simultânea com os canais da TV?

   Pois tudo mudou com o controle remoto. Não, não foi só a TV, nossa vida mudou.


   Me pego horas a fio numa compulsiva repetição de botões, com olhos estalados de desatenção. Passo por tudo. Não vejo nada. Vivemos trancafiados numa infinidade de opções. Tudo culpa do controle remoto. Um dia o estudarão e dirão que ele foi o começo do fim. Pois o controle remoto não só permitiu a comodidade. Ele instaurou o descompromisso. Havia no pular da cadeira o ato do homem decidido. O homem ACC (antes do controle remoto) era um homem mais pleno do que o homem PCC (pós-controle remoto). Não era comum, entre o ACC, a angústia que o gatilho da liberdade remota traz consigo. Tínhamos o bom e o mal, os comunistas e os não-comunistas, as ideologias e seus compartimentos estanques. E éramos escravos de nossas poltronas e de nossa inércia. Mas uma mudança implicava decisão pensada, desejo refletido. Mudávamos da Globo pro SBT. Passávamos da Record pra Bandeirantes. E tudo levava tempo e engajamento.


   E então veio o controle remoto, e o muro de Berlim em nosso entretenimento se desmoronou. Agora podemos transpor fronteiras sem escalar obstáculos. Não é mais preciso compromisso de escolhas. E os laços de fidelidade também diminíuram. Nossa ansiedade então atingiu as alturas no zapear da TV. O esforço agora é inverso. Só muita maturidade te deixa mais de um minuto num mesmo canal, atento ao mesmo programa. O que também explica porque os homens, mais que as mulheres, zapeiam sem fim nos canais da TV. Estamos todos perdidos, procurando o cálice sagrado em meio a uma infinidade de escolhas. É a ansiedade e a angústia, ali, ao alcance dos nossos dedos.


   A lei áurea do controle remoto nos condenou à descompromissada liberdade de escolhas, jogando-nos na sarjeta dessa vida abertamente democrática. Tudo à disposição imediata. O controle remoto trouxe a comodidade. Mas o preço foi o descomprometimento. Com a dinastia do controle remoto a avenida então estava pronta para os canais a cabo e as TVs 24 horas. A notícia se agilizou, mas entramos na raia do fungível. E a zapearmos e sermos zapeados. ?Zapeamos? a TV, mas também a internet, zapeamos pelas vitrines e pelos relacionamentos. Zapeamos ao comer desatentos. Zapeamos pelos nossos celulares e pelas nossas amizades.

   Há quem veja nisso uma bobagem, uma estupidez antitecnólogica. Pessoalmente acho que o controle remoto continua o marco civilizatório. Nem mesmo Bush conseguirá trazer de volta a simplicidade, o nosso curto leque de escolhas entre o certo e o errado. Estamos todos condenados à angústia da informação no atacado.

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