por Carol Ito
Trip #273

Victor Santos começou a esquiar no asfalto paulistano no projeto Ski na Rua. Em fevereiro representou o Brasil na Olimpíada de Inverno colocando em prática tudo o que aprendeu longe da neve

É manhã de sábado no campus da Universidade de São Paulo e Reginaldo Gomes convoca os alunos para uma conversa antes do treino do Ski na Rua. “Não esqueçam que têm que cuidar melhor do equipamento. Vocês irão crescer e trocá-lo por um maior, mas outras crianças vão poder usá-lo depois”, explica o instrutor da ONG.

Desde 2012, o Ski na Rua atende crianças e adolescentes carentes da comunidade de São Remo, próxima à USP, oferecendo três treinos gratuitos por semana, entre o movimento de carros, ônibus, ciclistas e pedestres do campus. Lá, eles aprendem a técnica do rollerski, uma modalidade praticada no asfalto que foi criada na década de 50 na Europa, além de disciplina e coletividade.  

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Foi no projeto que Victor Santos teve seu primeiro contato com o roller, aos 15 anos. Apenas cinco anos depois, em fevereiro passado, disputou pela primeira vez os Jogos Olímpicos de Inverno, em PyeongChang (Coreia do Sul), na prova de 15 quilômetros da modalidade cross-country (em que os atletas percorrem grandes distâncias em terrenos planos, ao contrário do alpino). Terminou na 110ª colocação.

Filho de um pedreiro e de uma dona casa, Victor, 20 anos, cresceu na comunidade de São Remo. Trabalhou em um lava-rápido, entregando água para assessorias esportivas no campus da universidade e guardando carros na USP nos fins de semana. Conheceu o projeto por meio de um dos seus sete irmãos, Paulo Santos, 24, que também compete pelo Brasil no rollerski e no cross-country. Victor se deu bem com o roller desde o começo, o que o fez abandonar a sonhada carreira no Exército.

Gelada

O primeiro contato com a neve aconteceu há quatro anos, no Chile, para aprender o biathlon, modalidade que mistura esqui com tiro. Depois, foi convocado para a equipe brasileira de cross-country e decidiu focar na modalidade. Disputou dois campeonatos mundiais juniores e um adulto, viajando para países como Suécia, Itália e Áustria.

A condição da neve é o que mais desafia os atletas: “Se nevou recentemente, ela fica mais fofa; se fez muito frio, há mais gelo embaixo. Essa percepção não tem como simular no Brasil”, explica o treinador e criador do Ski na Rua, Leandro Ribela, 38.

Ele acompanha Victor desde a primeira experiência com o roller. “Foi muito recompensador ver o amadurecimento dele ao longo dos anos”, lembra. Ex-atleta olímpico, Ribela competiu nos Jogos de Inverno de Vancouver (2010) e de Sochi (2014), quando alcançou a melhor posição de esqui masculina do Brasil na competição (80º na final do sprint estilo livre), somando dez anos de carreira.

Decidiu parar aos 34 anos para se dedicar mais aos alunos do projeto. “Tinha milhões de outras coisas na vida pra tocar e passei a me sentir muito mais útil na ONG, contribuindo para o crescimento do esporte, do que treinando, sem chance de chegar a um top 10”, explica.

Sua ligação com a São Remo vem da infância, quando começou a frequentar o campus da USP. Filho de uma pesquisadora da instituição, participou como voluntário de projetos sociais da universidade e chegou a cursar economia, sem concluir a faculdade. Conheceu alguns moradores do bairro e percebeu que eles tinham tempo ocioso que poderia ser preenchido pelo esporte.

Hoje, o Ski na Rua atende a cerca de cem alunos, de 6 a 18 anos, e conta com três funcionários, todos moradores da São Remo. “A gente tem esse compromisso de fazer os recursos que arrecadamos voltarem para a comunidade”, diz o treinador. “Quem não conhece, pode achar que a São Remo é violenta, mas, em geral, é bem tranquila. A criminalidade vira o caminho mais fácil quando os meninos não têm referência”, conta Victor, que é um modelo para outros jovens que sonham em seguir carreira no esporte.

Ribela conheceu o esqui em uma viagem de família a Bariloche (Argentina), aos 12 anos. “Fiquei fascinado pela neve, aquilo foi muito marcante.” Aos 18, foi trabalhar nos Estados Unidos como instrutor de esqui alpino e se profissionalizou no esporte. Ele conheceu o rollerski quando procurava alguma atividade para fazer no verão e decidiu, anos depois, trazer a modalidade ao Brasil. “O cross-country e o rollerski são bem parecidos na técnica. O equipamento é o mesmo, o que muda é que no asfalto usamos as rodinhas e trocamos a ponta do bastão.”

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Mesmo sem neve, o esqui segue crescendo no Brasil, com núcleos de treinamento em Jundiaí – que conta com um grupo só de meninas –, São Carlos e Santos (SP), além do desenvolvimento de treinos para pessoas com necessidades especiais, que Ribela coordena junto ao Comitê Paralímpico Brasileiro. Se depender dele, muitos outros esquiadores ainda vão trocar o asfalto pelo gelo.

Créditos

Imagem principal: Gustavo Harada / COB

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