por Carlos Nader
Trip #185

Documentário revive o festival da Record de 1967, momento essencial da música brasileira

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, disse o imortal escritor russo Liev Tolstói. Transformada num clichê igualmente universal, a frase visitou a cabeça deste passageiro colunista enquanto eu assistia a Uma noite em 67, documentário dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil (diretor de Redação da Trip), com estreia prevista para maio. A noite em questão é a final do III Festival da Música Brasileira, realizado pela TV Record em outubro de 1967. Entre os concorrentes mais memoráveis, apresentaram-se Edu Lobo com “Ponteio”, Gilberto Gil com “Domingo no parque”, Caetano Veloso com “Alegria, alegria”, Chico Buarque com “Roda viva”, Roberto Carlos com “Maria, Carnaval e cinzas” e Sergio Ricardo, cujo nome da música não importa porque ele concorreu num quesito híbrido, talvez mais esportivo do que musical, mas nem por isso menos importante no universo pop: o arremesso de violão quebrado em cima do público.

 Uma noite em 67 gira em torno dessas apresentações. É um documentário sobre seis canções. Simples assim. O complexo, na história do filme e do Brasil, é que em torno dessas apresentações giraram e ainda giram as questões mais essenciais da nossa cultura popular. Popular ou pop? Engajada ou alienada? Enraizada ou antenada? As polaridades que desde sempre energizam nossas manifestações artísticas colocaram-se no palco da Record com uma clareza e uma vitalidade tão únicas que já levaram muita gente a rotular aquela noite como “a mais importante da MPB”.

 
O documentário sabe, felizmente, evitar esse tipo de mitificação que abafaria toda a complexidade orgânica e muitas vezes contraditória que ainda emana daquela noite. Feito um This is it reflexivo, o filme nos conduz sem firulas estéticas a reviver a experiência do festival, mostrando as canções na íntegra e complementando-as com depoimentos pensantes, mas sempre emocionalmente endógenos, nunca acadêmicos ou friamente analíticos. Assim, por exemplo, Zuza Homem de Mello, um dos maiores historiadores da MPB, é na tela a memória viva de um jovem microfonista do festival. Nelson Motta é um letrista concorrente que torcia pela vitória de sua música. Caetano Veloso, mesmo através das reflexões sofisticadas que sempre produz, é um artista começando a projetar uma carreira seminal. E Chico Buarque idem.
 

É de Gilberto Gil a participação que traduz mais inteiramente o clima milionário de contradições da época. Lá pelas tantas, o filme nos mostra que ele realiza a duvidosa proeza de participar de uma caduca passeata antiguitarra em SP pouco tempo antes de colocar Os Mutantes, com a guitarra de Sérgio Dias, ao seu lado no palco. Num depoimento emocionante, ele afirma essa e outras contradições, dizendo que a soma transcendente delas é, sempre foi e sempre será o signo de sua música. Nesse sentido, ele encarna com malemolente exatidão um Brasil não só daquela época, mas de todas. E dá sua contribuição ao documentário de Terra e Calil que, nesse diapasão, pinta uma só noite para ser eterno.

* Carlos Nader é cineasta, colunista da Trip e diretor do documentário Pan-Cinema Permanente

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