Um lugar do caralho
Acampamento do Fórum Social Mundial consegue manter a paz entre 20 mil gringos, punks e hippies
Imagine uma cidade-acampamento armada em um parque, com 20 mil habitantes, quase todos jovens: hippies-clones-do-Raul, adolescentes freaks, esquerdistas revolucionários, punks anarquistas, largados, curiosos e maconheiros em geral. Boa parte é gringa, algo como um quinto das pessoas. Esse amontoado conviveu pacificamente por cinco dias na chamada ?Cidade das cidades?, o Acampamento Intercontinental da Juventude, o coração do 3° Fórum Social Mundial de Porto Alegre.
Considerado pelos organizadores um ?laboratório social?, o acampamento é isso mesmo. Além de ser a alternativa mais barata para acompanhar o Fórum (R$ 10 de contribuição por barraca, para ficar todos os dias), o espaço tenta provar, na prática, que ?outro mundo é possível? ? o mote do Fórum.
Claro que há probleminhas de convivência, como alguns poucos casos de barracas roubadas, algumas cantadas mais agressivas, banheiros imundos e uma barulheira 24 horas por dia (mesmo). Nada que impedisse um impressionante clima de harmonia, dada a enorme diversidade dos presentes.
Na ?Cidade das cidades? há dezenas de lojinhas. As de comida só vendem produtos naturebas, tipo suco de clorofila, croquete de soja ou os famigerados sanduíches naturais. É proibida a venda de bebida alcóolica no acampamento, o que provocou um curioso mercado negro de camelôs em todas as entradas do lugar. A maconha era liberada, apesar da constante presença da Brigada Militar (PM em ?gauchês?) e de alguns seguranças particulares.
Uma atração à parte foram os gringos. A maioria era latina, sendo o grosso da Argentina. Mas tinham centenas de japoneses, americanos e europeus.
A ala gay estava presente, com a bandeira do arco-íris no mesmo mastro da bandeira comunista. E uma das cenas mais hilárias foi uma minipasseata pela paz com 50 japoneses batendo em uns tamborzinhos, e gritando palavras de ordem indecifráveis em inglês.
Duas rádios comunitárias livres funcionavam dentro do acampamento, que recebia diariamente pilhas do ?Terraviva?, o jornal diário do Fórum, que mistura reportagens em três línguas: inglês, espanhol e português.
Por fim, a moeda corrente, ao lado do real, era o sol. Algumas barraquinhas de câmbio faziam a troca, um real para cada sol. Todos os comerciantes aceitavam. Idéia de um holandês maluco que mora no Brasil, e defende uma moeda mundial sem juros.
Após um fim de semana nessa agradável balbúrdia, voltei com muitas dúvidas e só uma certeza: se é para globalizar, que seja dessa forma.
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