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Trinta anos depois

No último segundo de minha pena eu ainda estava preenchendo meu tempo pensando, escrevendo e estudando. Hoje estou aqui fora, ainda escrevendo, estudando e pensando junto com você que me lê neste instante

em 21 de setembro de 2005

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Não podemos ter apenas recordações e destino. Precisamos construir um futuro verdadeiro, que não se pareça nem um pouco com o que fomos ou com o que somos. Algo criativo, uma intervenção direta na invenção de nosso futuro. Ardemos por metamorfo-ses, somos um desejo aberto por surpresas. Vivemos a nos interromper, considerando-nos insuficientes e incompletos. Um buraco sem fundo a absorver o que for de melhor, e às vezes pior, que a vida oferece.


Trinta e um anos depois, tudo é cons-ciência do que eu poderia ter sido e não fui. Ao mesmo tempo em que começo a gostar do que construí de mim. Tirei leite de pedra porque, do nada, inventei um mundo. Modelei-me segundo princípios pessoais. Nada a ver com família, raça, classe ou escola. Minha família foram os amigos presos; minha raça, a humana; minha classe, a dos que sofrem; e minha escola, a vida. A compaixão desenvolveu minha percepção. Estive cara a cara com a dor mais grosseira. Senti na pele o sofrimento mais violento. Às vezes era como se estivesse dentro da barriga de uma cadela a latir furiosamente. Então, aprendi a avaliar o quanto sofrem as pessoas e as amei em suas dores e misérias mais íntimas.


Fui me sentindo responsável por isso e querendo, desesperadamente, fazer alguma coisa. De dentro de meu coração, senti vontade de abraçar cada pessoa que sofre e chorar com ela todas as suas dores. Quis participar de suas vidas para ajudá-las. Chamam isso de compaixão. Eu, de sentimento. Pessoas me perguntam como é que agüentei todos esses mais de trinta anos de prisão. Respondo com outra pergunta: como é que seria não agüentar? Estar morto? Eu não tinha escolha. Fui obrigado a agüentar. Então, eles completam a pergunta: como é que suportei lúcido, sem perder o coração e ainda aprender, crescer e amar. São unâ-nimes em afirmar que não agüentariam.


Nada está pronto, respondo. E sei que nada sei, Sócrates me ensinou. Foram aprendizados básicos para mim. Sabia que aqueles que me julgavam e prendiam não sabiam da vida mais que eu. Claro que eles possuíam seus títulos e domínios. Mas que dor sabe-riam eles aplacar? Que solução poderiam oferecer ao sofrimento de uma criança que perdeu a mãe, por exemplo? De que merda valiam seus certificados se, frente ao que há de mais terrível e doloroso, eles só poderiam chorar, como eu? Não podiam criar leis: ?diante de tais circunstâncias, fica terminantemente proibido sofrer?.


 


Leitura


Duas posições orientaram meus cami-nhos na prisão. A primeira delas é que eu deveria sair. Não importava muito como, e sim quando. A segunda, e mais importante, é que o tempo era todo o tesouro que possuía. Aproveitá-lo da melhor maneira possível passou a ser minha meta principal. Então, jamais me permiti passatempos. Enquanto a maioria jogava ou torcia pelo futebol com aquela paixão desbravada, eu estudava. Estava apaixonado pelo conteúdo dos livros. Enquanto a conversa era sobre a vida dos outros, eu me calava. Não tinha com quem conversar o que aprendia e escrevia. Aprendi a escrever porque não podia falar. As pessoas que gostavam do que eu apreciava estavam fora das muralhas. Meu estilo, desenvolvi escrevendo cartas. Era preciso conquistar corações e conservar pessoas por escrito.


Na cadeia, enquanto se brigava e matava por pederastia, futebol, drogas ou simplesmente para movimentar a rotina esmagadora, eu devorava livros e pensava solitário. Cumpri minha pena refletindo sobre cada fato, cada dor e cada alegria. Foi a indignação que me deu forças para inaugurar meu futuro. Quis que minhas decisões fossem golpes de invenção. Busquei chegar aonde não se esperava.


Quando, no último segundo de minha pena, o guarda veio me procurar para me dizer que arrumasse minhas coisas para ir embora, eu ainda estava preenchendo meu tempo pensando, escrevendo e estudando. Acho que esta é minha resposta mais clara: estou aqui fora, ainda escrevendo, estudando e pensando junto com você que me lê neste instante. Meus parabéns para você!


 


*Luiz A. Mendes, 50, há três anos escreve para a TRIP. Mendes cumpriu a pena máxima prevista pela justiça brasileira, 30 anos, por assalto e homicídio, e hoje vive em Barra do Piraí (RJ), ao lado de sua companheira, Oneida Borges. Seu e-mail é: l.mendesjr@ig.com.br

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