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TOLERÂNCIA É ZERO

O cineasta-viajante expõe o que está por trás do bom-mocismo europeu

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Semana passada fui a um convênio de financiadores, produtores e cineastas ingleses aqui em Londres. Os financiadores explicaram em que tipo de filmes eles estão interessados em produzir. Comédias, histórias românticas, filmes de ação etc. Mas quem mais me interessou foi um financiador muito elegante que declarou o seu interesse por ‘ethnic and minority-related themes’. Traduzindo e resumindo: filmes com personagens não loiros de olhos azuis, para incrementar a tolerÂncia racial. Ele foi aplaudido de pé.
Essa política é – aparentemente – muito louvável, pois dá espaço nas telas a outras culturas, as tais minorias étnicas. Mas saí do encontro sentindo uma profunda náusea – porque demagogia me dá nojo. No fundo, essa tolerância racial da qual eles tanto se orgulham vira lei só porque ela serve única e exclusivamente para camuflar o enorme racismo que viceja na Europa. É verdade que hoje as coisas são muito diferentes e que o passado é um outro planeta. Mas às vezes é útil lembrar que essa mesma Europa que se esmera tanto em parecer boazinha exterminou índios, judeus e negros.

Racismo de butique
Aqui, sempre em nome dessa falsa ‘bonzinhice’ do caralho, as grandes empresas são obrigadas por lei a contratar negros, asiáticos e paraplégicos. Gente que é discriminada. É claro que se essa lei não existisse, a situação seria muito pior. Mas o mundo que a torna necessária me faz querer vomitar.
Na Europa não se pode fazer piada racista. Porque eles são racistas de verdade e levam o assunto a sério. Estava mixando o som do meu último filme num estúdio na Alemanha e fiz a besteira de contar para a turma uma piada que ouvi no Brasil e que adoro. Fiz de conta que estava dizendo uma coisa séria e falei solenemente: ‘não sou racista’. Eles me olharam com aprovação. Fiz uma pausa e disse: ‘eu só não gosto de alemão’. Eles ficaram meio assustados e me perguntaram por quê. E eu respondi: ‘porque disseram que iam matar todos os judeus e não mataram. Fizeram um trabalho de preto’. Ninguém riu e até o final da mixagem o clima no estúdio ficou bem desagradável. Juro que não queria agredir ninguém – logo eu, um judeu, esfregando o holocausto no nariz da alemãozada. Para mim, era só uma piada entre amigos. Admito que fui muito infeliz na escolha.
O próprio conceito de ‘tolerância racial’, como diria o grande escritor português José Saramago, é profundamente racista. Como pode ser um bem eu apenas te tolerar só porque a tua pele, a tua religião e o teu idioma são diferentes dos meus? Sou contra a tolerância racial, porque sou a favor da aceitação total e irrestrita de todos os indivíduos em todas as sociedades. Sei que sou um ingênuo e, às vezes, minha pieguice pode causar enjôo. Mas o mundo continua grande o bastante para todos nós. Tolerar o prÓximo É muito pouco.

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