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Toda a verdade sobre a Verdade

Políticos, filósofos e jornalistas falam sobre ela, mas só a Assessoria de Absurdos a entrevistou

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Não foi fácil, mas encontrei a Verdade. Segundo meu informante, ela faz ponto perto da Universidade de São Paulo (USP). Reservada e desconfiada, atende a um seleto grupo de clientes. Tudo estava combinado, eu pagaria caro, mas poderia entrevistá-la. Desde que não a filmasse nem revelasse exatamente seu local de trabalho.
A Verdade é alta, nordestina e tem silicone nos peitos, bochecha e glúteos. Faz questão de ser chamada por pronomes femininos, mas basta um olhar para entender: a Verdade é um transformista castigado pela idade.
Somos apresentados e caminhamos até um ponto de táxi, local escolhido para a entrevista. Cético, pedi para olhar sua carteira de identidade. Ela riu: ‘Nunca peça para um traveco mostrar os documentos’. Um sorriso amarelo depois, ela retirou o papel da bolsa. Confirmado: seu nome é realmente Verdade. Verdade de Souza.
‘Tá vendo? Já nasci com o nome certo: já ouviu falar em O Verdade? Seu Verdade? Tio Verdade?’, diverte-se. ‘Meus pais já sabiam do meu futuro.’ Sentamos e começamos a entrevista.

Assessoria de Absurdos: De onde vem a Verdade?
Verdade: Do Recife, sou pernambucana.

Assessoria de Absurdos: Você, algum dia, perguntou para os seus pais por que eles lhe deram esse nome?
Verdade: Meu pai era um homem muito religioso. E gostava de um trecho da Bíblia que dizia ‘Eu sou a verdade, o caminho e a vida’. Além de mim, tenho um irmão chamado Caminho e uma irmã chamada Vida.

Assessoria de Absurdos: Tiravam muito sarro da sua cara quando você era criança?
Verdade: Tiram mais hoje em dia.

Assessoria de Absurdos: Como assim?
Verdade: Os meus clientes, entende? Tem uns professores da faculdade aí em frente que toda sexta mexem comigo: dizem que vão esculhambar a Verdade. Mas eu não ligo. Tá cheio de gente que diz que me ofende e que me defende. Quero que neguinho me deixe em paz.

Assessoria de Absurdos: São professores da USP?
Verdade: Não sou cagüeta. Fico na minha, porque até político aparece aqui. Sempre me enchem o saco. Por isso eu não quero que você diga onde é meu ponto nem que tire fotos. Pode sujar para o meu lado.

Assessoria de Absurdos: Por que não usa pseudônimo?
Verdade: Tenho vários deles. Mas tem cara que descobre. Por que não vão cuidar das suas próprias vidas? Querem transar? Vem cá que eu resolvo, sou profissional. Mas não me venham com conversa.

Assessoria de Absurdos: Que tipo de coisa lhe dizem?
Verdade: Que eu não existo. Dessa parte eu gosto. Acho que é elogio. Mas tem um sujeito que pede que eu o pegue por trás e diga que ele está, como é que diz?, ‘sendo subjugado pela verdade’. Que diabo é isso?

Assessoria de Absurdos: Você não sabe?
Verdade: Não. Sou semi-analfabeta. Mal sei assinar o meu nome.

Assessoria de Absurdos: Subjugar é dominar.
Verdade: Ah, nisso eu sou boa. Antes de vir para São Paulo, eu lutava boxe. Mas tinha muito preconceito.

Assessoria de Absurdos: Há quanto tempo você está na rua?
Verdade: Sei lá. Acho que desde…

A Verdade teve de calar. Uma viatura se aproximava e, pelos faróis altos, não estava na folha de pagamento. ‘Eles sempre mandam carne nova para tirar grana da gente’, disse o traveco, enquanto se levantava, apressado. Um taxista gritava: ‘sai fora, mano, vai sujar pra gente também’.
Corremos uns três quarteirões e nos encostamos num muro. Baixei a cabeça, tentando respirar. E, quando dei por mim, a Verdade tinha sumido. Como a minha bolsa, meu dinheiro e equipamentos. Sentei e olhei a madrugada, me sentindo um idiota. Como poderia provar para alguém que, por alguns minutos, vi toda a Verdade?

e-mail:eduf@revistatrip.com.br
site:Eduf.com

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