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Para nunca mais esquecer

Jornal norte-americano vem publicando obituários tardios de homens e mulheres negros que não foram devidamente homenageados quando morreram

Para nunca mais esquecer

Por Luara Calvi Anic

em 10 de maio de 2019

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Norte-americanos são mestres em contar a própria história. Transformar em filme, literatura, música a vida e a morte de seus personagens. Não à toa uma das seções mais lidas do jornal The New York Times é o obituário. Um espaço destinado principalmente àqueles que foram protagonistas em suas épocas – o que revela também privilégios e preconceitos. “Um obituário solitário conta uma história de vida, mas quando reunido com outras pessoas em uma página de jornal ou em um livro pode refletir coletivamente a sociedade que, na verdade, foi quem deu o lugar de vanguarda à essas pessoas”, escreve o editor desse espaço no jornal, William McDonald, no prefácio de Book of the Dead: Obituaries of Extraordinary People (2016), uma coletânea de obituários memoráveis.

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Desde 1851, quando a seção foi criada, os falecidos que passaram por lá foram 80% brancos e, em sua maioria, homens. Ciente disso, o jornal começou, no ano passado, o projeto Overlooked (ou “esquecido”), uma série que relembra grandes mulheres que morreram em outras épocas e foram ignoradas. No começo do ano, o jornal lançou o projeto Black History Month, e vem publicando obituários tardios de homens e mulheres negros que não tiveram seu merecido perfil póstumo.

A seguir, selecionamos três desses norte-americanos que marcaram história, mas que só agora tiveram sua merecida homenagem no jornal.

Nos anos 1920 e 30, a cantora e pianista Gladys Bentle desafiava os costumes ao vestir cartola, fraque e peças masculinas em bares de blues / Créditos: Coleção do Museu Nacional Smithsoniano de História e Cultura Afro-Americana

Gladys Bentley (1907-1960)
Nos anos 1920 e 1930, a cantora e pianista desafiava os costumes ao vestir cartola, fraque e peças masculinas nos speakeasies (bares ilegais que funcionavam durante a Lei Seca norte-americana). No bairro do Harlem, em Nova York, emocionava a audiência ao ir longe nos timbres do blues, acompanhada de um coral de drag queens. Ficou famosa especialmente entre a comunidade LGBTQ ao questionar padrões impostos às mulheres e declarar abertamente a sua liberdade sexual, uma ousadia para a época. Os anos 1950, no entanto, trouxeram uma onda conservadora que a obrigava a usar saias em algum shows. Na época, embora fosse assumidamente lésbica, declarou ter casado duas vezes com homens. E publicou um artigo em uma revista com o título “Me tornei mulher novamente”, em que dizia ter tomado hormônios femininos para ajudá-la a assumir uma identidade heterossexual. Morreu aos 52 anos, de complicações de uma gripe.

Major Taylor (1878-1932)
Em uma época em que as corridas de bicicleta eram um dos esportes mais populares do mundo, o atleta foi o primeiro campeão mundial afro-americano de ciclismo e o segundo atleta negro a vencer um campeonato mundial esportivo. Ainda assim, sofria constante discriminação racial. Há relatos de que o público jogava água enquanto ele competia e adversários colocavam pregos na pista. Em 1897, depois de uma corrida em que ficou no segundo lugar, o competidor William Becker, terceiro colocado, chegou por trás de Taylor, jogou ele no chão e tentou sufocá-lo. Apesar de toda a hostilidade que sofreu, Major Taylor ganhava todas e rodou o mundo competindo, tornando-se famoso especialmente na Europa. Com o passar dos anos, no entanto, foi perdendo espaço para novos competidores, até morrer aos 53. Seu legado foi guardado e divulgado pela filha, Sydney Taylor Brown. Hoje, embora o ciclismo seja um esporte ainda majoritariamente branco, diversos clubes no mundo levam o nome de Taylor, como bem lembrou o The New York Times.

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Marsha P. Johnson foi uma ativista LGBTQ, defensora de jovens gays desabrigados e das pessoas portadoras de HIV / Créditos: Reprodução

Marsha P. Johnson (1945-1992)
Ativista LGBTQ, defensora de jovens gays desabrigados e das pessoas portadoras de HIV. Seu objetivo de vida, como declarou em uma entrevista para um livro de 1972, era “ver pessoas gays livres e com direitos iguais aos de outras pessoas nos Estados Unidos”, com seus “irmãos e irmãs gays fora da prisão e nas ruas novamente”, como publicou o The New York Times. Um ícone das ruas do bairro do Greenwich Village na Nova York dos anos 1980, Marsha P. Johnson trabalhava como prostituta, o que a levou a ser presa inúmeras vezes. Engajada e performática, chegou a posar para Andy Warhol e, recentemente, sua trajetória foi lembrada em um documentário do Netflix A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson (2017). O filme também investiga a causa de sua morte, aos 46 anos – ao que tudo indica sob circunstâncias obscuras.

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