Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Semana passada fiz uma barberagem na Euston Road. Fiz um contorno malfeito e raspei a porta de um outro carro. O motorista saiu do seu veículo furioso e me disse: ‘You’re a fucking cunt’ (você é uma buceta fodida). Esse é o maior insulto para um inglês: chamar ou ser chamado de ‘cunt’ (bu-ceta). Eu acalmei o indivíduo, pedi desculpas e dei o número do meu seguro. Entrei de novo no carro pensando: tem alguma coisa de estranho com a sexualidade de um povo que usa o órgão genital feminino – que eu associo com desejo e prazer – para exprimir raiva e ofensa. É que o clichê corresponde à verdade: os ingleses preferem um bom chá das cinco a uma trepada.
Ainda no trânsito, continuei no meu devaneio: ‘Buceta’ não é uma boa palavra, me parece grosseira demais para exprimir algo singelo e tesudo. Vagina, por outro lado, é muito científica. Outras possibilidades, como por exemplo ‘xereca’, ‘xana’ ou ‘xavasca’ – palavras que eu nunca soube se são escritas com x ou ch – também me soam pejorativas, inapropriadas. ‘Xoxota’ talvez seja o termo mais certo porque, apesar de ser meio infantil, pelo menos é carinhoso.
Acho bacana que a nossa cultura antropofágica nos permita associar livremente sexo e nutrição. Por exemplo: ‘Comia concu-nhada do Cléber Mendonça. Ela é muito gostosa’. Mesmo na Itália, berço de uma grande tradição culinária, não se chega a tal extremo. E lá, estra-nhamente, sexo é associado com vassouras: ‘scopare’, que literalmente quer dizer ‘varrer’, significa também ‘transar’. ‘Ti voglio scopare’, que significa ‘quero transar com você’, literalmente é ‘quero te varrer’.
Lugar do caralho
Porque somos machistas pra caralho, o ‘caralho’ no Brasil não é usado como ofensa, mas como elogio. Por exemplo: ‘Durante o certame contra o América, o beque do São Bento de Governador Valadares jogou pra caralho’. E, para atestar a nossa caretice, usamos o cu para ofen-der. Mas não é verdade que, por exemplo, para um gay que curte sexo anal ‘vai tomar no cu’ não cola como ofensa? E o que dizer dos portugueses que não usam nunca a palavra ‘bunda’ e chamam nádegas de ‘cu’. Não é estranho que para eles não exista diferença entre uma coisa e outra? Em português lusitano, ‘vou levar o meu puto para tomar uma pica no cu’ equivale ao brasileiro ‘vou levar o meu menino para tomar uma injeção na bunda’.
Eu queria tanto conhecer todas as línguas para viver comparando as coisas do mundo… Mas esse meu papo não tem conclusão. É só isso aí. A TRIP está comemorando o seu centésimo número e, em vez de escrever algo inteligente que valesse a pena, o imbecil aqui escreveu um monte de baboseira – de asneiras misturando o cu com as calças.
Caro leitor, não perca o seu valioso tempo escrevendo cartas me criticando. Sou o primeiro a admitir que este mês a minha coluna esta uma grande josta. Espero que o pessoal da TRIP, cansado das minhas piadas sem graça e atendendo a um apelo do público, não resolva me cortar da revista. Prometo que, no próximo número, vou ser menos chato, vou tentar parar de ser metido a engraçadinho. Vou parar também esta auto-análise inútil e desagradável que não interessa a ninguém.
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