Ser negro na universidade é foda

por Dandara Fonseca

Thelminha, Luciana Barreto, Alberto Pereira Jr. e outros profissionais negros compartilham suas experiências no ambiente acadêmico e relatam como é ocupar este espaço ainda tão desigual

O ambiente universitário é muitas vezes sinônimo de solidão para pessoas negras. Entrar em uma sala e não se ver representado em seus colegas é uma situação comum na vida de quem consegue acessar este espaço ainda tão branco. Apesar da política de cotas, adotada por algumas universidades públicas, auxiliar na diminuição da desigualdade racial no ambiente acadêmico, o cenário em instituições particulares e em cursos considerados elitizados ainda é muito diferente.

Uma das formas mais visíveis de se observar essa discrepância são em fotos como a que viralizou da médica Thelma Assis em sua formatura na universidade. A vencedora do Big Brother Brasil 20 não tinha nenhum colega negro em sua turma. Luciana Barreto, jornalista e âncora da CNN Brasil, também era uma história única em seu curso. "Eu me entendi como mulher negra e percebi a luta que eu tinha pela frente nos corredores da PUC, porque eu nunca tinha tido que lidar com tantas diferenças", conta.

Convidamos Thelminha, Luciana, o jornalista Alberto Pereira Jr. e outros três profissionais negros para compartilhar com a Trip suas experiências no ambiente universitário. 

Thelma Assis, 35 anos, médica anestesista, bailarina clássica e vencedora do BBB 20 

"Ao longo da minha vida, estive em vários ambientes onde era a única negra. Aconteceu quando me formei bailarina clássica, que é um curso elitizado, e nos dois anos de curso pré-vestibular, onde era uma minoria. Eu sempre me sentia desconfortável com essa situação, mas ao mesmo tempo utilizava esse cenário para servir de incentivo. Eu podia estar ali fazendo a diferença, estimulando outras pessoas a ocuparem esse espaço.

Entrei na PUC-SP em 2006, com bolsa de 100% pelo ProUni. O campus de Medicina era em Sorocaba e, das cem pessoas que formavam minha turma, eu era a única negra. Dos 600 alunos da faculdade, os negros não chegavam a dez. É impressionante como, em ambientes onde somos a minoria, acabamos nos vendo em outras pessoas negras e nos aproximando. Mesmo não tendo contato com todas elas, era um sentimento de fortalecimento, de admiração.

Não cheguei a sentir preconceito racial, as pessoas da universidade eram bem esclarecidas e me recepcionaram bem. No entanto, a desigualdade social era discrepante. Era possível ver nas roupas, materiais, livros, realidades. Nas férias eles viajavam, faziam coisas que eram muito fora da minha realidade. 

Como as pessoas negras não têm acesso às universidades de Medicina, o mercado de trabalho reflete esse lado estrutural. De todas as equipes que trabalhei, eu era praticamente a única anestesista negra. Eu ficava muito feliz quando encontrava algum outro colega, mas foram poucos, de contar nos dedos. Depois do BBB, tive o prazer de ser inserida em um grupo de 257 médicas negras, que visa fortalecer e incentivar cada vez mais nossa participação na profissão."

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Alberto Pereira Jr., 33 anos, artista social, jornalista e apresentador do “Trace Trends”, programa sobre cultura afrourbana da Rede TV 

"Estudei minha vida inteira em apenas um colégio particular na zona leste de São Paulo. Na minha sala, eu era um dos três negros de uma turma de quase 40 pessoas. Paralelo ao ensino médio, fiz técnico de informática na Federal, onde também havia poucos negros. Esse padrão se manteve quando fui fazer jornalismo no Mackenzie, em 2004. Na minha sala, de cinquenta alunos, éramos cinco negros. Já no teatro, em que me formei no Indac em 2018, de uma turma de 20 alunos, eu era o único.

Mesmo tendo vivido essas experiências desde a infância, o meu despertar e meu questionamento maior para questões raciais começou de fato na faculdade, quando passei a tirar a naturalidade e entender meu lugar de acesso. Meu pai e minha mãe são formados na universidade, lutaram para dar uma boa educação para mim e para meu irmão, era uma família negra em ascensão socioeconômica.

Estar nessa classe média, em um lugar que tem mais pessoas brancas, é uma vida de neutralizações. Embora sempre me entendesse como negro, minha mãe raspava meu cabelo quando era criança para deixar mais neutro. Claro que as pessoas sabiam que eu era negro, mas o cabelo cortado e as roupas que se usa acabam minimizando aspectos da negritude. Na faculdade foi onde comecei a entender mais sobre isso, usar Black Power, passar por um processo de empoderamento de quem eu era. 

Os empregos que lidam com criatividade, com arte, ainda são muito restritos para pessoas negras. Fiz muitas coisas artísticas na minha infância, mas não era algo incentivado como profissão, era mais como um hobby. Porque a preocupação dos meus pais era a estabilidade. Demorou muito para eu poder me aceitar, entender e falar que eu sou um artista.

Na hora, vivendo tudo isso, eu não me sentia sozinho. Mas hoje vejo como não olhei para várias questões, como não me sentir desejado enquanto homem gay, não sentir possível ser amado pelo meu entorno, porque ele não era igual a mim. 

Eu acho que a inserção de pessoas negras melhorou, mas ainda estamos muito longe do ideal. Ainda mais em universidades particulares, onde o acesso é muito restrito. Melhoramos, mas sinto que do jeito que estamos agora vamos regredir, porque, além das políticas afirmativas que estão sendo retiradas, a gente precisa ter um incentivo na educação básica, que ainda não melhorou."

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Luciana Barreto, jornalista e âncora da CNN Brasil

"Eu comecei o curso de jornalismo na PUC-RJ em 1997. Entrei por um projeto social que se chamava pré-vestibular para negros carentes. Era uma iniciativa que a PUC encampou muito antes de existir cotas ou o ProUni. Nele, alunos pobres e periféricos tinham bolsa de 100%. Ele começou em 1996 e fui a terceira aluna a entrar.

Eu fui a única estudante negra daquele ano no curso de jornalismo. No início, foi muito difícil porque eu tive um choque racial e social muito grande. Era uma pessoa periférica, pobre, em uma faculdade de elite que não tinha negros. No primeiro dia de aula, eu estava muito mal porque aquele ambiente era uma estranheza muito grande para mim. Lembro que saí da sala de aula e comecei a chorar no corredor. E uma colega de sala, a Ana Julia – que inclusive, por curiosidade, é a menina para quem a banda Los Hermanos escreveu a música –, veio me consolar. Ela me abraçou e me falou para não desistir. Não que eu fosse. 

No primeiro momento, essa estranheza faz com que você recue, mas posso dizer que encontrei uma acolhida grande. Da PUC como faculdade, principalmente do coordenador do curso que organizava essas bolsas, o professor Augusto Sampaio, e de colegas. Logo eu consegui entender que existiam ali pessoas que não conheciam as nossas demandas, mas que me acolheram muito bem, como o grupo de amigos que mantenho até hoje. É um grupo que me deu todo o tipo de apoio, de livros, de lanches, de roupas. E o emocional também. Isso foi muito forte e importante para que eu concluísse o meu curso.

Eu me entendi como mulher negra e percebi a luta que eu tinha pela frente nos corredores da PUC, porque eu nunca tinha tido que lidar com tantas diferenças. Foi enfrentando elas que fui construindo a minha própria identidade. Acho que talvez isso faça da minha militância muito agregadora, uma tentativa eterna de união por uma causa."

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Pedro Borges, 28 anos, jornalista e um dos idealizadores do portal Alma Preta 

"Entrei na Unesp Campus Bauru em 2011, no curso de Comunicação Social/Jornalismo. Nessa época, a universidade não tinha nenhum programa de inclusão racial, então era um acontecimento quando chegava uma pessoa negra. Por isso, senti uma enorme solidão. Muitas coisas eu não colocava para fora porque sabia que meus colegas brancos não iriam entender. Você acaba sufocando sentimentos dentro de você. Além disso, as piadas e os comentários racistas eram muitos e uma normalidade naquele momento.

Para a branquitude, se formar em uma universidade é um ciclo natural da vida. A pessoa nasce, entra em uma escola e já é provocada sobre qual faculdade vai fazer, qual curso. Para as famílias negras, é algo completamente fora da curva, uma novidade para nós enquanto grupo. Por isso tentamos ser o melhor, dar valor para esse espaço.

Além de gostar de esporte, sempre fui muito pagodeiro e sambista. No ambiente acadêmico, existe um pensamento de que se o cara gosta desse tipo de música, ele não deve falar de política. É como se perdesse atributos mentais. Eu era muito descredibilizado por conta disso. A questão da autoestima era difícil também, pois você está em um espaço cujos padrões são todos os mais brancos possíveis. 

Eu participei, com mais algumas pessoas, da criação do coletivo negro da Unesp. As mobilizações começaram em 2014 e foi meu primeiro contato com a questão racial do ponto de vista político. Foi imprescindível para entender o quanto a raça é um fator determinante fundamental na política, na economia e no cotidiano no Brasil. Eu tenho lembranças muito boas de Bauru, muitos aprendizados por conta desse engajamento, mas tenho também memórias tristes da cidade. Uma boa parte delas passa pelo marcador racial.

Hoje a situação melhorou porque a Unesp adotou a política de cotas. No fim do ano passado, participei de um debate em Bauru e os pretos representavam uns 15% do auditório. Eram tecnicamente poucos, e eu já achei demais. Porque a partir daí eles constroem uma rede de solidariedade e de apoio muito maiores."

Sophia de Mattos, 24 anos, jornalista 

"Eu estudava jornalismo na Faculdade São Judas, onde tinha passado pelo Enem. Só que meu sonho sempre foi fazer Cásper Líbero. Meus pais fizeram uma força-tarefa para conseguir pagar a faculdade, porque não era a minha realidade.

Quando cheguei lá, em 2016, fiquei bem surpresa. Apesar de não chegar a ser metade, na São Judas ainda tinham mais pessoas negras. Na Cásper, não. Sou uma pessoa preta de pele retinta e na minha sala tinham duas mulheres negras de pele mais clara. Lembro até hoje o olhar que elas tiveram quando me viram. 

Por ser preta e ter vindo de outra faculdade, as pessoas estavam sempre querendo provar se eu realmente merecia estar ali. Eu tive vários conflitos com grupos e acabei até mesmo me questionando. A Michelle Obama fala que as pessoas negras são tão inferiorizadas que, quando elas têm a oportunidade de ter um ensino melhor, acham que as pessoas brancas são mais inteligentes, porque a sua vida inteira você escuta isso. Quando você entra, percebe que pode ser tão boa ou melhor do que elas. Precisou de um tempo para eu criar essa autoestima.

A minha experiência mudou totalmente depois que comecei a fazer parte do coletivo negro da Cásper, o Africásper. A melhor coisa de fazer parte de um coletivo preto em uma faculdade elitista é que você se reconhece. É a mesma briga, o mesmo olhar, o mesmo histórico. Todo mundo veio de uma escola particular que só tinha você de negra, sem referência. E aí a gente passou a ser um a referência do outro. 

Até hoje, a inclusão de negros na Cásper não melhorou, está bem estagnado. O processo de bolsas ainda é muito burocrático, não tem cotas e nem acordo no financeiro. Você é só mais uma pessoa que tem que pagar toda a mensalidade, não tem esse recorte racial." 

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Fábio Rocha Ferreira, 30 anos, arquiteto e urbanista 

"Minha mãe é empregada doméstica e eu nasci e fui criado na casa onde ela trabalhou. Quando decidi fazer arquitetura e urbanismo, eu tinha noção que era um curso elitista, mas meu desejo era maior que isso. Entrei no Mackenzie em 2009 com 100% de bolsa pelo ProUni. Na época, não havia o curso no período noturno, onde eu via uma presença um pouco maior de pessoas negras. No meu período, à tarde, em todos os semestres, éramos só eu e mais uma colega.

No começo me fechei muito, e foi algo que eu só percebi depois. Eu não participei do trote porque tinha receio que fosse um alvo fácil de zombaria, mais do que outras pessoas. Em festas, eu ficava com receio de me divertir muito e perder o controle, não sabia o que ia acontecer. Essas privações que alguém branco nunca pensaria duas vezes no meu caso eram constantes. 

As pessoas jamais falaram algo racista para mim diretamente, sempre foram questões mais veladas. Por exemplo, lembro que ouvi diversas vezes durante toda a formação as pessoas reclamando de empregadas de um jeito pejorativo. Eu sentia o ódio quando elas falavam de quem as serviam, como o porteiro, a doméstica. Se discutia muito também a bagagem relacionada à arquitetura que cada aluno tinha, para que lugar do mundo eles tinham viajado, e eu ficava boiando. Que tipo de vivência eu teria contando de onde eu vim?

Eu fiquei surpreso quando soube que existe agora um coletivo negro no Mackenzie, o Afromack. Isso me deu um baita orgulho e a sensação que eu tenho é que aumentou o número de pessoas negras na faculdade. Mas, como existe uma limitação de bolsas e, infelizmente, no Brasil o social é atrelado ao racial, é muito difícil uma família negra ter poder aquisitivo suficiente pagar uma faculdade tão cara."

Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

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