Os inconformistas são fundamentais para que o mundo siga se transformando até que se torne um lugar melhor para se viver

Segundo me contaram, um velho almirante norte-americano teria certa vez proferido uma frase, da qual nunca me esqueci, que era a seguinte: “A Marinha foi criada por gênios, para ser gerida por medíocres”. O que o almirante queria dizer é que o mundo se transforma porque pessoas “diferentes” forçam a barra, mas mantém uma necessária estabilidade porque pessoas “normais” se ocupam da rotina. O que não quer dizer que os contestadores estejam sempre certos ou que, mais ainda, tenham sucesso garantido. Todos gostam de se lembrar de figuras como John Lennon ou Steve Jobs, mas a verdade é que a lista dos não convencionais malucos que não ficaram famosos, como aquele velho hippie que vive de vender colares de miçanga na pracinha de alguma cidade de interior, é enorme.

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Muitos de nós vivemos permanentemente esse conflito. Temos um lado que quer ser careta e respeitável, de quem devia, como cantou Raul Seixas, estar feliz, porque mora em Ipanema e conseguiu comprar um Corcel 73; e temos um outro lado que desconfia de regras e hierarquias e que, ainda segundo Raul, não quer se sentar no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.

De perto todo mundo é louco

Eu acredito que mesmo as pessoas mais radicalmente não convencionais vivam, em alguma medida, essa tensão. A sociedade faz o que pode para que se enquadrem, mas há alguma coisa mais forte dentro delas que não deixa. Elas não querem, necessariamente, romper com tudo, apenas não se sentem cabendo nos sapatos apertados que a sociedade impõe. Aqui mesmo nestas páginas, dois dos textos de que mais gostei de escrever foram a respeito de pessoas totalmente não convencionais. Um deles foi sobre Homero Naldinho (Trip 171, out/2008), o outro, sobre Pedrão Preto (Trip 192, set/2010).

Homero foi um dos primeiros shapers do Brasil, um gênio criador de pranchas inovadoras, respeitadíssimo, que poderia ter se conformado com o sucesso e vivido uma confortável vida de classe média, mas não conseguiu. Eterno insatisfeito, jamais coube nos limites que se impunham a ele, e optou por viver à margem. Quando o conheci, Homero era tido como louco, circulava por Santos numa bicicleta de professor Pardal e morava num barco em ruínas ancorado no canal de Bertioga. Pedrão, que infelizmente já morreu, outro pioneiro nas coisas do surf, foi uma espécie de anjo da guarda para mim e para outros garotos que começavam a surfar, em Ubatuba, em meados dos anos 70.

Quando escrevi a matéria, ele já tinha mais de 60 anos, estava forte, ainda sem sinais do câncer fulminante que o levaria embora alguns anos depois, surfava e trabalhava como garçom num quiosque de praia. Eu pensava: que curioso, as pessoas que pedem a ele uma cerveja e uma porção de batatas fritas não têm a menor ideia da bagagem de vida que aquele simpático senhor traz nas costas, de ter sido um dos primeiros juízes de surf no Brasil, ter trabalhado no Iraque de Saddam Hussein, ter feito manutenção de aviões do garimpo em regiões isoladas da Amazônia, ter convivido com guerrilheiros das Farc na fronteira com a Colômbia e assim por diante.

Se quer que a luz acenda quando aciona o interruptor e quer que jorre água da torneira quando a abre, você sabe que, como dizia o velho almirante, um mundo composto somente de pessoas não convencionais não funcionaria. Por outro lado, se você tivesse – como eu tive – o privilégio de conversar por algumas horas com Homero Naldinho e Pedrão Preto, que nunca cantaram para multidões nem inventaram o iPhone, viajando no mar de histórias de cada um deles, sairia da conversa sem a menor dúvida de que os inconformistas são fundamentais para que o mundo siga se transformando e, o que é mais importante, seja um lugar em que valha a pena viver.

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