por Ronaldo Lemos

Espécie de Chacrinha cósmico, Robert Anton Wilson veio ao mundo para confundir, e não para explicar

No radar da maioria das pessoas, o fenômeno da propagação de notícias falsas via redes sociais cria inúmeros problemas. Aos poucos, as tão faladas fake news vão erodindo a ideia de falso e verdadeiro e, assim, minando instituições históricas, que vão do jornalismo à ciência. A maioria absoluta das “notícias” dizem respeito a fatos circunstanciais envolvendo sobretudo política. Ainda são poucas as fake news de relevo que pretendem rever temas de grande magnitude – uma das mais ambiciosas consiste no movimento que quer fazer crer que a terra seria plana, e não esférica. Há rumores até de uma conferência “global” dos terraplanistas (a piada é boa, mas aparentemente essa conferência é só outra mentira).

Mas já que as fake news vieram para ficar, que tal então soltar as amarras da imaginação para que saiam do cotidiano e comecem a abranger o universo, o cosmo e outros temas grandiosos? Entraríamos, então, em um território mais instigante, que poderia celebrar as ideias de Robert Anton Wilson. O autor anda esquecido no Brasil, apesar de ter tido alguns dos seus livros, como A ascensão de Prometeus e o gatilho cósmico: O derradeiro segredo dos Illuminati, lançados por aqui.

Ficção social

Wilson nasceu em 1937, em uma área pobre de Nova York, e viveu até 2007. Muito antes de o fenômeno das fake news ganhar nome, ele colocou em prática diversas modalidades de ficção social, realidades alternativas e mudanças de percepção mental, tudo como forma de questionar a realidade. O objetivo do autor não era manipular pessoas; ao contrário, era torná-las impermeáveis à manipulação, ensinado-as, ao mesmo tempo, o dom da crença e da dúvida.

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Uma de suas lições era justamente não acreditar em nada, mas também não duvidar de nada. Ele insistia em questionar até mesmo as teorias científicas mais bem consolidadas. Ao mesmo tempo, persistia em não descartar integralmente também nem mesmo as teorias da conspiração mais sem pé nem cabeça. Nada para ele era absolutamente verdadeiro ou falso e sua obra servia justamente para nos ensinar o “desapego” com relação à realidade.

Uma de suas propostas mais interessantes diz que deveríamos abolir completamente o uso do verbo “ser”. Ele acreditava (com grande razão) que ele serve muito mais para obscurecer o real do que para explicá-lo. Dizia ele: “É, é, é – a idiotice dessas palavras me assombra. Se elas fossem abolidas, o pensamento humano poderia começar então a fazer algum sentido. Não posso saber o que uma coisa ‘é’; só posso saber como aquela coisa aparenta ser para mim naquele momento”.

Vale fazer o experimento para ver que faz sentido. Experimente escrever uma frase (ou dizer novamente algo que você quer falar) sem usar o verbo “ser”, especialmente a conjugação “é”. De pronto, isso vai te obrigar a ser muito mais claro e a pensar muitas vezes mais antes de afirmar algo. O parágrafo abaixo dá o exemplo. Você não vai encontrar ali o verbo ser.

Em suma, a história de Wilson deveria nos levar a percebê-lo como o patrono do mundo em que estamos vivendo. Um mundo cercado por “fatos alternativos”, onde crença, ignorância e verdade se misturam o tempo todo. Só que com uma diferença. Enquanto Wilson atuava como um Chacrinha cósmico, dizendo claramente que “veio ao mundo para confundir, e não para explicar”, as fake news do presente querem, ao contrário, encher as pessoas de certezas. Precisamos urgentemente inverter os polos. Trocar as certezas falsas pelas dúvidas verdadeiras. Salve R.A.W.

Créditos

Imagem principal: Creative Commons

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