Devo confessar que um dos motivos que me faz viajar para a África, a qualquer pretexto, é por ter lido vários livros de Richard Burton. O capitão sir Richard Francis Burton foi um grande explorador que passou à história, entre outras coisas, como sendo o primeiro inglês que entrou na Meca, capital do islamismo, e que fica no que hoje é a Arábia Saudita. Isso foi em 1853 e, considerando que a pena para o infiel que fosse encontrado por aqueles lugares era a morte, pode-se dizer que o cara tinha duas bolas deste tamanho.
Era uma época em que a Inglaterra pintava e bordava, como os Estados Unidos o fazem hoje em dia. O conceito da ‘lei do mais forte’ não é um truque para aumentar a bilheteria de filme de faroeste, é uma realidade que se aprende em qualquer esquina mal iluminada. Burton, além de ter entrado e saído da Meca, esteve também na Índia. Em Goa aprendeu o português, leu Camões e fez a primeira tradução dos Lusíadas para o inglês. Esteve na Somália. Procurou a nascente do rio Nilo na África Central, foi até Salt Lake nos Estados Unidos e foi, também, cônsul inglês em Santos. Foi visto, também, remando uma canoa pelo rio São Francisco. A curiosidade o levou até a fronteira no sul do Brasil para dar uma olhada na Guerra do Paraguai. Morreu em Trieste, na Itália, em 1890. Tinha escrito 43 livros sobre suas viagens e falava 25 idiomas, sem contar os dialetos.
O capitão Burton começou a sua trajetória a serviço da East India Company, estabelecida na Índia e que tinha o monopólio de importação e exportação de qualquer coisa que pudesse ser vendida ou comprada no país. O campeão de exportações da Company era o ópio, que vinha da China. O faturamento era tão considerável que nem piscaram em apoiar a chamada Guerra do Ópio com a China em 1839. Ao mesmo tempo a Inglaterra disputava com a Rússia o controle do Afeganistão e cada país europeu tentava se apoderar de um pedaço de terra inexplorado em qualquer lugar do mundo para aumentar seus rendimentos. Os mapas tinham buracos enormes, provando que ninguém do mundo dito civilizado tinha posto os pés em vários lugares do planeta. É por esses buracos que Burton se metia à procura de novos mundos.
Vamos forunfar
Nos últimos dias de janeiro deste ano, enquanto se realizava em Davos um fórum entre os representantes dos poderosos do mundo inteiro, aqui em Porto Alegre acontecia um outro fórum, este para quem não estava de acordo com o outro e donde podia-se expressar livremente. Em Davos, quase todos os participantes usam gravata; em Porto Alegre, quase ninguém. Uma coisa assim mais descontraída. O presidente do PT, o deputado José Genoíno, estava em Porto Alegre dando umas declarações para os jornalistas quando foi atingido por uma torta na cara. Puro pastelão. A torta, de morango e chantilly, foi jogada por uma mulher que disse pertencer aos ‘Confeiteiros sem Fronteiras’. O deputado, um homem de trajetória consistente e de posições firmes, que já foi guerrilheiro no Araguaia, aceitou com estoicismo a coisa toda. Disse que era para manter a calma, que não ia aceitar a provocação, que o protesto era anarquismo inconseqüente e, depois de limpar o rosto com um lenço, continuou a entrevista.
Uma torta de morango é uma maneira bem melhor de se expressar o descontentamento, justo ou não, do que um tiro como o que recebeu, por exemplo, o arquiduque Ferdinand em Sarajevo, que acabou provocando a Primeira Guerra Mundial. A mesma Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina, que Slobodam Milosevic atochou de bombas há alguns anos tentando aniquilar uma minoria muçulmana enquanto perseguia o sonho de uma Iugoslávia grande e única às custas das minorias bósnias, kosovares e macedônias. Ironias do destino. Ontem o Parlamento Iugoslavo aprovou a Constituição do novo Estado de Sérvia e Montenegro que substitui a República Federal Iugoslava. O país deixou de existir como se fosse uma ilha vulcânica tragada pelo mar. Hoje, o senhor Milosevic está preso em Haia e sendo julgado pela ONU por crimes contra a humanidade. A mesma que tem não sei quantos inspetores no Iraque andando para cima e para baixo em Toyotas e Discoverys brancos, com a sigla ONU charmosamente pintada em preto na porta, e que não consegue provar que os iraquianos fabricam armas de destruição em massa. A ONU que deixa os EUA emputecidos por isso mesmo. Os mesmos EUA que invadiram o Afeganistão para expulsar os talibãs que tinham financiado contra os russos cinco anos atrás. As Forças de Operações Especiais estavam à procura de Bin Laden, que depois dos atentados de 11 de setembro proclamou a guerra santa contra os infiéis americanos. Os mesmos que intervieram na Bósnia para salvar a minoria muçulmana da artilharia sérvia. O mesmo Afeganistão que a Inglaterra e a East India Company queriam dominar em 1839. A Inglaterra tomou um pau federal durante a retirada de seu exército de 16 000 quando os afegãos aniquilaram na ponta da espada todos eles. Aliás, quase todos. Deixaram um só, um médico montado em um pônei, para contar a história em Islambad.
Penso na torta, globalizada pelos ‘Confeiteiros sem Fronteiras’ e neste mesmo conceito, o da globalização, que parece tão novo e é tão velho. E que seria tão bom se as coisas ficassem apenas por conta do morango com chantilly, porque o pastelão já está montado.
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