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Outras Palavras: Depois da guerra

Para superar a jihad, o mundo terá que acolher a vida como ela é: diversa, misteriosa e incontrolável

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Caro Paulo,

Como será o nosso futuro, se houver futuro, depois do ataque às torres gêmeas de Nova York? Não quero falar de guerra. Quero falar do futuro possível. É verdade que tudo pode explodir de uma hora para outra. O risco é real. Podemos fracassar como humanidade e fazer este planeta virar um deserto como há milhões de anos. Mas, se conseguirmos passar por essa prova, em que teremos nos transformado?
Você consegue imaginar o mundo depois da possível terceira guerra mundial? Depois da suposta Jihad? Está claro que essa guerra é entre dois mundos. Aproveitando a definição do físico Marcelo Gleiser, que falou da ‘escravidão espiritual’ na qual vive o mundo dogmático fundamentalista, acrescento a ‘escravidão material’ em que vive o mundo da sociedade capitalista consumista. Condeno os dois mundos e não reco-nheço nenhum deles como donos da verdade nem como instrumentos de alguma justiça. Ao contrário, ambos erram e guerreiam porque se julgam donos da verdade e vítimas da injustiça.

QUE VERDADE? QUE JUSTIÇA?
Se você analisar a história da civilização, vai descobrir que todas as guerras foram feitas em nome da Verdade e da Justiça. Podem ter o fundamento que for, mas sempre me senti ameaçado quando alguém puxou o crachá e se disse representante da Verdade e da Justiça. Culpa? Pode ser. Mas o fato é que desde pequeno a Verdade e a Justiça nunca me prometeram um final feliz. Por isso eu digo que essa guerra é velha. Tão velha que esse talvez seja o seu último capítulo. Se o mundo sobrevivê-la, terá aprendido que a única causa capaz de unir a humanidade e viabilizar a paz é o Amor.
Babaquices à parte, não falo do amor ao próximo que esquece o amor a si mesmo. Não falo do amor paixão que tem objeto claro e definido. Não falo do amor carinho que alimenta e aconchega. Falo do acolhimento incondicional de tudo que existe e da vida como ela é: diversa, misteriosa, imensa, surpreendente, criativa e incontrolável. Falo da confiança que esse acolhimento proporciona. Falo de uma força que, quando permitida, nos une, nos cria, nos educa, nos harmoniza e nos embe-leza. Se você está reconhecendo um velho hippie propondo ‘make love, not war’, para combater o ineficiente ‘no justice, no pea-ce’, você acertou. Não desisti de nossa utopia.
Se a gente sobreviver ao último capítulo dessa guerra velha, será porque te-remos aprendido a lição de pensar no todo e na parte simultaneamente. E portanto teremos desaprendido a pensar com exclusividade e teremos aprendido a pensar com inclusividade.
E é aí, em nome desse aprendizado, que entra o meu convite: imaginar esse outro mundo a partir das lições aprendidas e dos sonhos que sonhamos quando apostamos no futuro – por exemplo, quando fazemos filho, quando abrimos uma empresa ou quando nos vemos velhos.

MUNDO inclusivo
Se temos um lado melhor e um lado pior, deixemos o lado melhor sonhar. Economistas não sonham, políticos não sonham. Pais sonham, mães sonham, ser humano sonha. Juntemos nossos afetos, nossos sonhos e imaginemos. Temos um impulso natural para nos divertir, para a alegria, para a descontração, para a união, para a beleza, para a liberdade. Nós já estamos prontos para isso. Já encontro homens, mulheres e organizações fazendo planos com esses
sonhos. Mas talvez não sejam tantos a ponto de impedir a guerra.
Porque, na falta de um mundo imaginado a partir do nosso melhor, deixamos o nosso melhor na mão das religiões e o mundo à mercê do mercado. Essa dissociação é que faz a guerra. E, nessa guerra, seremos sempre perdedores não importa quem sai ganhando. Outro dia, trabalhando no projeto do Instituto Akatu, ao procurar em nossas origens tupis-guaranis uma palavra que significasse um mundo integrado e inclusivo, descobri que, quando eles se referem a um mundo pequeno como sua família, tribo ou nação, eles dizem ‘oré’; e, quando eles querem se referir a um mundo tão grande que inclui todo o mundo, eles dizem ‘yandê’.
Precisamos trazer essa palavra para o nosso voca-bulário. Acho que ela ficaria bem em qualquer língua. E poderia ser sinônimo de paz como resultado do uso do Amor e não da Força. Acho que é um bom começo, se a gente não se perder na transição.
Yandê!!

Ricardo

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