Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Já escrevi isso antes, mas certas repetições são inevitáveis: São Paulo é a capital da bizarrice. Tanto que o paulistano médio tem um natural ar blasé quando se depara com estranhezas. Aqui, Artaud é um escritor de Coleção Vagalume. O Cão Andaluz, de Buñuel, é mais linear do que qualquer itinerário da viação TUSA.
Nossas ruas são como jogos de Atari, só que com gráficos piores. Ou, por outra, parecem circos medievais: encontramos gordos de desenho animado, anões, mulheres barbadas, gente zarolha, desdentada etc.
Programas como Ratinho, Cidade Alerta, Descontrole só fazem sucesso porque são vistos pela classe média – que não sai de casa nem a pancada. Os populares, que enfrentam a cidade diariamente, estão saturados da bizarrice. Querem ver gente viajando do Marrocos ao RJ três vezes ao dia.
Conto isso para dizer que mal inventei a teoria e já arranjei uma exceção: minha amiga Balada. Vamos à descrição: vinte e poucos anos, alta, magra, cabelos castanhos claros. A típica garota criada a Mucillon e água Perrier (porque, graças a Stanley Kubrick, sabemos que a água de torneira foi contaminada pelo flúor comunista). Pode procurar com microscópio: você não encontrará uma só imperfeição na sua pele.
Enfim, não parece, mas ela também é paulistana. Quando a conheci, quis entender a contradição: ela realmente vive aqui ou é uma dessas ilusórias mulheres ornamentais de propagandas de cerveja?
Me aproximei: ‘Oi, você vem sempre aqui?’. E ela respondeu, com uma voz de garganta profunda: ‘Balada’. Fiquei mais intrigado ainda.
Tentei me comunicar mais algumas vezes, mas a garota continuava num loop: ‘Balada’. Perguntei sobre os padres pedófilos, sobre o rapaz do MST no Afeganistão, sobre a Argentina, enfim. E ela: ‘Balada’.
Cheguei a me irritar: ‘Por favor, não me faça incorrer no maldito estereótipo: adolescente com grana, bonita e burra!’. E ela: ‘Balada’. Perdi a compostura e xinguei-a de alienada (uma expressão mais comprometedora do que mocassim com franja). Devo ter causado algum impacto na sua consciência, pois a garota foi ao banheiro.
Demorou horrores para voltar. Fiquei preocupado e fui ver o que estava acontecendo. De repente, lá estava ela, com a testa encostada entre duas paredes e andando sem sair do lugar, como um ursinho de propaganda da Duracell.
Empurrei-a. E finalmente ela conseguiu sair do banheiro. Assim, ficamos amigos. Mas até hoje a única palavra que ela diz é a obsessiva ‘balada’.
Isso me causa terríveis crises, porque nós, escritores, fugimos dos estereótipos como do imposto de renda. Só que ela é o pior dos estereótipos: daqueles que dão deixas para saídas moralistas.
Mas vamos esquecer isso porque uma coisa está bem clara: a bizarrice das ruas de SP é infinitamente menos divertida do que a das, cof, cof, elites. Por que nenhuma TV ainda teve a idéia de explorá-la? Estão perdendo grana.
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