Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Foi curioso assistir a ‘Cidade de Deus’ perto da própria Cidade de Deus. Na verdade, bem perto e muito longe. O cinema era o Cine Leblon. De carro, sem trânsito, é possível ir de lá até o palco que inspirou o filme em meia hora.
Ao mesmo tempo, olhando para a fila que dobrava o quarteirão, repleta de casaizinhos bem nascidos, vindos dos edifícios de Ipanema, Leblon, Copacabana, São Conrado e Barra, aguardando a vez para tomarem seus lugares nas confortáveis poltronas de vinil vermelho, daquelas com porta copos e tudo, era visível a enorme distância que separava os dois mundos, prestes a se conectarem de forma virtual via tela. De fato, pelas risadas nervosas ouvidas na sala aqui e ali, o choque pretendido pelo diretor Fernando Meirelles e a co-diretora Kátia Lund foi conseguido. Quase todo carioca, especialmente a mauriciada de classe média alta, orgulha-se de uma certa malandragem, um certo flerte com o que supõe ser a malandragem dos morros, que, em virtude da geografia, anda ombro a ombro com os bacanas, nas praias e ruas da zona sul, da Barra e por toda a cidade.
Na saída do cinema, em grupinhos formados nos balcões dos McDonald’s e das versões cariocas de fast food esperto como o Balada Sucos e o Bibi, era possível ver e ouvir grupinhos semi-tensos, abalados pelo contato com a real de Zé Pequeno, Mané Galinha, Cabeleira e outras bestas-feras, bem diferentes do que imaginavam ser a poética malacagem dos morros vizinhos aos seus condomínios.
Tela quente
Em entrevistas, a co-diretora Kátia Lund, responsável pela eficientíssima direção aos atores amadores que brilham na fita, declarou que se o filme se prestasse a entreter a classe média, não teria logrado seu objetivo.
Duas notícias para Kátia: o filme serviu, sim, para entreter a classe média, que se identificou com Benê, o bandido ‘boa gente’, que usa óculos, passa parafina no cabelo, se apaixona por uma gatinha de praia e resolve ir embora com ela para um sítio, quase uma versão favelada de um personagem de Antonio Calmon, num de seus filmes de verão. Vibra também com Buscapé, o favelado que tenta arrumar emprego, vai para a cama perder sua virgindade com uma jornalista deslumbrada e vira fotógrafo, uma história bem mais parecida com as que se acostumaram a ouvir sobre os filhos de suas empregadas e motoristas.
Mas foi além disso. Serviu para contar o fragmento de uma história que começa romântica e aponta para um fim realmente trágico, que vai bem além das simples mortes sangrentas dos traficantes crivados de balas. Esfrega na cara do Brasil dos condomínios o roteiro de uma tragédia que está prestes a ser encenada com direito a todos os efeitos especiais de explosões, corpos dilacerados, inocentes mortos por todos os lados e muito sofrimento: a revolução dos brasileiros pobres indo cobrar a tal dívida social.
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