Logo Trip

O avesso do avesso

Leia entrevista com o DJ Shadow, que toca domingo no Rio de Janeiro, pelo Tim Festival

O avesso do avesso

em 27 de outubro de 2006

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Em seu novo disco, The Outsider, Shadow busca caminhos além dos que ele já sabe trilhar, e isso não é ruim. O disco parece ser um prelúdio para uma mudança ainda mais profunda. Enquanto ela não vem, paramos para conversar por telefone com Josh Davis por breves 10 minutos

por Filipe Luna

No seu novo disco, a primeira música chama-se “This Time (I’m Gonna Try It My Way)”. É uma mensagem? Nos outros discos você não conseguiu fazer do seu jeito?
Não, eu consegui. É que as letras foram escritas há 40 anos, os vocais vêm de uma fita de rolo antiga perdida num estúdio. Não é como se eu tivesse feito ele cantar aquelas palavras, a letra já estava escrita há muito tempo. É apenas o nome da canção. Eu meio que pensei que soaria bom… Gosto da letra e achei que valia a pena fazer uma música a partir dela. Achei que seria bom ter essa música logo no começo do disco, de uma certa maneira é como um manifesto.

Ouvi muitas coisas sobre o disco: comentários engraçados e uns nem tanto. Mas teve um que achei ótimo, dizia que no disco novo parecia que você estava tomando Prozac. O que acha disso? Você toma Prozac?
Bem, eu nem sei o que é Prozac pra falar a verdade.

É um remédio para depressão.
Oh. Hum, não sei. Acho que estava com vontade de fazer um disco que mostrasse um leque diferente de emoções além das que eu já sou conhecido por mostrar. Porque eu não acho que sou deprimido no dia-a-dia. Queria um disco que refletisse exatamente o que penso sobre música e as diferentes emoções que você pode sentir num dia comum. Acho que The Private Press era bem dark. Tinha partes engraçadas também, mas acho que queria fazer um disco com músicas mais divertidas. Gosto de muitos tipos diferentes de música e acho que você tem que mostrar a luz para poder compará-la com as trevas. Se você só mostra as trevas, então as pessoas vão começar a entender que é assim que você é. Queria um disco que refletisse muitas emoções. Gosto da idéia de um disco que possa te acompanhar por um dia inteiro. Tem tantos tipos de música no disco que você pode escolher um para como você estiver se sentindo naquele momento durante o dia.

Você sofreu um acidente de carro em Londres e chegou a correr risco de morte. Essa mudança teve algo a ver com isso?
Hum, acho que essas experiências me fizeram sentir que se tem algo que eu queira dizer, é melhor dizer agora e não deixar para depois porque você nunca sabe por quanto tempo vai estar aqui. Não quero soar mórbido, mas me deixou muito focado. Queria fazer um disco que tivesse momentos de celebração nele. Vai ver é por isso que as pessoas estão achando que o disco soou feliz. Quando você passa por situações dessas… Minha mulher deu à luz a duas garotinhas gêmeas e as circunstâncias no nascimento delas foram bem sérias. Então, passar por isso faz todo o resto parecer menos importante.

Mudou sua perspectiva de vida?
Definitivamente.

E a religiosa? Você acreditava em Deus?
Não acho que mudou minha religiosidade de nenhuma maneira. Sou muito agradecido por minhas garotinhas estarem bem e por eu ter sobrevivido ao acidente. Mas acho que as lições que eu tinha que aprender dessas experiências é que as coisas pequenas não importam. Tento levar isso comigo mais do que dever algo a alguma figura religiosa.

Mas você tem fé? Acredita em Deus?
Na verdade eu não sei dizer se acredito ou não. Eu sei que parece que estou fugindo da questão, mas é que nunca me perguntaram isso numa entrevista… Acho que tenho que pensar um pouco mais nisso.

Como serão os shows no Brasil? Você vai ter vocalistas ou MCs com você no palco?
Eu terei quatro toca-discos, dois dos quais são toca-DVDs também. Então tenho elementos visuais. Eu misturo tudo, muitas das músicas que fiz ao longo dos anos. Tento tratar o meu show da mesma maneira que uma banda de rock faria, no sentido de misturar coisas novas com antigas, conhecidas com nem tão conhecidas. Terá um elemento ao vivo também, vou levar um ou dois convidados.

Quem serão os convidados?
Não quero dizer porque quero que seja uma surpresa.

Você já teve colaboração de Mike D (dos Beastie Boys) no disco do Unkle. Podemos esperar alguma coisa assim já que você toca antes dos Beastie Boys?
Não sei, não conversei com eles sobre isso. Talvez quando nos encontrarmos eu lance a idéia.

O show vai ser parecido com o seu DVD?
Sim, será similar, mas os visuais e todo o resto é novo.

E o que espera do Brasil? Pretende comprar muitos discos?
Hum, tenho tantos amigos que já estiveram por aí que nem sei se vou… Acho que darei uma olhada sim. Estou muito excitado de ir ao Brasil. Quero desfrutar o lugar sem ficar naquela loucura de tentar achar discos [risos].

Você ainda compra muitos?
Oh sim! Sempre que tenho chance. Mas acho que quando você vai ficando mais velho, também quer curtir o tempo que você terá num lugar que nunca foi. Então quero sentir o clima daí também.

Você não tem shows marcados em São Paulo. Pretende vir discotecar?
Não dessa vez, porque a agenda está bem apertada. Vamos fazer uma turnê pela América do Sul. Argentina e outro lugar. Terei que ficar viajando o tempo inteiro.

Como você escolheu essas pessoas que colaboram no álbum?
Basicamente eu não sabia com quem queria trabalhar até ter uma batida e daí eu pensava em quem soaria bem em cima daquilo. Não é como se eu, há dois anos, quando comecei a fazer o disco, tenha feito uma lista dos convidados que queria e começasse a ligar para as pessoas. Eu tinha uma batida e tentava imaginar quem soaria bem naquilo. Não queria que fossem estrelas, mas sim pessoas que gosto e que achava que podiam fazer algo interessante.

A primeira parte do disco é muito influenciada pelo hip hop do sul dos Estados Unidos. É algo que você tem escutado muito?
Sim, ouço hip hop do sul há muito tempo, acho que há uns oito anos já. Então gosto de muitos tipos diferentes de rap e gosto de rap contemporâneo, não só de coisas antigas. Muitas pessoas acham que só gosto de coisas antigas ou de hip hop underground, mas gosto de muitos tipos de rap.

É, foi uma surpresa porque você tem projetos com o pessoal do Solesides e do Quannum e colaborou com o Jurassic 5. E no disco você trabalhou com pessoas que são ou estão ficando populares, como David Banner. Foi para tentar alcançar mais pessoas?
Acho que na verdade queria trabalhar com pessoas que escuto e acho relevantes para mim. Ouço muitos tipos diferentes de música, então não queria que fossem só apenas caras hardcore, por isso convidei Phonte, do Little Brother, e Lateef. Não sinto como se tivesse abandonado minhas raízes. Acho que o que escuto é mais amplo do que as pessoas imaginam, então foi natural para mim gravar com essas pessoas, por mais estranho que pareça aos outros.

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon