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O AMOR NA PRISAO

'Se vens às quatro, às três já serei feliz'

em 21 de setembro de 2005

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Acordei já eram cinco horas da manhã. Pensei na rotina da prisão e todo meu ser estremeceu. Mas não! Era domingo, dia de visitações. O meu amor viria visitar-me. Meu rosto se alargou em um sorriso. Lembrei de um pensamento de Saint-Éxupery: ‘Se vens às quatro, às três já serei feliz’. Dores e tristezas foram deletadas e a alegria, como avezinha, fez ninho em meu coração.

Levantei da cama disposto, colocando tudo para cima, de modo a facilitar a faxina. Fervi água, sabão em pó e detergente. Esfreguei paredes e chão com todo vigor. Joguei muita água para tirar espuma e sujeira. Sequei tudo com pano de algodão nas mãos. Encerei, passei palha de aço e lustrei até espelhar, com pedaço de cobertor.

Suadão, fui ao banho, daqueles minuciosos. Fiz a
barba no maior capricho; loção, hidratante e o indefectível desodorante Quasar, presente dela. Arrumei a cama com lençóis que guardo só para ela. Vesti roupas limpas, passadas, sapatos de camurça, meias e cuecas novas. Penteei os cabelos com gel; pronto, estava limpo e bem vestido, me achei bonitão.

AMOR BANDIDO

Desci para o portão da entrada de visitantes. Fiquei ali, esperando, ansioso, nervoso. Então ela chegou. Linda, sorrindo para mim todo o seu amor. Saia preta, blusa vermelha, salto alto. Cabelo escovado, rosto iluminado pelos olhos acesos de amor.

Abracei-a apaixonado. Meu desejo era retê-la em mim para sempre. Beijei-a de leve, não gostávamos de chamar atenção. Um ‘oi, tudo bem?’ A que respondi um ‘tudo’. A emoção supria palavras. Abraçados, imersos em nós mesmos, subimos os andares.

Coloquei meu tesouro para dentro, fechei o quiche e bati a porta. Era o código: ninguém incomodaria. Ah, como eu a amava. Ali não havia prisão, havia espaço para a expansão do amor. O sexo, duro como pedra, ameaçava explodir dentro da calça. Apalpo aquela bunda macia, ela me segura, estremeço, as pernas bambeiam e ela suspira.

Beijos, a princípio doces, lábios acariciando lábios, depois exigentes, necessitados. As línguas se enroscam e o gosto do amor invade a boca. As mãos percorrem corpos, a cama convida e somos tomados pelo tesão incontrolável. Mãos, bocas sequiosas percorrem e param em oásis para se deliciarem.

A penetração torna-se um carinho mais profundo, após satisfazer a fome, a sede, que estávamos um do outro. O movimento começa leve, carinhoso. Mas aos poucos, tudo exige pressão, vigor, ataque. Ela sobe e desce para derramar-se de prazer, recebo-a em gozo. Ao fundo, a televisão ligada na MTV abafa os gritos. Eu gemia, ela suspirava, então o êxtase estremecido. O fundo e o aperto, eu pulsando, ela em espasmos. Beijo-a agradecido e curtimos um soninho reparador.

PRESA LÁ FORA

Almoçamos a comidinha que ela preparou para nós, entre notícias da semana. Famílias, filhos, o trabalho dela, meus textos, editores, amigos e coisas nossas. Ela reclama das filas da entrada na cadeia, da humilhação da revista e da solidão da cama lá de casa. Acaricio, tento consolá-la. Dói. É muito sofrimento por minha causa.
Mexe daqui e dali e a excitação nos acorda para o amor. Agora tudo é feito com calma, doçura e detalhes. Exploramo-nos com vagar em busca do cume do tesão. Delícias que conquistamos em anos de amor. Algo me aperta no fundo de mim mesmo e já não sou mais eu somente. Sou eu, ela, as pessoas e todas as coisas vivas. Abençôo o mundo, perdôo a todos e até a mim mesmo.

Tomamos banho, escuto a sirene anunciando o fim do horário de visitações. Nos vestimos, agora calados, tristes na certeza da separação. Levo-a ao portão, calado. Abraço-a, ela estremece e chora baixinho em meu peito. Ergo seu rosto com ambas as mãos, beijo seus olhos, enxugo seu rosto e sinto as lágrimas descerem pela minha cara, incontroláveis.

Solto-a no portão, vejo-a sair com seus passos vacilantes e volto, cego, sem ver ninguém, para minha cela. Pronto, acabou. Sento-me, papel e caneta na mão. Vou escre-ver para ela. Retê-la em mim.

Luiz A. Mendes [mendes@revistatrip.com.br], 49, está preso há 29 anos na Penitenciária do Estado de São Paulo – onde recebe visitas semanais (íntimas ou não), que podem durar até 7 horas.

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