por Sidarta Ribeiro
Trip #274

Neurocientista Sidarta Ribeiro revela o que viu e sentiu na sua primeira viagem lisérgica, em Goiás

Os psicodélicos clássicos, que agem no cérebro através dos receptores de serotonina, incluem a ayahuasca, o cogumelo Psilocybe cubensis, o peiote e o ácido lisérgico. Meu primeiro contato com um deles foi em 1993. Havia terminado a graduação e havia sido aceito para começar o mestrado na UFRJ, mas, por conta de um namoro mal terminado, entrei em depressão e não queria sair de casa para nada. Dormia noite e dia e sonhava intensamente que tudo estava bem na relação, mas, ao despertar, experimentava novamente a perda e chorava desconsolado.

Ao me ver nessa situação lastimável, meu irmão Julio propôs tomar o famoso chá de cogumelo. Recusei, ele insistiu, resisti. Em parte por duvidar de que qualquer substância pudesse me arrancar daquele péssimo lugar psíquico, em parte por duvidar dos poderes da beberagem, em parte por temer perder-me de mim mesmo na jornada pelo desconhecido. Por fim, cansado de afundar na tristeza, embarquei na aventura.

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Acordamos cedo e fomos buscar num campo cheio de bois e vacas os cogumelos certos, que meu irmão sabia reconhecer. Quando finalmente chegamos ao local escolhido para a experiência, um acampamento na Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, já era noite. Debaixo de chuva torrencial, fizemos o chá e bebemos...

A descrição do contexto pessoal e do cenário já devem antecipar que minha primeira experiência psicodélica foi uma bad trip exemplar. Cerca de uma hora depois de tomar o chá, diante de uma frondosa mangueira pingando na escuridão, me encontrei combatendo um enorme dragão de olhos verdes, de cuja boca saíam labaredas em cores que nunca imaginara serem possíveis.

 Se no início a batalha era de brincadeira, pouco depois já era real e bati em retirada para o carro, dentro do qual me tranquei assustado. Passei o resto da noite tendo visões incríveis, que me levaram, no final, a uma cena arquetípica de mãe, pai e filho, uma tríade da Era do Bronze descendo uma colina verde numa biga sobre um caminho dourado.

Quando despertei ao amanhecer, me senti ótimo. Tudo estava igual, mas tudo estava diferente. Passei o dia inteiro caminhando pelas veredas do cerrado, serpenteando paredões, mirando flores. Tudo se apresentava com um brilho numinoso. Era como se estivesse vendo a natureza pela primeira vez, com olhos de criança curiosa. Foi um dos dias mais bonitos da minha vida, guardo essa memória maravilhosa com zelo. Saí da depressão e poucos dias depois estava no Rio de Janeiro iniciando o mestrado.

É difícil explicar a magnitude da experiência psicodélica para uma pessoa que a desconhece completamente. Seria como explicar o sexo para quem nunca transou, ou a paternidade para quem nunca teve filhos. Se você ainda não experimentou, saiba que é possível sentir a respiração das pedras e ver as plantas conversarem. É possível rever os ancestrais e contemplar o século 22.

Vai com calma

Psicodélicos são como esportes radicais: experiências transformadoras, profundamente emocionantes, que dão sentido à vida quando praticadas por pessoas experientes – ou guiadas por instrutores idem. Fazer trips internas requer tanto treinamento quanto fazer trips externas. Experimentar um psicodélico é como voar de parapente.

Assim como ocorre com quem pratica este tipo de atividade esportiva, pessoas em grupos de risco específicos não devem usufruir da psicodelia. Uma iniciação sem guia é fortemente contraindicada. Assim como nos esportes radicais, o contexto de uso – com quem, quando, onde – influencia imensamente o que pode acontecer. E é óbvio que a dose – de vento, de profundidade, de chá – também determina o que pode acontecer.

Hoje a ciência começa a demonstrar que os psicodélicos são antidepressivos capazes de promover a gênese de novos neurônios e sinapses. No milênio das teletelas e do achatamento da introspecção, eles ressurgem como poderosos remédios da alma – quando usados com sabedoria.

 

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