MILK SHAKE SEM CHORO
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Cena 1- Carla e Fernando atravessam período difícil de um namoro de três anos. Fernando apesar de decendente de italianos, parece alemão. Alto, magro, pele clara e cabelos cortados rente com alguns fios mais longos no alto da cabeça. Não é obrigado, mesmo assim gosta de vestir ternos ou, pelo menos um blazer. Sua testa está franzida, o olhar concentrado no rosto de Carla. Noventa por cento de sua capacidade de concentração estão apontados para a garota. É importante ter todos os sentidos alocados para cada expressão, som ou gesto da mulher. Fernando sente que por mais prosaico que possa parecer aos outros, por trás daquele milk-shake desinteressado no Senzala, está na verdade, a decisão de duas vidas. Talvez até de centenas de outras. Explico, tanto Fernando quanto Carla sabem que por mais dinâmico e vivo que seja, um relacionamento, as decisões sérias, as gotas d’águas, os ‘turning points’ acontecem nas situações mais improváveis. Filhos são planejados em balcões de padaria, mudanças de país são decididas no carro parado no pedágio. É assim que acontece. Carla anda insatisfeita. Os vinte e sete anos a preocupam. Por algum motivo que não cabe no cérebro de Fernando, ela decidiu sem mais aquela, que era hora de dar um passo, tomar uma atitude. Qual? Nem ela tinha certeza.
Pediram um de chocolate e um de creme, numa concessão óbvia ao prazer.
Ela, formada em Educação Física, tinha a noção clara do prejuízo que aquele caldo de gordura animal e açúcar causaria ao seu corpo desenhado e fino, forjado a base de anos de aulas de circo com os Fratelli, ginástica olímpica e quatro anos de malhação na faculdade.
Fernando menos preocupado com os lipídios, não tirava o olho da testa lisa e sedosa de Carla furada por dois olhos azuis excepcionalmente belos e brilhantes naquela noite.
O garçom, com cara de vinte e cinco anos de profissão e nenhum futuro pela frente não respondeu ao boa noite, o que irritou Fernando. Deixou os dois copos de vidro canelado displicentemente sobre a mesa. Um branco outro marrom, cheios até a boca.
Por alguns segundos Fernando conseguiu deixar o complexo mundo das relações a dois para observar o colarinho sujo e meio puído da camisa branca cheia de pequenas bolinhas em baixo relevo. A mesa de tábuas brancas com vãos entre elas deixava ver nomes cavocados a canivete e chave.
Um tal Xavier por exemplo, esteve ali com uma tal Vera em 78. Dava pra ver que ambos estavam no 1º colegial do Santa Cruz.
Fernando dirige um petardo ao garçom com ares de limítrofe. ‘Não vem mais o copo de alumínio com o choro?’.
‘Nunca veio’ respondeu seco como a caatinga o idiota de gravata borboleta. ‘Fernando ainda tentou levar adiante. ‘Sempre vim aqui e lembro de ganhar o choro no copo de alumínio. É tradição em São Paulo. Todo milk-shake vem com um pouco a mais’.
O paspalho deu de ombros segurando seu bloquinho patético com a mão esquerda e a caneta com a outra.
Carla pensou ao mesmo tempo na inutilidade daquele diálogo e,por outro lado, na aula do curso de marketing que fez ano passado quando ainda pensava em abrir a franquia da ‘Amor aos Pedaços’. Lembrou-se claramente do professor gordo que vivia falando que os cientistas de marketing pensaram, pensaram, estudaram muito, até descobrirem que a forma mais avançada e eficiente de marketing é justamente a fidelização do cliente através da excelência no atendimento e da eterna vigilância com relação aos detalhes onde, já disseram, mora Deus. Exatamente como faziam e fazem os donos de armazém de interior O garçom se afastou e Fernando, para conseguir ao menos um minuto de cumplicidade com Carla, relembrou o jantar que tiveram na semana anterior, ainda antes da crise. O Kuru-Kuru, restaurante em Pinheiros onde os dois adoravam ir estava decadente. As paredes sujas, as mesas e cadeiras de vime pedindo, implorando uma limpeza ou troca pura e simples, os funcionários conversando entre si sem parar em volumes pouco recomendáveis, quadros de gosto discutibilíssimo para dizer o mínimo, pendurados nas paredes, com etiquetas com preço de 300, 500 e, pasmem, até 1.500 reais.
Reforçando a trégua,os dois lembraram juntos, da tentativa frustrada no mesmo dia do jantar às 22:30 no Yoshiro. Fernando embicou a Parati no estacionamento e deu de frente com um fulano com cara de sádico e kimono japonês amarrado sobre a barriga protuberante. Sem nem dar tempo a qualquer pergunta, o idiota disparou: ‘Já fechou, graças a Deus!’
Fernando e Carla discutiram a noite toda. Casar ou morar juntos. Talvez dar um tempo (por mais ridículo que possa parecer ). Se os filhos de Carla e Fernando virão ou não a existir, só os Deuses da Praça Panamericana podem saber. Se existirem porém, certamente estarão livres de idiotas desatentos e infelizes. Por um único motivo: os próximos 5 ou 10 anos vão se encarregar de varrer do mapa todos os incapazes de perceber a graça e a importância dos detalhes. Todos.
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