Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Os ídolos dos meus amigos variam de banqueiro que começou do zero até surfista bem-sucedido, passando por cantor de rock e publicitário. O denominador comum é o tal do sucesso. Com 20 e poucos anos, sobra vontade de vencer na vida. É grande também o medo de se tornar um ‘perdedor’ – como o professor de química de colégio, diria um deles.
Vou ser o do contra, meu ídolo é um desses perdedores. Traduzindo em números, ele perdeu algo como algumas centenas de milhões de dólares que tinha construído do zero. Os mais céticos argumentam que esse dinheiro era virtual, uma vez que a empresa do meu amigo era mais uma daquelas empresas de tecnologia.
Mas isso não é verdade: só no Brasil, são muitos aqueles que converteram seus milhões de dólares virtuais em dinheiro. Teve até um moleque impúbere de 17 anos, cujo negócio vendido nem existe mais.
Dura é a experiência daqueles que quase conseguiram, que quase tiveram sucesso. Quase. Meu amigo é um deles.
O sonho dele era parecido com o meu: trabalhar bastante, ganhar uma grana com seus projetos e parar de trabalhar ainda jovem para curtir o mundo viajando. Foi quase. Por questão de meses, o sonho virou pó.
De repente, o pavor tomou conta do meu amigo. Os investidores visionários mostraram a que vieram com seus advogados, grampos telefônicos e gritos como ‘judeu desgraçado’.
Ainda lembro o desespero do meu amigo, quando ele desabafava numa noite chuvosa em São Paulo. Que conselho eu iria lhe dar? Só consegui dizer o seguinte: ‘agüente firme, irmão’.
Mas ele virou meu ídolo não porque ‘quase’ realizou o sonho, não por causa da experiência, não por causa dos contatos. Mas sim por uma sabedoria que ele ganhou e que também fui descobrir em alguém que tem três vezes a idade dele: o meu avô.
Hoje ele abriu uma microempresa numa cidade na praia, longe de São Paulo, ganhando o suficiente para pagar suas contas – incluindo aí as despesas da namorada. Os computadores permanecem. Mas, quando perguntei qual era o próximo projeto, ele respondeu: nenhum. Apenas viver suficientemente de bem com a vida.
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