por Décio Galina

Acompanhe a saga do nosso repórter na Serra Gaúcha durante a 25ª Avaliação Nacional de Vinhos, a maior degustação simultânea de uma mesma safra no mundo

De cara, preciso confessar: minha ignorância também é especializada no assunto “vinhos”. Provavelmente sou como você: gosto de beber, aprecio experimentar novos rótulos e estou ligado em como as vinícolas da Serra Gaúcha estão chamando a atenção de experts internacionais graças à produção moderna e cuidadosa de uvas finas na região. Por essas e outras, não contive o sorriso ao ser convidado a participar da 25ª Avaliação Nacional de Vinhos, em Bento Gonçalves (a 128 quilômetros de Porto Alegre), num sábado, dia 23 de setembro. Trata-se da maior degustação simultânea de uma mesma safra no mundo: 850 pessoas provando 16 vinhos selecionados por 118 enólogos que tiveram acesso a 327 amostras de 59 vinícolas de seis estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Bahia – todos os escolhidos foram gaúchos) – o filé da produção nacional em 2017.

Melhor ainda. O convite não era “apenas” para o sábado, mas, sim para uma programação intensa que começou na quarta anterior: visitas às vinícolas, reuniões com produtores locais, degustações, restaurantes, palestra com uma grande autoridade da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e passeio de bicicleta no meio dos parreirais com o sol prestes a beijar o horizonte pintado pelas cores iniciais da primavera. Meu amigo, foi puxado: em quatro dias provei 79 rótulos! Atesto e dou fé de que o vinho brasileiro vive um grande momento – e como essa bebida tem o poder de provocar boas risadas e elevar o ambiente a um patamar leve, onde os pés quase perdem o contato com o chão. A seguir, tudo o que bebi e algumas passagens do que aconteceu com o grupo de oito jornalistas em que me meti – estes sim, experts no assunto.

DIA 1

Vinho 1: Campos de Cima Espumante Extra Brut 2013
Esse espumante funciona como brinde de boas-vindas aos jornalistas e aos produtores da Campanha Gaúcha reunidos no restaurante Vineria 1976, em Porto Alegre. A Campanha fica no pé do estado, entre os mesmos paralelos (290 e 310 sul) que cortam Argentina, África do Sul e Austrália. É uma região de tradição pecuária, mas que há cerca de 40 anos atraiu a produção de uvas. Hoje já é a segunda maior produtora de uvas e vinhos do Brasil. Em tempo: o 1976 do nome do restaurante nada tem a ver com a numeração da rua ou a data de nascimento do dono. Ele remete ao ano em que ocorreu uma degustação às cegas histórica em Paris: pela primeira vez os vinhos locais foram desbancados por um californiano (como mostra o filme O julgamento de Paris, de 2008).

Vinho 2: ReD Marie Gabi Rosé 2016 
Delícia para o calor, para ser servido no verão, em balde de gelo. Me animei com ele. Tomo como se fôssemos velhos amigos. Acabo queimando a mão no bolinho de arroz que chegou e pondero se não era o caso de tomar o primeiro Engov da viagem. Afinal, só no almoço seriam oito vinhos.

Vinho 3: Bodega Sossego Campaña Chardonnay 2016
Dá gosto provar um vinho de um rótulo de 1.500 garrafas. Acho uma afronta não tomar a taça toda. De Uruguaiana, no extremo sudoeste do estado, a bodega Sossego tem 5 hectares de uva em uma fazenda de gado de corte, plantações com pouco mais de 15 anos – praticamente bebês no secular universo do vinho. Produzem apenas três rótulos.

Vinho 4: Peruzzo Cabernet Franc 2013
O primeiro da série de tintos. Junto, estaciona um saboroso arroz carreteiro. A Peruzzo tenta recuperar a casta Cabernet Franc, introduzida no Brasil nos anos 70 e depois abandonada. Para colaborar, decido matar essa taça também.  

Vinho 5: Don Thomaz Y Victoria Cabernet Sauvignon 2012
Originária da Ilha de São Jorge, no Arquipélago dos Açores, a família Mercio (agora na oitava geração) está na Estância Paraizo, em Bagé, desde 1790. Começaram com os vinhedos nos anos 2000. São só duas safras desse rótulo. Todas as 1.372 garrafas são numeradas. Como não beber tudo?

Vinho 6: Batalha Tannat 2015
Vinho 7: Dunamis Tannat 2015
Aprendo que os vinhos de uva Tannat remetem à lida do gado nas áreas de pecuária. Aroma de couro, estrebaria, gado molhado… Opa, espera aí! É melhor maneirar com essa fileira de taças na frente do meu prato.

Vinho 8: Guatambu Épico II
Um vinho com esse nome, e eu já um pouco pra lá de Bagdá, foi fácil de me cativar. Os jornalistas especializados debatem sobre as oito primeiras garrafas da viagem e percebo que não há consenso. Paulo Greca, do portal da Band, também é piloto de planador e começa a contar histórias dos voos que faz com a avó Clara, de 96 de anos. Ao mostrar a foto da velhinha de cabelos de algodão, de ponta-cabeça, rachando o bico na aeronave, acabo não controlando a gargalhada e, sem querer, babo na camiseta. Me refaço rapidamente do primeiro vexame e saio para dar uma rápida volta a pé no agradável bairro Moinhos de Vento. Como são bonitas as árvores e as gaúchas sentadas na calçada para almoçar na rua Dinarte Ribeiro e na praça Dr. Maurício Cardoso.

Vinho 9: Salton Classic Espumante Meio Doce
A viagem de 128 quilômetros de Porto Alegre a Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, foi tranquila e suficiente para retomar a dignidade. O welcome drink do Dall´Onder Grande Hotel foi esse espumante amarelo palha de uma das marcas mais conhecidas e líder de mercado no Brasil – a vinícola da Salton, de 1910. Se há um ponto que os jornalistas especializados concordam é que o principal produto brasileiro, de respeito internacional, é o espumante. Logo, achei bom tomar toda a taça antes de pegar o elevador panorâmico

Vinho 10: Salton Reserva Ouro
Outro espumante da Salton abriu o jantar na Casa Di Paolo, considerada a melhor galeteria da Serra Gaúcha pelo Guia Quatro Rodas. A Di Paolo tem 11 casas e, mês passado, abriu uma em São Paulo. O dono, Paolo Geremia, 55 anos, é uma peça rara, adora sapatos, tem 17 pares e encomenda os seus feitos à mão em Novo Hamburgo. Enquanto as entradas (queijo colonial e polenta) eram servidas, tivemos uma aula da situação atual do vinho no Brasil (em uma apresentação de 43 slides) com Leocir Bottega, enólogo e diretor técnico do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho). Entre os dados apresentados, soube que a safra de 2017 teve mais de 750 mil toneladas de uvas processadas, com metade destinada a sucos e a outra para vinhos (só cerca de 10% é para vinhos considerados finos; a maioria se destina aos vinhos de mesa). Para os vinhos finos, as três uvas mais produzidas são: Moscato Branco (18,5%), Merlot (10,6%) e Chardonnay (10,5%).

Vinho 11: Instantes Chardonnay 2014
Considerada “boutique”, a Vinícola Weber existe desde 2000, em Crissiumal, na fronteira com a Argentina, e atualmente é dirigida por Décio Weber (como existem poucos Décios é sempre bom citá-los). A conversa esquenta na mesa quando todos lembram o programa MasterChef gravado na região em março e que foi ao ar em abril, um tremendo sucesso. Fiz perguntas óbvias sobre o programa – típicas de quem nunca assistiu. Quer dizer, o cara que babou no almoço também não vê MasterChef...

Vinho 12: Fausto Pizzato Merlot 2015
A Lufthansa não ia servir qualquer coisa em sua classe executiva, então, acho tranquilo embarcar em uma segunda taça desse saboroso vinho. Caiu muito bem com o famoso galeto do Paolo. Já passa das 21h30 e percebo que meu vizinho de mesa, Fernando Soares, repórter do jornal Pioneiro (Grupo RBS), de Caxias do Sul, estava um pouco inquieto na cadeira. Penso que ele também tinha se animado com o Merlot, mas, não: gremista, está, sim, tenso em ir embora logo para ver o embate decisivo das quartas de final da Libertadores entre Grêmio e Botafogo. Chamo o garçom, discretamente perguntamos se havia televisão (afinal, eu também queria ver o Timão contra o Racing pela Sul-americana) e ele responde que não, que o sinal não é bom, algo assim. Achamos estranho, pois havíamos acabado de ouvir que os donos das vinícolas tinham escolhido justamente esse restaurante para assistirem juntos ao MasterChef da Serra Gaúcha. Indignado, Fernando sentencia bem baixinho: “Esquece. Devem ser Colorados aqui...”.

DIA 2

Vinho 13: Chesini Moscato 2017
Passamos a manhã do segundo dia de viagem sob a batuta do pesquisador Jorge Tonietto, da Embrapa, que conduz como um maestro as explicações sobre as Indicações Geográficas (quando um produto é patrimônio regional e as normas que existem para preservar tal identidade) dos vinhos gaúchos. Ao meio-dia, chegamos à adega Chesini, em Farroupilha, onde há a Indicação de Procedência dominada pelas uvas moscatéis, principalmente a Moscato Branco, com foco em espumantes. Somos recebidos pelo simpático Ricardo Chesini, que conta a história da família e o momento crucial quando o “nono” decidiu, em 1950, por causa de dificuldades financeiras, processar a uva que plantavam: “Vamos tomar todo o vinho e vender o que sobrar!”. Às 12h45, sacudo a primeira taça do dia para sentir o aroma que o Chesini Moscato exala.

Vinho 14: San Diego Seco Moscato
Aqui a coisa fica um pouco sem controle. Rodinhas de produtores em pé (um gole), o almoço começando a ser servido (outro gole), todo mundo falando ao mesmo tempo

– Refrescante esse, hein?

– Nossa, mas essa história é ótima!

– Sim, aceito mais um pouco, por favor...

Vinho 15: Casa Perini Qu4tro 2012
Hum... Adoro esse. Feito somente em safras excepcionais (2005 – não existe mais nenhuma garrafa –, 2008, 2009 e 2012) e elaborado com quatro uvas, Ancellotta, Cabernet Sauvignon, Merlot e Tannat. “A garrafa é quadrada, mas desce muito redondo”, resumiu com precisão a jornalista pernambucana Fabiana Gonçalves Mignot, do escrivinhos.com.

Vinho 16: Monte Paschoal Moscatel Espumante
Queijo, salame, polenta, frango – o almoço segue animado, produtores e jornalistas falando como se não houvesse amanhã. “Sim, lógico que aceito! É o mesmo que perguntar para um macaco se ele quer mais uma banana!”, filosofa Paulo Greca ao servirem mais uma taça.

Vinho 17: Castellamare Brut Espumante 2016
Enquanto a garrafa da Cooperativa São João é aberta, Paulo Greca, que está sempre com o celular na mão, vendo de tudo um pouco, dispara: “Essa do Simão é ótima: ‘Ninguém é hétero quando a barata voa!’”. A brincadeira do colunista da Folha de S.Paulo está relacionada a mais um desses absurdos neoconservadores que despencam noticiário nacional, catástrofes como a “cura gay” (sim, sim, aceito outra taça).

Vinho 18: Chesini Gran Vin Cabernet Sauvignon 2011
Luiz Cola, blogueiro do “vinhosemaisvinhos” e parceiro da Gazeta Online, de Vitória (ES), e Greca voltam a discutir sobre os vinhos do almoço. Eles discordam sobre as referências de paladar de alguns rótulos. Não que a cena seja hilária, mas começo a ter ataques de riso difíceis de controlar. Procuro ao menos não babar de novo na camisa.

Vinho 19: Cave Antiga Moscatel Espumante
Começo a entender (na boca) por que o espumante brasileiro é tão respeitado lá fora.

Vinho 20: Capeletti Moscatel
Luiz Cola e Paulo Greca agora discutem sobre preferências na gastronomia. Luiz deixa o papo mais leve e puxa para a origem dos alimentos – gosta de saber de onde são os produtores. Greca rebate: “Por isso que prefiro comer peixe todo dia. Sempre almoço salmão no restaurante japonês”. Luiz adverte levantando as sobrancelhas: “Mas você sabe de onde vem esse salmão, né?”. Greca desvia. “Bom, melhor do que comer frango da Korin. Como é que conseguem abastecer o Pão de Açúcar?”

Vinho 21: Casa Perini Moscatel
Nem cogito entrar no papo. Minha preocupação maior é não me perder entre as taças e as borbulhas que se acumulam em frente e nas laterais do meu prato. As garrafas chegam em ritmo frenético. Experimento, faço anotações (meu apelido logo vira “canetinha”), limpo as lágrimas de tanta risada, sem querer passo a ponta da caneta no rosto. Fico em dúvida se me sirvo de mais frango, que está espetacular.

Vinho 22: Castellamare Moscatel Espumante
Quase 3 da tarde e alguém grita: “Vamos fazer um sabrage para abrir a próxima garrafa!”. Oi? o quê? Sério, que vergonha. Devo ser a única pessoa em todo o país, quero dizer, no Rio Grande do Sul..., que, além de não assistir ao MasterChef, não faz a mais remota ideia do que seja um sabrage. Então, do nada, surge uma espada, e saco que vão abrir o espumante com um golpe – missão cumprida com louvor por Ricardo Chesini. Com o estouro do espumante, dou um berro como se estivesse no setor norte do Itaquerão, vendo o Jô subir livre na pequena área para cabecear no fundo das redes de Marcelo Grohe (estou esperando o gremista Fernando Soares me ligar quando ler este trecho).

Vinho 23: Chesini Especial para Missa
Hora de (tentar) me recompor para a despedida. Na saída da vinícola, uma especialidade autorizada pelo bispado: vinho especial para celebração de missas, digestivo, elaborado com uva Isabel, 16% de teor alcóolico, escuro para parecer o sangue de Cristo, mas nem tanto, para não manchar a indumentária do padre. Que almoço dos deuses. Amém.

Vinho 24: Don Giovanni Rosé Brut
Sem um pingo de dor de cabeça ou qualquer mal-estar, cruzamos de micro-ônibus mais paisagens montanhosas e verdes, em uma tarde quente e azul, até outro município da região que também tem o selo de Indicação de Procedência: Pinto Bandeira. Vamos encarar um passeio de bicicleta entre os 17 hectares plantados de vinhedos da vinícola Don Giovanni. O tempo que gastamos para (parte do grupo) subir nas bicicletas trazidas por Ribamar (paramentado como se fosse encarar o Tour de France) é bem maior do que pedalamos efetivamente. Em um deque de frente para o parreiral, brindamos às 5 da tarde, como se participássemos de uma publicidade impecável tamanha a perfeição do cenário. Para mim, era óbvio que ficaríamos ali até o pôr do sol. Só que não. Veio a bomba: sairíamos antes do poente para outra degustação (em uma sala fechada, sem janelas). Sugiro atrasarmos um pouco para não perder o espetáculo que estava por vir, assim, de bandeja. Mas não consigo. Pela primeira vez na viagem, sinto o amargor do mau humor descendo pela garganta, enquanto borrachudos (eu era o único de bermuda) devoram a parte mais chata para levar uma picada (imagine várias...): atrás do joelho. Para não desistir da vida e seguir firme com o grupo, decido tomar outra taça desse espumante.

Vinho 25: Don Giovanni Nature
Gosto mais do espumante Don Giovanni Nature se comparado ao anterior. Coisa fina. Tem aroma mais complexo, notas de torrefação e folhas secas (arrá! aprendi alguns termos do setor!) e é menos doce. Anote aí as nomenclaturas relacionadas à quantidade de açúcar para poder escolher melhor seu próximo espumante: nature (até 3 g de açúcar por litro); extrabrut (até 6 g/l); brut (de 6 a 15 g/l); sec, ou seco (de 15 a 20 g/l); demi sec, ou meio seco (de 20 a 60 g/l) e doce (acima de 60 g/l). Com a parte de trás do joelho sangrando de tanto coçar, resolvo pegar a bicicleta e dar uma volta rápida, sozinho no vinhedo, antes de ser enfurnado em uma sala de luz fria para mais uma degustação bem na hora que o sol estiver vermelho, se desfazendo no horizonte gaúcho.

Vinho 26: Cave Geisse Nature
É um clássico: quando você está mal-humorado as coisas tendem a piorar. Até então estavam impecáveis, a apresentação de slides da vez não funciona bem: o projetor está meio torto e mal dá para ver as lâminas preparadas pela Asprovinho (Associação dos Produtores de Vinho de Pinto Bandeira). Ainda de cara amarrada, dou a primeira bicada. Hum... Bom isso. Volto de novo para o espumante e mato a taça como se fizesse as pazes comigo mesmo. Bobeira perder tempo na vida ficando bravinho.

Vinho 27: Cave Geisse Extra Brut 2014
O astral melhora de vez quando me dou conta da relevância e da incrível história da família Geisse – o patriarca, Mario, é chileno e introduziu no Brasil o método espaldeira (com fileiras paralelas de vinhedos), substituindo a tradicional latada em que os ramos formam túneis de uvas. Foi ele também que sacou o forte potencial de Pinto Bandeira para o espumante. Percebo como esse extrabrut é mais doce do que o primeiro espumante e começo a achar que tenho preferência pelo nature.

Vinho 28: Cave Geisse Terroir Rosé Brut
Chego ao terceiro produto da marca com a minha vizinha de bancada Fabiana Gonçalves Mignot, de Recife, confirmando que estamos diante de um baita espumante. Show. Mais um que faço questão de secar até a última gota como uma homenagem ao trabalho de ponta.

Vinho 29: Aurora Chardonnay 2015
Se a história da Família Geisse chama a atenção pelo ineditismo das técnicas introduzidas no Brasil, os próximos dois vinhos da noite remetem a um enorme orgulho da Serra Gaúcha: a Cooperativa Vinícola Aurora, a “maior e mais premiada” do país. Em 14 de fevereiro de 1931, 16 famílias se organizaram para fundar a cooperativa e, logo no primeiro ano, produziram 317 mil quilos de uva. Hoje, são 1.100 famílias produzindo 60 milhões de quilos de uva por ano. E se a primeira impressão de algo realmente importa, posso dizer que já sou fã da Aurora graças a esse vinho. Lá vou eu para mais uma taça inteira enquanto meus colegas seguem cuspindo a bebida na pia que há em cada bancada.

Vinho 30: Aurora Extra Brut 2014
Não só o sabor do vinho impressiona: durante a degustação, fico sabendo que a Aurora tem um tubo subterrâneo para transporte de vinho de 4 polegadas de espessura e 4,5 quilômetros de extensão entre duas unidades da vinícola na Serra Gaúcha desde 1995. Mesmo gostando do espumenta, decido cuspir meu segundo gole para ver se ganho uma moral com o grupo de especialistas.

Vinho 31: Valmarino Natural Brut 2014
Vinho 32: Valmarino Nature 2012

A fome começa a dar o ar da graça e sei que existem alguns rótulos para vencer ainda essa noite. Já que cuspi o espumante anterior, decido fazer o mesmo com esses dois. Tenho que manter a qualquer custo a dignidade na hora de levantar e não tombar para nenhum lado.

Vinho 33: Valmarino Ano XX Cabernet Franc 2015
Penso em não engolir esse também, mas quando os especialistas começam a sorrir entre si e deixar o nariz dentro da taça mais do que o normal, resolvo mandar bala. Putz, que vinho gostoso. Desses rótulos que só são feitos em safras excepcionais e descansam em 15 meses em barrica de carvalho nova.

Vinho 34: Cave Geisse Nature
Um pouco antes das 20 horas, sentamos no restaurante para jantar. Opa! O leitor atento já sacou que o nome desse rótulo é o mesmo do vinho 26. Isso virou uma questão da mesa inteira quando nos deparamos, pela primeira vez na viagem, com um mesmo rótulo. Digo a mesa inteira pois, a essa altura, todos os jornalistas já estavam por dentro da minha pauta (de listar os vinhos) e sempre ficavam perguntando: quantos vinhos já tomamos até agora? Bom, o fato é que debatemos se eu deveria ou não colocar esse vinho no texto, uma vez que ele já foi citado, e, sim, decidimos (quase que por unanimidade) que ele entraria de novo. O motivo? Simples: o vinho pode ser o mesmo, mas eu e a minha percepção já estamos alterados, estamos bem diferentes do que éramos há oito vinhos atrás.

Vinho 35: Don Giovanni Brut
Estou feliz por não babar mais na camisa há tempos e por saber cuspir o vinho sem deixar gotas na barba quando cometo uma (pequena) gafe: agitei a taça de espumante. Confesso que nem me dei conta de que era um espumante. Depois de dezenas de rótulos meu braço entrou no automático e deu aquela balançada clássica que se faz com a taça de tinto e de branco para liberar o aroma. Com aquele olhar doce de quando se adverte o filho ao fazer alguma besteira infantil, meus colegas ensinam: não se chacoalha o espumante.

Vinho 36: Aurora Pinot Noir 2016
Depois de quase 40 vinhos de discordância, os especialistas Luiz Cola e Paulo Greca chegam a um consenso em relação à qualidade desse Pinot Noir. Percebendo que o jantar estava da metade para o fim, arrisco repetir a taça. Excelente.

Vinho 37: Valmarino Moscatel 2016
O astral da mesa é contagiante quando chega a saideira do dia. Meu olhar se perde entre os diversos objetos antigos que enfeitam as prateleiras do restaurante. Garrafas bem velhas, rádios mudos, desenhos enigmáticos, várias histórias boas, mas prefiro não entrar no detalhe de nenhum pois o texto já está longo e daqui a pouco a querida Gabriela Borges, editora do site da Trip, desiste de publicá-lo.

DIA 3

Vinho 38: Casa Venturini Chardonnay Reserva 2017
O terceiro dia de viagem começa com uma boa história sobre o desenho de galo usado por essa vinícola de Flores da Cunha. O bicho, de fato, é um símbolo da cidade e remete ao causo de um forasteiro que por lá chega se dizendo mágico. “Ah, é?”, perguntam os locais. “Mas o que você faz?” O cara explica que consegue cortar a cabeça de um galo, colocá-la de volta e o penoso cantaria normalmente. A cidade paga para ver, compram ingressos para a grande noite, teatro lotado, o desconhecido corta a cabeça do galo agarrado pelo prefeito e pelo delegado, o sangue espirra no teto, ele vai para trás da cortina “colar” a cabeça e... Desaparece! Pega o dinheiro da bilheteria e some sem deixar rastro. A história que poderia envergonhar a cidade é assumida com bom humor e o galo vira símbolo de Flores da Cunha. E lá estou eu rindo e bebendo a primeira taça do dia às 10h10. Melhor cuspir e mostrar que estou amadurecendo ao longo da viagem.

Vinho 39: Casa Venturini Le Bateleur 2017
O diretor e enólogo José Virgilio Venturini explica que esse rosé feito de uva Tannat é perfeito para um happy hour, ou à beira da piscina. Como não são nem 11 da manhã, me encanto mais com o rótulo do que com a bebida e cuspo esse também.

Vinho 40: Casa Venturini Tannat Reserva 2014
Outro rótulo bem bonito, com um cavalo estilizado. Já aprendi que com Tannat não se brinca. Taninos bem presentes, aroma que traz couro e o universo pecuário. Melhor seguir com parcimônia, dar um pequeno gole e deixar para beber mais na próxima.

Vinho 41: Boscato Chardonnay 2017
Um rápido traslado nos leva à conceituada Escola de Gastronomia da Universidade de Caxias do Sul, que funciona em Flores da Cunha desde 2004. A estátua de um enorme galo colorido na entrada da escola eleva o astral do grupo, que começa a dar os primeiros sinais de cansaço. Hora de conhecer os rótulos da Apromontes (Associação de Produtores dos Vinhos dos Altos Montes). Quase meio-dia, hora de começar a engolir.

Vinho 42: Fabian Intuição Rosé 2017
Tão bonito na garrafa (são apenas 1.300) e na taça que dá dó de não beber tudo.

Vinho 43: Viapiana Expressões Marselan 2013
Que bonito esse rótulo. Impressionante como a gente se deixa levar por uma boa aparência. Nem bem experimento e já gosto dessa uva (nova para mim) Marselan.

Vinho 44: Luiz Argenta Corte Cave 2011
Fica claro no discurso das marcas mais badaladas de vinhos finos da Serra Gaúcha a tríade: valorização da ascendência italiana das famílias, modernização da produção e incentivo ao enoturismo (com visitação das vinícolas e agradáveis salas de degustação). A Luiz Argenta, por exemplo, está na lista das mais belas vinícolas do país. Não virei a taça toda, pois sabia que o almoço já estava batendo na porta. E, onde há almoço, há vinho.

Vinho 45: Boscato Cave Gewürztraminer 2017
Na espera pelos pratos preparados pelos alunos da Escola de Gastronomia, ouço a conversa da expectativa de uma boa safra de uvas para este ano: menos horas de frio e menos chuva – a colheita que costuma acontecer nos primeiros meses do ano deve ser antecipada. A refeição começa muito bem com esse vinho de nome complicado (só mesmo a Fabiana Gonçalves Mignot para saber soletrar e escrever no meu caderno).

Vinho 46: Luiz Argenta Chardonnay 2017
Esse Chardonnay parece que nasceu para encontrar o risoto de bacalhau que acaba de pousar na mesa. Aqui preciso confessar mais uma particularidade sobre a minha pessoa: não gosto de bacalhau (e olha que gosto de tudo, viu? Sem frescuras, mas bacalhau...). Tudo isso para dizer que comi esse risoto de joelhos.

Vinho 47: Viapiana Expressões Marselan 2013
Mais uma figurinha repetida do nosso álbum que combina com as histórias antigas contadas pelos produtores de vinhos, como as surras que levavam dos pais quando disparavam com a slita (carroça puxada por mula onde cabiam dez cestas de uva), perdiam o controle e estragavam o parreiral. Ou quando tomavam coice de mula e ficavam dias desacordados.

Vinho 48: Fabian Intuição Moscatel
A cereja do bolo do almoço foi, de fato, uma bola de sorvete em um crème brûlée que compete entre os melhores da vida (tenho uma tendência a exagerar, mas sempre sem colocar a credibilidade em risco).

Vinho 49: Pizzato Brut Rosé
Considerando que o almoço acabou antes das 14 horas esse espumante foi servido em uma degustação na vinícola Almaúnica quase às 19 horas, tivemos uma abstinência considerável. Não foi fácil. Talvez por isso esse Pizzato tenha descido tão bem. No caminho, cruzamos um clássico roteiro da Serra Gaúcha: Caminhos de Pedra, uma estrada de 7 quilômetros que corta a área rural e passa por antigas casas de pedra e de madeira da época da imigração italiana. Preciosidades como a Casa da Família Strapazzon, de 1875, cenário do filme O quatrilho.

Vinho 50: Almaúnica Chardonnay 2016
Esse (bom) Chardonnay faz parte dos rótulos Super Premium; enquanto o Syrah 8 anos safra 2013 faz parte da categoria Ultra Premium – esse não experimentamos e, olha, até agora, na hora de escrever, fico com vontade...

Vinho 51: Pizzato DNA 99 Merlot 2012
Para esse vinho é necessária uma pausa. (Pausa) Veja que estou dando a primeira pausa após 50 rótulos. E se faço isso é porque, mesmo dentro da minha ignorância no assunto, digo que esse vinho é maravilhoso. (Não só eu, na verdade, até o crítico inglês Steven Spurrier, da bíblia Decanter, colocou o DNA 99 entre os três melhores vinhos do Brasil em 2015). Hora certa de tomar uma taça inteira e mais um chorinho.

Vinho 52: Miolo Merlot Terroir 2012
O nível continua altíssimo. Não consigo me conter, aproveito um momento de silêncio e puxo um brinde ao vinho nacional! As taças tilintaram entre sorrisos e olhares efusivos.

Vinho 53: Reserva Almaúnica Brut Chardonnay 2017
Não sou o único empolgado no grupo. Paulo Greca também está que não se aguenta de felicidade. Ele se candidata a fazer o sabrage que vai fechar a degustação. Empunha a espada como se estivesse com ela desde a infância, contagem regressiva e... zapt! Perfeito, de primeira. O espumante estoura e embala novo brinde. Saímos dando risada não sei bem do que, mas tenho a lembrança de rir ainda na escadinha do micro-ônibus. Estávamos atrasados para o jantar harmonizado.

Vinho 54: Pizzato Brut 2015
Esse espumante abre os trabalhos no restaurante Valle Rústico, do chef Rodrigo Bellora. O lugar vive lotado e precisa de reserva com antecedência. E olha que o cliente nem escolhe o que vai comer: ele toma conhecimento do cardápio ao chegar. É aquilo e pronto. A sequência de pratos é preparada de acordo com os alimentos que Bellora recebe dos produtores das redondezas e também do que planta na propriedade.

Vinho 55: Cave de Pedra Brut
Essa vinícola chama a atenção no Vale dos Vinhedos por ser um castelo construído em basalto. O staff avisa que Bellora foi levar o filho de 10 meses ao posto de saúde pois estava com febre, mas vai tentar chegar a tempo de falar conosco.

Vinho 56: Almaúnica Chardonnay 2016
A figurinha repetida da catarse vespertina cai muito bem. O tempo muda, o céu limpo se entope de nuvens e começa a garoar. A previsão se confirma e, de novo, a Avaliação Nacional de Vinhos vai acontecer no dia seguinte sob chuva.

Vinho 57: Terragnolo Merlot 2013
De celular em punho como sempre, Paulo Greca grita de repente que 10 mil soldados do exército brasileiro estão subindo a Rocinha, no Rio de Janeiro, e quebra um pouco o impacto do matambre recheado de purê de inhame. Aperta o coração ver uma das cidades mais lindas do mundo complemente jogada às traças.

Vinho 58: Larentis Merlot Santa Lúcia 2013
A trilha sonora do jantar mistura Jimi Hendrix, Beatles, Bob Marley e outras belezas. O grupo de especialistas não esconde a surpresa com o jantar mais especial da viagem.

Vinho 59: Don Laurindo Merlot Reserva 2012
Vinho 60: Dom Cândido Documento Merlot 2011
O javali servido com creme de feijão e farofa de alho indica que a noite vai se aproximando do fim em grande estilo. O chef aparece, tranquiliza a mesa que o filhinho está um pouco melhor e desfia um pouco de sua história de vida.

Vinho 61: Miolo Terranova Late Harvest
Late Harvest significa que a colheita é tardia dessas uvas moscatéis plantadas no vale do Rio São Francisco. Hora da sobremesa. A mente sintonizada totalmente nos aspectos do Rio Grande do Sul é catapultada a pensar no calor e na cultura do Nordeste. Com o líquido doce na boca e a cabeça voando, caio em uma viagem frequente das minhas sinapses que é pirar na vastidão do Brasil e nas poucas amarras que o fazem um país. Deixo de ouvir algumas conversas e percebo que flutuo acima da mesa. Os próximos flashes de lucidez me levam ao micro-ônibus, ao elevador panorâmico do hotel e, antes de pregar os olhos, me pego emocionado com os hits do Tears for Fears no Rock in Rio pela TV.

DIA 4

Vinho 62 ao Vinho 77: 25ª Avaliação Nacional de Vinhos
Finalmente, o grande dia. A maior degustação simultânea de uma mesma safra no mundo, com 850 pessoas provando 16 vinhos selecionados em 327 amostras de 59 vinícolas de seis estados acontece na mais absoluta organização da ABE (Associação Brasileira de Enologia) a partir das 9h30 da manhã de um sábado chuvoso. As 1.440 garrafas são servidas por 95 alunos de enologia que fazem um verdadeiro balé para alcançar as mesas enfileiradas no Parque de Eventos de Bento Gonçalves. Há uma mesa no palco onde estão os 16 comentaristas convidados, brasileiros e estrangeiros – cada um fala de uma amostra –, entre eles, a jornalista do nosso grupo, Fabiana Gonçalves Mignot.

Convidados e público dão notas para as 16 amostras, mas isso não vale para ranqueá-los. Todos que estão ali já são “vencedores”. Somente no final do evento é que são reveladas as vinícolas das amostras selecionadas. As três primeiras são da categoria “vinho base para espumante”; depois três da “branco fino seco não aromático”; duas da “branco fino seco aromático”; uma da “tinto fino seco jovem” e, por fim, sete da “tinto fino seco”. Antes de as garrafas entrarem em ação, duas músicas italianas são executadas ao vivo por um tenor e um pianista. Logo na sequência, o hino nacional e o hino do Rio Grande do Sul (cantado pelo público em volume superior ao nacional). Para cada convidado há um baldinho na mesa – é ali que todo mundo cospe as amostras.

Como não dá para arriscar em um evento desse porte, sorvo poucos goles (principalmente nos sete tintos finais) e dou preferência para cuspir. Mesmo sem engolir todos, me perco nas anotações da Ficha de Degustação, que tem dezenas de quadradinhos para as análises visual, olfativa e gustativa. Na sexta amostra, percebo que já estou rindo sem motivo aparente (e olha que eu estava superconcentrado).

Como queria fazer outra reportagem à tarde longe de Bento Gonçalves (antes do evento derradeiro da programação do nosso grupo, à noite), perdi o show da banda Cabelo Cacheado, com Laura Dalmás, participante do The Voice Brasil 2016, e almocei rapidamente. O garçom até tenta me servir um vinho, mas recuso. Preferi ficar na água.

Vinho 78: Peterlongo Terras Merlot 2015
Lindo o desfecho noturno da viagem etílica com a exibição de O filme da minha vida, de Selton Mello, na sede da vinícola Peterlongo. O cinema a céu aberto, em frente às parreiras e ao lado do castelo da marca, foi batizado de Wine Movie e atraiu dezenas de pessoas que deram de ombros para a garoa e o vento. Para não congelar de frio, resolvo ficar em pé sob o guarda-chuva que protege o carrinho de bebidas da Peterlongo – o que facilita encher a taça de tempos em tempos. Rodado em Garibaldi, Bento Gonçalves e Cotiporã, o longa tem cenas que envolvem viagens de trem. Em determinado momento, porém, ouço o apito de uma maria-fumaça, mas não há nenhum trem na tela. Fico um pouco confuso. Será que exagerei no vinho bem no finalzinho da viagem? Acho melhor não comentar nada com ninguém até que, de novo, ouço o trem (sem trem na tela) e resolvo perguntar para as moças que servem o Merlot se elas também ouviram ou se havia algum defeito na exibição do filme. Rindo, elas explicam que, sim, havia acabado de passar a maria-fumaça que sai de Bento Gonçalves, passa por Garibaldi e vai até Carlos Barbosa. Ufa, melhor assim.

Vinho 79: Peterlongo Presence Brut
E já que o espumante é o carro-chefe da produção nacional (e que percebi durante esses dias que gosto de rótulos menos adocicados), nada mais justo do que fechar a conta com esse brut. Saúde!, brindo sozinho erguendo a taça na garoa. Os 15 quilômetros de estrada de volta a Bento Gonçalves servem para repassar as melhores cenas da viagem. Chegando ao hotel, Fabiana pergunta quantos vinhos contabilizo. Respondo: 79. Ao lado de outros quatro jornalistas, ela propõe que abramos uma garrafa no lobby do hotel para alcançar um número redondo. Praticamente sem voz, gesticulo que prefiro subir e pedir o jantar no quarto – mas nem isso consigo fazer. Abro a porta do 415, tiro a roupa e desmaio na cama.

 

Créditos

Imagem principal: Tatiana Cavagnolli

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