Parece que não adianta fazer nada, tanto faz. Por mais que se lute, a luta só aumenta e nós estamos sempre atrasados

Não consigo ainda formular uma ideia inteiramente coesa sobre o que foi convencionado. E quando, como agora, no presente momento, em que ultrapassamos o bom senso, a realidade restou nebulosa e as reações convencionais não trouxeram solução, o que fazer? A patifaria é cometida às claras, é filmada pelas televisões, falada pelos comentaristas e noticiada aos quatro cantos do país. Todo mundo está vendo essas negociatas todas. E agora, como vamos sair desse sorvedouro?

Há algum tempo, estudando antropologia e fazendo uma correlação com o estado de nosso pobre país, pensei que a corrupção é a maior inimiga de uma sociedade. O corrupto é inimigo pessoal de cada um de nós. Somos vítimas de sua ganância. Nós precisamos questionar os políticos em quem votamos, exigir satisfação. Mas como chegar até eles? Estamos cercados, sitiados por um sistema que temos o dever de combater se quisermos sobreviver condignamente.

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O resultado desse crime contra o país é a falta de motivação. Parece que não adianta fazer nada, tanto faz. Por mais que se lute, a luta só aumenta e nós estamos sempre atrasados. A corrupção já fez vítimas: quebrou, por exemplo, a confiança – a maior força agregadora de seres humanos. É um chamado de volta para casa e para o colo da mãe. E essa prática nociva tem sido disseminada tão descaradamente que atinge outro patamar: o existencial. Por acaso estamos entrando em outra época e eu estou aqui de bobeira? A época do salve-se quem puder? Contestou ou discordou, morreu? Vejam o que aconteceu com a vereadora Marielle Franco. É preciso estar atento aos sinais.

O lobby da indústria armamentista, visando leis flexíveis para a venda de armas, aciona políticos que tiveram suas campanhas financiadas. Não é convencional e não temos cultura nem história para sustentar a liberação pacífica de armas. Quem as conhece sabe que poucos têm condições psicológicas de andar armados. Mormente em um país no qual tal cultura não existe. Conheço pessoas que não andariam armadas por nada nesse mundo. Não se arriscam a ferir ninguém, preferem o risco de ser feridos.

Guerras particulares

Sair de casa está virando uma aventura. A gente pode ter que brigar no ônibus ou no metrô. Usamos, então, o carro. O trânsito é uma guerra! Território de ninguém. É quase certo de que serás ofendido, buzinado e maltratado. Eu sempre desaconselho armas. Digo sempre que celular compro outro e o dinheiro que estiver na carteira é só de gasto. A vida deles pode ter se tornado barata, mas a minha tem me custado bem caro.

Veja a cena: chegar numa casa de armas com o cartão e sair de lá armado para pagar em suaves prestações vai ser a corrida do ano. Filas serão formadas nas poucas casas de armas existentes. As ações das companhias de armas subiriam ao máximo. As empresas mais fortes do ramo já devem ter técnicas desenvolvidas nesse sentido. Como seria? “Compre sua 45 e sinta-se mais homem!” E várias “gatas” seminuas em volta do ator empunhando uma arma em pose máscula. “Balas ungidas pelo pastor fulano de tal, mandam direto para o cééééu...”

O convencional se provou incapaz de resolver os problemas atuais. Proponho zombar enquanto não temos nada melhor. Rir de tudo, fazer chacota, curtir com a cara dos caras. Fazer uma suruba ou siri na lata. Deus é zen ou ninja, e não importa o que eu pense ou diga. Um velhinho daqueles no comando da nação, mais de 80 anos e não aprendeu nada da vida, me espanta e assusta. Deve ser desanimador para o Criador...

Nessas horas é que eu, esse outro velhinho aqui, digo que aprendi e levei a sério. Há décadas nem passa pela cabeça fazer mal a alguém. E quero agora produzir a dúvida. Aquela dúvida que há de se tornar desconfortável, desalojar convenções “seguras” e humanizar a reflexão. Pautarei pela dúvida.

Créditos

Imagem principal: Maxwell Alexandre

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