Luiz Mendes: Dei aulas na prisão por dez anos. Educar é dar autonomia às pessoas, empoderar e, com isso, transformar a sociedade como um todo

Entre os muitos desafios de nosso país que poderiam servir de tema para a Trip no futuro próximo, há dois que, para mim, são da máxima importância: educação e crianças em situação de risco.

Já fui professor na prisão por cerca de dez anos e me aprofundei na filosofia da educação. Sou devoto de Paulo Freire e já fui estudioso de Piaget e Helena Ferraro. Elegi o método Paulo Freire e o construtivismo como prática de trabalho. O homem aprisionado é exigente, questiona, quer saber e só respeita se sentir conhecimento e capacidade em quem o ensina. Construí minha didática em salas de aula de prisões, baseado em sólido conhecimento e estudo constante.

Fugi de casa aos 11 anos e fui morar nas ruas da região central de São Paulo. Meu pai era um alcoólatra espancador e as luzes da cidade me atraíam, simbolizavam uma liberdade que eu não tinha. Preferia a fome, o frio, o medo e o desespero das ruas à prisão que significava a casa de meus pais. Errei. Errei em quase tudo. Quanta estupidez cometi! Parece que eu precisava errar muito, chega a ser um absurdo. Conheci os meninos de rua, éramos um grito estridente que a sociedade buscava abafar. E continua, até hoje, depois de mais de 50 anos, abafando. As pessoas só têm consciência dessas crianças quando as veem dormindo pelas calçadas. Ou nos noticiários quando elas matam, roubam ou são mortas. Elas apenas devolvem, pois foram roubadas desde que nasceram. Roubadas da proteção e do amparo social que lhes é devido, em saúde, sonhos e futuros. Vítimas das drogas, da indiferença humana, dos serviços sociais e das forças de segurança do Estado.

Empatia e compaixão
Por haver sido professor, sei do que falo quando digo que o que o brasileiro mais necessita é de educação. É a única resposta coerente para a insanidade que, por conta da condição humana, criamos. Educar é dar autonomia às pessoas, torná-las capazes de autogestão, empoderar e, por conta disso, transformar a sociedade. Principalmente educação no sentido do trato com os outros. É preciso aprender a enxergar a outra pessoa como um igual. Um outro ser que sofre, sente dor, carece de dignidade e respeito como qualquer um de nós queremos e merecemos.

É preciso que as pessoas sejam ensinadas a ter compaixão, que desenvolvam ternura pelo semelhante. Afinal, somos uma civilização cristã ou não somos? É necessário que parem com essa pressa toda em busca de nada e pensem. O sentido da vida não está nas coisas, está na outra pessoa, no que a relação com elas pode trazer de aprendizado e satisfação de viver. Claro, a relação com o outro pode ser dolorida também, principalmente por conta da má educação reinante. É preciso que haja generosidade, elegância e fino trato.

As crianças que não têm ninguém, ou as que têm alguém, mas que não liga para elas, precisam ser cuidadas pela sociedade como um todo. Se não pelos pais, pelos professores, vizinhos, ONGs ou instituições religiosas. As pessoas devem se sentir responsáveis por cada criança que dorme nas calçadas. Só assim esses pequenos seres sociais aprenderão a ver no outro alguém igual a eles. Essa é a única possibilidade que temos de realizar o bem-estar social.

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E é aqui que os dois temas se cruzam. É como se houvesse ocorrido um acidente e precisássemos primeiro salvar as crianças, depois as mulheres e, por fim, os homens. É preciso ter consciência de que somos pais de todas as crianças. Ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém.

A educação de nossas crianças é a única possibilidade que temos de uma salvação coletiva.

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