
NUMA ÉPOCA EM QUE A INFORMAÇÃO É AVASSALADORA, EDITORES SÃO INDISPENSÁVEIS. E GANHAM BEM POR ISSO
POR RONALDO LEMOS*
James Joyce era mesmo visionário. Batizou o personagem do seu livro Finnegans Wake como Lá Vem Todo Mundo (HCE – Here Comes Everybody), uma metáfora sobre o triunfo do homem comum. Duvida? Veja só esta história: depois de dias com o gás estragado, um amigo carioca conseguiu ser atendido pela companhia. Batendo papo com o rapaz do gás que consertou o problema, descobriu que ele era fã incondicional de Iron Maiden. A conversa sobre música se estendeu e culminou na gravação de um CD-R, com o qual meu amigo presenteou o rapaz na hora, com as últimas novidades do rock, na visão dele.
Semanas depois, o rapaz do gás aparece de novo com um presente de volta: um CD original do Iron Maiden (o Number of the Beast, de 1982, símbolo máximo de gratidão, no caso). Surpreso, meu amigo descobre a razão do regalo: a coletânea que ele tinha gravado havia se tornado um sucesso no mercado informal de CDs da região onde o rapaz mora. Não só estava sendo circulada intensamente entre amigos, mas também
começou a ser vendida pelos camelôs por R$ 5, com ótima vendagem.
ESCOLHE PARA MIM?
À parte as questões de legalidade e ilegalidade, esse fenômeno de “curadoria” descentralizada tem se mostrado presente também em outros lugares. Há pouco tempo, em pesquisa sobre o cinema nigeriano (que é vendido em lojas de rua), um elemento inesperado saltou aos olhos. Ao conversar com os vendedores de rua da Nigéria, eles contam que o tipo mais popular de CD vendido no mercado informal daquele país não são de artistas famosos nem “álbuns” no sentido tradicional da palavra. São coletâneas montadas pelos próprios vendedores de rua: um apanhado das faixas julgadas mais legais por eles, abrangendo vários artistas e agrupadas em um único CD. É uma forma de seleção musical feita de forma independente, que muda a relação com a venda da música nas periferias globais.
Em entrevista recente concedida à BBC, o cantor Peter Gabriel fala sobre o futuro da música em tempos de tecnologia digital. A conversaocorreu em razão do lançamento do site criado por ele, chamado We7 (www.we7.com), que oferece downloads de música gratuitos e sem proteção anticópia. Dois dos argumentos na entrevista chamam bastante a atenção. O primeiro é que ele acredita que a distribuição de música daqui para frente será financiada por comerciais inseridos – seja no site, seja no próprio meio de divulgação da música. É curioso notar que isso parece o que está acontecendo com o tecnobrega
em Belém do Pará. Por lá, além de existir um modelo de negócios novo (os vendedores de rua servem de meio de divulgação da música), há também uma invenção permanente de novas formas de sustentar a produção musical. Uma delas é justamente esta: os CDs
vendidos na rua contam com um pequeno anúncio inserido antes do início da primeira faixa, chamando a atenção para os patrocinadores.
A segunda afirmação feita por Peter Gabriel na entrevista é que o valor da música pode ser recriado através de compilações. Se toda a música está disponível na internet, como saber o que realmente interessa? Para ele, as pessoas estão dispostas a pagar pela “filtragem”, pela seleção daquilo que é relevante para cada gosto. E nesse sentido os métodos são diversos. Vale desde a criação de sistemas de comunidade, em que os membros cooperam entre si na busca do que é legal, até a criação de sistemas mais abstratos, com base na inteligência coletiva e na chamada web 2.0.
De uma forma ou de outra, o fato é que não só os gostos se multiplicam, mas também se multiplicam as formas de reagrupar conteúdos. E há um valor ainda inexplorado nessa possibilidade, que pode gerar modelos, negócios e formas novas de valor. A Nigéria, o tecnobrega, o Peter Gabriel e o rapaz do gás já descobriram isso. Quem mais?
*Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV-RJ, do Creative Commons e curador do Tim Festival. Seu e-mail é: rlemos@trip.com.br
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