por Marcos Candido

Em um espaço ocupado por piadas às vezes consideradas preconceituosas, humoristas fazem shows ’anti-preconceitos’

“Tem algum policial aí?”, pergunta Gustavo Suzuki, um sujeito do tipo comum - com barba rala, óculos de hastes grossas e uma camiseta preta. A plateia à frente permanece calada com a pergunta, até que o próprio comediante retoma a fala: “Ainda bem, cara. Eu odeio polícia, odeio policial”. O público, em um modesto teatro na região central de São Paulo, ri nos próximos quatro minutos da performance de Suzuki sobre a polícia militar. “‘Auto de resistência seguido de morte’ é o quê? O cara tava fugindo e sofreu um infarto, foi isso? Engasgou com uma bala soft? Não, ele só foi assassinado”, arremata.

Com apresentações semanais em teatros da capital paulista, Suzuki, 30 anos, é membro do grupo de stand-up comedy Sr. Bumbum, conjunto contra “piadas machistas, racistas, homofóbicas, transfóbicas, gordofóbicas, xenófobas e opressoras no geral”, de acordo com manifesto publicado na página oficial do espetáculo no Facebook. “Pra gente, toda ação é uma ação política”, explica o humorista. “Quando você sobe no palco, já exerce uma posição política. Nós pensamos sempre no que atrás dessas mensagens”. Além da agenda “anti-preconceituosa”, há gozações com instituições – polícia, Estado, políticos – e com argumentos usualmente direcionados a minorias. “Você só pode chamar uma mulher de feminazi se ela for, ao mesmo tempo, feminista e nazista”, graceja Vitor Brandt, um dos colegas de Suzuki. Alguns dos textos podem ser vistos no YouTube. O nome ‘Sr. Bumbum’, foi escolhido, dentre outros motivos, por que "bumbum é uma das palavras mais deliciosas e fofas ever".

Pela união de duas madeiras

Prestes a se apresentar pelo Sr. Bumbum em uma quinta-feira fria na capital paulista, Helloara Ravani, de 27 anos, ajudou a arrastar alguns sofás de uma casa de show na zona oeste de São Paulo. O espaço do palco - constituído pela união de duas madeiras e um papelão é pequeno e oscila a cada passo da comediante. Atualmente, os Senhores (como se intitulam) contam com uma produtora que auxilia nesse manejo. E, meio que só. “Gente, não tô sabendo lidar com esse palco”, brinca Helloara.

Vinda de Fortaleza, ‘Hell’ é a única mulher entre os quatro comediantes da equipe (o manifesto do Sr. Bumbum reconhece que “¾ do grupo é formado por homens brancos e héteros que eventualmente podem falar merda”). “Acredito numa comédia, ao menos, original. Sempre quando vejo esse tipo de comédia majoritária daqui, dá impressão de que já vi aquilo antes na fila da padaria, entendeu?”, explica. Mas quem faz esse tipo de comédia? “Ah, os grandes símbolos padrões do stand-up são o Rafinha [Bastos] e o [Danilo] Gentili, os primeiros a se tornarem referência para muita gente [no Brasil]”.

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Com um caderno nas mãos, a humorista dá voltas pelo palco improvisado, pula o longo fio do microfone e traça um comparativo sobre ‘chorar e cagar’, emendado por piadas com homens que enviam nudes sem autorização. “Algumas pessoas poderiam vir com a genitália separada do resto do corpo, não é?”, pergunta a uma plateia escorada em almofadas, com risos abafados. A missão de Helloara da noite é anunciar os nomes que irão subir ao palco, enquanto emenda piadas sobre sexo e o filme Se Eu Fosse Você, protagonizado por Tony Ramos e Glória Pires. “Às vezes, você não queria transar tanto com alguém ao ponto de virar a outra pessoa?”, pergunta. Poucos parecem ter assistido ao filme de 2006. “E aí, galera, foi golpe ou não foi?”, questiona sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT). O público de cerca de vinte pessoas, que pagaram R$ 15 pela entrada, soa mais efusiva.

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“O stand-up abriu portas para um tipo de humor mais diversificado no Brasil”, pontua Hell, à Trip. Isso, ela diz, significa abandonar o uso dos “falsos estereótipos” – como homem vestidos de mulheres, barrigas falsas etc. Mas, até o modelo da comédia ‘de cara limpa’ acabou vexado a um padrão, por vezes preconceituoso, que é combatível, defende.  “O stand-up, assim como a comédia em geral, tem várias frentes, e nós tentamos sair desta bolha que acabou sendo criada”, diz Hell.

Mas, como fazer humor sem ofender ninguém, ó céus? “O termo ‘politicamente correto’ é meio que um mito inventado para tentar minar e penalizar demandas legítimas de minorias”, explica Suzuki. “A gente não tem problema com o teor das piadas e não deixamos de falar sobre alguma coisa. Nós só sabemos que tudo que falamos não é só uma piada, mas também um discurso, né?”

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