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Guerra fora

A vontade brocha do pacifismo se limitou a um protesto meia-boca diante da vontade concreta de guerrear

em 21 de setembro de 2005

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    Nas semanas que precederam a invasão do Iraque pelas tropas anglo-americanas, o centro de Londres foi palco de muitas manifestações pacifistas. Uma delas foi considerada a maior passeata da história inglesa, com quase dois milhões de manifestantes ? gente educada e bem-intencionada, puta da vida com o governo Blair.
   Naqueles dias cerca de 70% da população britânica se declarava contrária à guerra. Era portanto de se esperar que, assim que a carnificina começasse a rolar no Golfo, o furor pacifista deflagrasse uma revolta popular. Mas, misteriosamente, foi exatamente o contrário que aconteceu: quanto mais inocentes morriam e mais incessante a cobertura do horror da guerra na TV, maior a apatia dos paladinos da justiça, maior o silêncio conivente dos heróis pacifistas.
   Não podemos esquecer de que a vontade popular muito contribuiu para que os mesmos americanos desistissem da desastrosa aventura no Vietnã. Quem goza de direitos democráticos só não os usa quando e porque não quer. O Reino Unido e os Estados Unidos são países ? ao menos supostamente ? democráticos, onde a população elege seus representantes e tem plena consciência de que é com os impostos que paga que seus exércitos são mantidos e as mais sofisticadas armas são produzidas. Mas não vi nenhuma tentativa de desobediência civil nem real ameaça de derrubar o Tony Blair.


Somos uns boçais
   A vontade brocha do pacifismo se limitou a um protesto meia-boca, uma voz patética e impotente diante da vontade ? esta sim concreta ? de guerrear. Agora, olhando retrospectivamente, percebo que para muitos pacifistas as tais passeatas não passaram de uma boa opção de programa dominical.
   Virão outras guerras ? elas sempre vêm, pois as mesmas mãos que usamos para fazer carinho em quem amamos podem sempre virar armas letais. Gostamos de nos imaginar como seres bem-intencionados, mas não somos bonzinhos porra nenhuma. E quando somos é só porque assim nos convém. Só nos resta enxergar o que somos de verdade e onde estamos. Hoje não consigo mais me iludir. Somos animais boçais e estamos fodidos e mal pagos.

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