por Paulo Cezar Soares

Os caddies são mais que ajudantes que carregarem os tacos. Um deles se tornou jogador profissional e pode representar o Brasil nas Olimpíadas

Esse ano, as Olimpíadas do Rio de Janeiro vão ser palco do retorno do golfe aos Jogos depois de 112 anos de ausência - última participação foi em 1904, em St. Louis, Estados Unidos. À primeira vista de quem não é praticante, esse esporte de elite criado na Escócia parece complicado. Mas não é. Ganha a partida quem termina o percurso em um menor número de tacadas distribuídas em 18 buracos em cada um dos quatro dias da competição. A modalidade olímpica vai ser a strike play (jogo por tacadas), a mesma utilizada na maioria dos campeonatos do PGA Tour e Europa Tour.

Sempre ao lado dos jogadores tanto em treinos profissionais quanto amadores estão os caddies. Mais que ajudantes que carregam os tacos pelo campo, eles se tornam verdadeiros companheiros durante as competições e ajudam a manter a concentração. E, de uma partida informal a outra, o caddie pode tornar-se um jogador profissional. Foi o que aconteceu com Adilson Silva, um dos melhores golfistas brasileiros da atualidade.

Adilson trabalhava como garçom e era caddie desde os 12 anos quando, aos 19, a sorte bateu à sua porta. Ele foi convidado por um fazendeiro africano amante do golfe a ir para o Zimbábue, onde fez aulas e treinou muito. Hoje, o gaúcho, filho de um carpinteiro e uma faxineira, vive em Durban, na África do Sul, onde o esporte é forte.

Ao lado dos paulistas Lucas Lee e Alexandre Rocha, ele está lutando por uma vaga nos Jogos Olímpicos - serão dois representantes por país. O Brasil tem hoje cerca de 20 mil praticantes de golfe. Lucas é o brasileiro melhor classificado no ranking mundial, na 285° posição. No feminino, estão no topo do ranking e dispoutam vagas nos Jogos a paulista Victoria  Lovelady, no momento a melhor golfista brasileira, e Miriam Nagl, curitibana de família alemã.

Outro famoso caddie brasileiro é o carioca José Luis de Sousa, 59 anos, conhecido como Maria Preta. Ainda garoto, ele foi morar perto do Itanhangá Golfe Clube, na Barra da Tijuca, e à época, final da década de 60, surgiu a oportunidade de trabalhar como caddie. Simpático e bom de papo, Maria Preta ainda mora perto do clube, numa comunidade conhecida como  Tijuquinha, onde todos o conhecem. Por onde passa, ele cumprimenta e conversa com os moradores, como um político em campanha eleitoral. “Conheci vários países da América do Sul, acompanhando jogadores profissionais de golfe”, conta. Os caddies são contratados dos clubes, mas quem paga pelo trabalho são os jogadores. “Se não tem jogo, você não recebe”, explica. “Tudo que eu tenho agradeço ao esporte. Os países que conheci, as amizades que fiz, e uma certa estrutura financeira que me possibilitou abrir uma serralheria", conta. Há aproximadamente dois anos, Maria Preta não trabalha mais como caddie, com exceção de algumas competições. Ele agora administra a serralheria. “É um trabalho diário e certo. Tenho seis funcionários. Tudo registrado, dentro da lei. Virei patrão”, diz rindo.

Seu colega de profissão e morador da mesma comunidade, Wilson Ribeiro dos Santos, 40 anos, trabalha como caddie desde 1988. Também já conheceu alguns países da América do Sul e diz que fez boas amizades. “Vivo dessa profissão. Trabalho de terça a domingo. Segunda o clube é fechado. Mas se o caddie quiser jogar, pode”, explica.

O campo de golfe olímpico carioca fica na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. O projeto do americano Gil Hanse é uma das obras olímpicas mais polêmicas e foi alvo de críticas de ativistas ambientais por ameaçar a fauna local. O objetivo é que, depois dos Jogos, o lugar seja destinado a golfistas amadores e também receba o projeto Golfe para a Vida, da Confederação Brasileira de Golfe (CBG), que usa o esporte como inclusão social e recebe alunos de escolas públicas e particulares.

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