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Filhos meus

Por que fui prendê-los?

em 21 de setembro de 2005

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Às vezes, como hoje, não consigo dormir. Penso nas responsabilidades que tenho para com meus filhos. Ser pai e estar preso é eternamente dolorido. Tenho dois. Um de 3 e outro de 7 anos. O mais novo ainda é um nenenzão, diz as coisas mais loucas que se possa imaginar. E, pai apaixonado, tento interpretar. Como se isso fosse possível.


Todos que me conhecem sabem de Renato e Jorlan. Falo deles para todo o mundo. E bastante. Acho que até encho o saco. Morro de saudades. Daí falar deles alivia, entende?


Como dizia, às vezes não durmo pensando em meus filhos. Como será o futuro deles? Será que sempre vou ter meios para sustentá-los? Porque só estou conseguindo até agora porque alguma coisa nos protege. Venho conseguindo driblar as circunstâncias e as más condições ambientais. Venho escorregando de cada problema… Na maior parte do tempo não posso lhes dar educação, amor, carinho, influência masculina e paterna. Essas coisas, a prisão impede. Daí como é que fica? Não vai fazer falta na formação de suas personalidades? Haverá um meio de compensar, posteriormente, quando estiver solto? Qualidade cobrirá quantidade? Aposto tudo nisso. Jogo todas as minhas fichas nesse número.


Começo a questionar e a responsabilidade por isso pesa demais. Tudo vira um feixe de questões que remetem a outras, interminavelmente. Tudo me é atirado na cara. Não durmo. A clássica pergunta me persegue: o que fazer? Não consigo manter a consciência em paz. E sei que essa é a única paz possível.


Sono dos injustos


Quando me deixo levar pelo pensamento, começo a me censurar em tudo. Em cada real que gastei comigo e não com eles. Em cada alegria minha que não foi para eles. Em cada momento da minha vida que não estou me dedicando a eles. Não consigo escapar do real, nem que fuja em labirintos.


Se me deixo, então, levar ao passado, dá até dó de mim. Fica claro o quão inconseqüente que fui. Quão egoísta, fraco e egocêntrico eu era. Como pude me deixar ser preso? Percebe como pode ser dolorido? O que dói terrivelmente é a minha irresponsabilidade com relação aos que dependem de mim. A depressão baixa igual tigre esfomeado. A alma resvala por entre os rochedos e se rala toda.


A consciência esmaga. E, quando são os filhos, é preciso encarar de frente. Todas as mentiras, justificativas e racionalizações ficam desmascaradas num pestanejar. Ficam valendo somente para contar para os outros. A fim de não parecer tão estúpido como sou. Mas, para mim, não tem sentido algum. Disfarço a vontade de gritar, insano.


Às vezes me parece um poço sem fundo. Impossível voltar à borda, depois que o salto para a realidade é dado. É preciso engolir a seco e esperar passar. Não há remédio para a consciência. Já fui um péssimo filho. Minha mãe que o diga. Péssimo cidadão, péssimo tudo. Agora estou sendo péssimo pai. A auto-estima vai lá embaixo, é demorado o processo de resgatá-la. É aí que não durmo e sofro. Rolo de um lado para o outro da cama. Fico suando. Tecendo silêncios em palavras para cicatrizarem sonhos. Pior saber que esse sofrimento de pouco adianta. Não dá para ser totalmente diferente do que sou. A natureza não dá salto, tudo é paulatino e sedimentar.


Comecei a abrir a boca agora, o sono parece estar chegando. Obrigado, seu ouvido amigo me ajudou. Só que você não fala nada e então dá sono. Legal. 

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