por Redação

Selecionamos as imagens, reportagens e personagens que refletem nossa visão sobre o fazemos para sobreviver

Neste ano, em que celebramos o 32º aniversário da Trip, decidimos selecionar imagens, ideias, reportagens e personagens que, ao longo dessas décadas, traduzem com graça nossos temas de interesse e nos ajudam a clarear o olhar da revista para o mundo.

São 12 os pilares que fundamentam nosso projeto editorial: Corpo, Alimentação, Trabalho, Sono, Teto, Saber, Liberdade, Biosfera, Conexão, Diversidade, Acolhimento e Desprendimento. Foi um mergulho prazeroso e profundo em nossa história.

Todo este conteúdo foi acrescido de informações e novas entrevistas com personagens que protagonizaram passagens importantes da trajetória da Trip. Seguimos sempre em frente.

2005

#138 | Tema: Seu trabalho dá prazer?

Na estica

Por Daniel Salles | João Gunal

Nu, ele repousa sobre uma das macas. É corpulento, tem cabelos encaracolados e bigode espesso. Já passou por exame médico e agora espera a chegada de Ivan da Silva Ferreira. É ele quem lhe dará banho, vestirá e o colocará no caixão, pois o homem na maca está morto – um dos muitos que passam diariamente pelo Instituto Médico Legal de São Paulo. Ivan liga a mangueira e esguicha água por todo o cadáver. Deixa a água escorrer bem, agora tingida de sangue.

Com 46 anos de vida, 24 dedicados à morte, ele entrou no ramo de bobeira. Antes trabalhava pelo interior do estado fazendo entrega de – veja só a ironia… – frios da Sadia. Não são poucos, aliás, os trocadilhos de mau gosto com a palavra presunto que ele vive ouvindo. “A gente está na rua e os caras: ‘Lá vem presunto’. E eu falo: ‘Ô, tá escrito Sadia? Isto aqui não é carro de presunto, é carro de defunto!’.” Questionado sobre como gostaria que seu cadáver fosse tratado numa hipotética passagem pelo IML, Ivan nem hesita em dizer: “De qualquer jeito. É só a carcaça”.

E agora?

Depois de 35 anos de serviços prestados ao Serviço Funerário da Prefeitura de São Paulo, Ivan descansou sua carcaça e se aposentou em fevereiro deste ano.

2012

#215  | Tema: Os novos significados de trabalho

Profissão: voltar vivo

Por Lourival Sant'Anna | Foto de Maurício Lima

“Ninguém gosta de cobrir conflitos”, diz Maurício Lima, hoje o mais atuante fotógrafo de guerra brasileiro, ao lado de André Liohn. “É uma vertente na fotografia que, se bem executada, pode servir de agente transformador na vida das pessoas porque mexe com a emoção, o sentimento, a sensibilidade do fotografado e do fotógrafo”, diz Maurício, que usa lentes 50 mm (normal) e principalmente 35 mm (grande-angular), que o obrigam a estar muito, mas muito próximo da cena. Ele vê a proximidade como necessária não só do ponto de vista técnico, mas da compreensão e do sentimento do que se passa. Sobre os conteúdos emocionais que se acumulam no peito do correspondente de guerra e o encorajam a encarar a morte, Maurício fala em inconformismo e André, em revolta: “Ela me levou a cobrir guerra. Quero expressar na fotografia o momento de trauma. Não é chocar. É ter consciência de que a vida tem que tomar direção nova. Me identifico com toda pessoa que se insatisfaz com a realidade e quer mudar isso”. Ser fotógrafo de guerra é viver confrontado com a própria impotência diante da barbárie e da morte. Mas é também, em um dia de sorte, fazer a diferença em uma vida que seja.

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E agora?

O Brasil tem hoje um geração de fotógrafos de guerra de grande relevância. Além de André e Maurício, que não arredaram o pé de áreas de conflito, nomes como Felipe Dana, João Castellano, Gabriel Chaim e Yan Boechat vêm se destacand

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