por Eduardo Ribeiro

Conversamos com o guitarrista do Sonic Youth, que está no Brasil para divulgar seu novo álbum, ‘Electric Trim’, e o livro ‘Jrnls80s’

Lee Ranaldo, membro fundador do Sonic Youth, é um dos mais singulares e influentes guitarristas do rock de vanguarda de todos os tempos. Além de ter ajudado a moldar a estética do som experimental e dissonante que transformaria a banda numa instituição da música alternativa, as bases tortas criadas por ele contribuíram fortemente para subverter a linguagem do rock americano nos anos 80. Ao lado de Thurston Moore e Kim Gordon, conseguiu traduzir em distorção o espírito jovem de uma época. Mas a produção criativa de Ranaldo preenche um catálogo bem mais abrangente. Som, imagem, sentidos, performance, rabiscos e palavras são uma coisa só em sua obra. Tanto que ele nunca deixou de se articular — e se desafiar — nas mais diferentes formas de expressão. Nem na época em que os compromissos do Sonic Youth lhe tomavam tempo.

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Uma fagulha desta prolífica veia poética, visual e reflexiva apreende-se entre a capa e a contracapa de Jrnls80s, livro publicado originalmente nos Estados Unidos em 1998 e que agora aparece pela primeira vez em língua portuguesa num caprichado acabamento da editora Terreno Estranho. No primeiro título do selo, embarcamos numa jornada pessoal que recorta a fase mais underground do Sonic Youth, antes do estouro do grunge que ejetaria o grupo ao mainstream. A obra consiste num apanhado dos diários de Lee Ranaldo no período que vai de meados dos anos 80 até julho de 1989, meses após o lançamento do álbum Daydream Nation e menos de um ano antes de Goo — dois clássicos do rock alternativo.

Acompanhamos os pensamentos do autor durante as primeiras turnês em furgões usados, dormindo em casas de amigos e dividindo palco com bandas como Dinosaur Jr., fIREHOSE e Big Black. Os relatos dos shows, da estrada e do cotidiano do Sonic Youth em viagem misturam-se a poemas, letras, rascunhos de instalações, cartões-postais, cartas, memórias de infância e coisas assim, bem próprias de um diário.

No dia 12 deste mês, o músico vem de Nova York para lançar Jrnls80s com show na capital paulista, no Centro Cultural São Paulo. Ele vai receber os fãs-leitores para um bate-papo informal e a tradicional sessão de autógrafos, das 17h às 19h. O show começa às 21h, e vai se basear no repertório de seu recém-lançado trabalho solo, Electric Trim.

Depois de 30 anos no Sonic Youth, a vontade agora é de trilhar novos caminhos, Lee Ranaldo conta à Trip na conversa a seguir.

Trip. Jrnls80s é o seu primeiro livro publicado no Brasil. Que novas percepções sobre o Sonic Youth esta obra traz aos fãs leitores de língua portuguesa que os veículos de mídia não foram capazes de transmitir?

Lee Ranaldo. Este livro, cuja primeira edição é de 1998, contém um apanhado das anotações em meus diários e bloquinhos, que incluem letras, poemas e outras coisas escritas ao longo dos anos 80, paralelamente à primeira década do Sonic Youth. Não é a “história” da banda, de forma alguma, mas muitos dos escritos aqui foram inspirados por experiências que dividimos naquele comecinho de tudo, criando nossa música e começando a nossa vida de banda em turnê. E boa parte foi escrita na estrada enquanto estávamos começando a viajar cada vez mais, no decorrer daquela década. Nosso horizonte começava a se abrir, para além dos confins de Manhattan, abrangendo o país inteiro e o mundo todo, e enquanto isso eu comecei a tentar capturar minhas impressões na forma de linguagem, preenchendo diários dentro das vans em que viajávamos naquela época.

Você já sentia que um dia tudo isso seria útil num livro ou documentário, ao notar que a banda indicava potencial para se tornar um ícone? Nem de longe. Não houve nenhum cálculo a respeito disso na época. Só foi virar livro bem mais tarde. Sempre fui um cara de esvaziar os pensamentos em diários, registrar impressões ou pedaços de poesia e letras de música. Fiz isso a minha vida toda, desde quando era bem pequeno. Tão logo começamos a viajar por aí, surgiram muito mais coisas para se escrever a respeito, e naquela época eu já tinha lido o suficiente de outros autores, então sentia que dava para escrever minhas próprias coisas. Mas nada foi escrito com a pretensão de ser publicado, isso veio depois, como uma sugestão do Sander Hicks, então publisher da Soft Skull Press, para que eu tentasse organizar uma parte do material de modo que se tornasse um livro.

Por que você quis compartilhar até mesmo cartas pessoais e memórias de infância no livro? As cartas incluídas em alguns casos foram enviadas, e, em outros, a escrita tomava a forma de uma carta como recurso narrativo. Esse tipo de diário era como se fosse um catálogo de pensamentos sobre qualquer coisa que passasse pela minha cabeça. Em turnê, as lembranças do passado se misturam com os acontecimentos presentes no dia a dia e então se misturam com filmes que você assistiu e livros que leu etc. O livro reúne tudo o que se passava pela minha mente naqueles dias. Às vezes acontecimentos especificamente relacionados com o Sonic Youth, às vezes situações pessoais em que me encontrei, letras de músicas e tudo mais. Qualquer coisa que normalmente encontraria num velho diário escrito à mão.

“A vida de um artista é converter a mídia que tem em mãos em algo transformador. É menos sobre o meio e mais sobre passar a mensagem”

Qual é a imagem mais forte que você guarda daqueles dias de underground nos anos 80? Tem um monte. Foi o período em que eu comecei – junto com a Kim e o Thurston – a realizar os nossos sonhos de fazer parte da comunidade artística de Nova York e começar a contribuir com as nossas próprias coisas, e a transcender a condição de entusiasmados membros da plateia. Foi por isso que nós três nos mudamos para Nova York. Nos sentíamos impelidos a contribuir. Termos nos encontrado e desenvolvido a nossa linguagem foi um processo muito especial, como alguns talvez possam imaginar, uma colaboração tão próxima e duradoura. É algo raro de se imaginar acontecendo, é uma explosão que simplesmente acontece dentro de seus próprios parâmetros, de tempos em tempos. Saímos do underground de Nova York, e de certo modo nunca o deixamos, apesar das grandes gravadoras, turnês mundiais etc. Fomos moldados por tudo o que já conhecíamos e tudo o que acontecia ao nosso redor. Essa é a memória mais forte, de todas as coisas incríveis que nos cercavam e nos moldaram naquele período. Tanta gente boa para se inspirar em quase todas as escolas criativas: literatura, música, arte, cinema. Coisas fantásticas estavam sendo feitas nesses campos.

Você sempre foi ligado em arte e poesia. Quais são as suas influências nessas áreas? Tenho interesse em música, artes visuais e literatura desde bem pequeno, e eu continuo a trabalhar nessas áreas, às vezes mais abertamente, às vezes com discrição. Eu curto o diálogo cruzado entre diferentes disciplinas, então às vezes palavras terminam aparecendo em pinturas ou ideias do trabalho visual influenciam as performances ou canções... Eu já me lancei às artes visuais e continuo a fazer esses trabalhos e expô-los. No momento, meu foco se concentra em Lost Highway, série de pinturas que faço enquanto estou na estrada, e também Black Noise, em que as imagens são entalhadas em vinis antigos e deles são feitas as impressões. Quando o punk e a new wave explodiram na cena, era impossível não querer se juntar ao movimento, e de repente eu estava fazendo música de novo, mas filtrada pelos meus estudos de arte contemporânea, na prática e na teoria. Na época em que o Sonic Youth começou, nós partíamos de coisas que havíamos aprendido sobre arte moderna, filmes e teoria do cinema, e com literatura e gibis e tudo mais. Não éramos saídos de uma garagem naquele contexto, mas informados pela música e prática artística do século 20 – de Stockhausen a Cage, passando por De Kooning, Eva Hesse, Kerouac, Godard e tantas outras fontes. Em termos de artes visuais, Robert Smithson é uma pedra fundamental, como pensador, escritor e criador de objetos e imagens. Matisse é uma constante inspiração também. Mike Kelley, que fez a capa do álbum Dirty, do Sonic Youth, é bem importante, assim como Richard Prince, autor da capa do meu último álbum, Electric Trim. Mas são tantas inspirações e influências, assim como ocorre com a música, que eu poderia mencionar várias outras.

O fim do Sonic Youth foi a deixa que você precisava para explorar novos territórios musicais, o leque de possibilidades da guitarra acústica, por exemplo? Durante 30 anos, compor foi um processo essencialmente colaborativo para mim; no Sonic Youth, nós escrevíamos as músicas todos juntos, no fim das contas. Era raro que alguém chegasse com uma música pronta. Trabalhávamos nelas repetidamente nos ensaios até chegar em algo que deixasse todo mundo satisfeito. Agora estou trabalhando sozinho, é bem diferente e de certa forma recompensador em um nível diferente. Um processo muito diferente do que aquele da colaboração coletiva. No último ano de atividade do Sonic Youth, eu também estava fazendo o meu álbum Between The Times and The Tides entre as turnês. Então, quando as coisas mudaram e a banda encerrou as atividades, eu já tinha acabado o álbum e comecei a fazer shows solo. Uma coisa meio que naturalmente veio na sequência da outra. Penso que deve ter sido um choque para o público quanto isso rolou. Ninguém nunca espera que um grupo dure para sempre e nós seguimos por 30 lindos anos trabalhando juntos. Estou curtindo a liberdade criativa agora. Ser desafiado por mim mesmo ao invés de um membro do coletivo. Minha arte visual está em sua fase mais sólida agora, e fiquei muito orgulhoso de Electric Trim – é um dos projetos de gravação mais interessantes entre os que eu já me envolvi.

Electric Trim é um autêntico álbum de estúdio. Queria saber se esse era o conceito desde o início mesmo e o que você aprendeu ao longo de todo o processo. O principal aprendizado foi estar aberto a colaboradores e saber escolhê-los bem. Em Jonathan Lethem e Raul Fernandez, encontrei dois novos parceiros que se encaixam perfeitamente nos meus métodos de trabalho e cada um deles me abriu a mente para novas ideias num momento em que isso foi importante. Durante 30 anos no Sonic Youth, nós trabalhamos de um certo jeito em termos de composição musical e gravação. É empolgante pra mim, a essa altura da minha carreira musical, eu ainda estar aprendendo coisas novas e experimentando novos métodos. Desde o começo a proposta era que o álbum seguisse um caminho novidadeiro e exploratório. Tudo o que eu sabia era que desejava fazer um lance bem diferente de qualquer outro projeto no qual já havia trabalhado. Começamos com demos cruas e construímos as músicas em cima delas, testando várias possibilidades. Cada faixa é, na verdade, como se fosse um pequeno filme, porque não há uma banda fixa tocando ao longo do álbum, cada uma tem sua própria sustentação e mantém uma sonoridade única, distinta, no repertório. Portanto, o instrumento essencial foi o estúdio, no caso, mais do que qualquer outra coisa. Usamos o estúdio para criar este álbum num sentido bem moderno, assumindo os avanços oferecidos pelos computadores, samples e drum machines, mas sem deixar de lado a musicalidade dos instrumentistas, claro!

O que este álbum acrescenta à sua discografia solo, levando-se em conta a pegada dos sons anteriores? Este álbum está um passo adiante, distante daquele som feito por duas guitarras elétricas, bateria e guitarra, tão parecido com o Sonic Youth, e, espero, dentro de um novo território musical. Por que não me desafiar a fazer algo diferente neste estágio da minha vida e carreira? Ando ansioso para experimentar coisas mais novas ainda, e este álbum é talvez o começo de uma nova fase para mim.

Qual foi o combustível emocional, digamos assim, por trás dos temas das músicas e ondas melódicas de Electric Trim? O foco principal do disco é o trabalho colaborativo. Com Raul na música e Jonathan nas letras. As ideias originais das músicas eram um tanto pessoais, mas as composições tomaram muitas formas diferentes e caíram nas mãos de Raul e Jon. Esta exploração, de me abrir a novas colaborações musicais e também dividir a escrita das letras com um camarada autor, me levaram a um estranho e inédito território. Acho que este é o principal fator emocional da obra. Mais do que um conceito emocional, tipo “álbum de término de namoro”, coisas assim. Este trabalho é a respeito de um novo espírito de troca e abertura, de se sentir capaz de fazer uma curva e descer ladeira abaixo de uma rua nada familiar quando a necessidade chega.

“Este trabalho é a respeito de se sentir capaz de fazer uma curva e descer ladeira abaixo de uma rua nada familiar quando a necessidade chega”

E foi bem fluída então essa experiência de criar coletivamente? Sem conflitos? Além de Raul e Jonathan, eu trabalhei com muitos amigos, velhos e novos, no álbum. Sharon Van Etten canta em seis músicas, inclusive num dueto comigo. Nels Cline toca num monte de faixas, e Kid Millions da banda Onieda toca bateria em algumas. Steve Shelley, Alan Licht e Tim Luntzel (RIP), membros do The Dust, também participam bastante nessas gravações. Cada um trouxe seus talentos especiais e contribuíram com ideias e performances que deram vida à peça completa.

Tem circulado por aqui a informação de que você está fazendo a trilha de um filme brasileiro. Conte mais a respeito. O filme se chama Ainda temos a imensidão da noite ("We Still Have the Deep Black Night") e é dirigido por Gustavo Galvão. Conta a história de uma banda, com cenas captadas entre Brasília, cidade do Gustavo, e Berlim. Eu atuo como produtor musical e gravei e mixei as músicas da banda fictícia que eles montaram para o longa. Passei algumas semanas de agosto em Brasília trabalhando nesse projeto e acredito que o resultado ficou ótimo. Quero ver logo o corte final do filme.

Você ainda guarda algum material de arquivo do Sonic Youth que possa vir a ser lançado? Temos alguns projetos de material de arquivo rolando no momento. O mais provável de ser lançado em breve é um vídeo selecionado de todos os filmes que gravamos desde os anos 80 até assinarmos com a Geffen Records em 1990 – videoclipes, programas de TV sobre a gente, shows. Uma coleção muito boa, e estamos quase terminando. O mais difícil ultimamente tem sido encontrar tempo para decupar tudo isso. Mas nós mantemos um arquivo enorme de material do SY, e temos altos planos para lançamentos futuros de material ao vivo ou vídeos em outros formatos de nossos 30 anos juntos.

Créditos

Imagem principal: Anna Paula Bogaciovas

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