por Bruna Bittencourt

Ela se apresenta em São Paulo com novo projeto e fala à Tpm sobre a vida pós-Sonic Youth, sua autobiografia, Hillary Clinton e ter 63 anos

Um dos lançamentos mais esperados entre os fãs de rock no ano passado não foi um disco, mas um livro: a autobiografia de Kim Gordon, ex- baixista/guitarrista do Sonic Youth, que influenciou gerações de roqueiras. Muito se especulava sobre o fim da banda e do casamento de Kim e Thurston Moore, com quem ela fundou o grupo, um dos pedestais da cena alternativa. O livro A garota da banda (ed. Rocco) trouxe respostas, sem meias-palavras.

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Curiosamente, o livro começa no Brasil, onde a banda fez o derradeiro show de sua carreira de 30 anos. Kim, hoje com 63, havia descoberto uma traição do marido, já não falava mais com ele e por isso a banda não conseguia seguir adiante. "O casal que todo mundo achava que seria eterno", escreveu no livro, "era só mais um clichê da falência das relações de meia-idade". E foi numa tarde cinzenta em novembro de 2011 que o quarteto se despediu do público em Paulínia (interior de São Paulo), no festival SWU.

Cinco anos depois, Kim está refeita e de volta ao país, tocando guitarra ao lado de Bill Nace, com quem apresenta o projeto Body/Head, marcado por improvisações e distorções, na próxima sexta (21) e sábado (22), no Sesc Pinheiros, em São Paulo. "Houve um período difícil, mas como costumam dizer 'boas coisas virão' e elas chegaram", contou por telefone à Tpm. "Decidi lançar o livro que as pessoas pediam e me abri para as oportunidades que estavam chegando. Tem sido bom. Escrever foi muito importante para refletir sobre as coisas. Entendi como algumas pessoas me influenciaram e o quão importantes foram para mim", disse, com sua conhecida timidez. "Sempre evitei estar ligada a rótulos, mas quando escolhi lançar o livro, tive que escrever sobre mim mesma [risos]."

Kim anda ocupada desde o fim do Sonic Youth. Mostrou sua autobiografia em uma espécie de turnê pelos Estados Unidos em que foi entrevistada em público sobre por nomes como Carrie Brownstein (vocalista do Sleater-Kinney) e a cantora Aimee Mann. Lançou dois álbuns com o Body/Head e, desde então, vem excursionando com o projeto. Artista visual desde a década de 70, apresentou uma mostra inédita e uma retrospectiva de seu trabalho. Fez as vezes de atriz em pontas nas séries Girls e Portlandia (criada por Brownstein). Posou para a Saint Laurent em uma campanha que reuniu ícones da música e voltou a fazer as vezes de modelo para Marc Jacobs, desta vez acompanhada pela filha que teve com Thurston. Ao lado de Coco, 22 anos, também posou para a Madewell. No palco, Kim sempre usou saias e vestidos, distante do estereótipo da roqueira que usa tachas e jeans rasgados. "Gosto deste contraste entre os vestidos e a música dissonante. Você não precisa se vestir como punk, não é disso que o gênero se trata".

Ao lado de PJ Harvey e Patti Smith, ela segue entre os principais nomes femininos da cena alternativa. Mas, diga, ainda existe preconceito em relação a mulheres tocando rock? "Acho que sim. É engraçado que o Oldchella [como ficou conhecido o festival Desert Trip, que aconteceu este mês na Califórnia] tenha Bob Dylan, Neil Young, Paul McCartney e nenhuma mulher no line-up. Mas nós poderemos ter uma mulher presidente”. Kim elogia Hillary Clinton: "Acho ela durona e muito inteligente, provavelmente mais que o marido. Tem uma experiência tremenda. Não é uma pessoa carismática, mas tenho a sensação que nos bastidores é calorosa e com senso de humor."

Aos 63 anos, Kim anda em paz com a idade. "Sempre sou a mais velha entre as pessoas à minha volta. Mas estou confiante: Patti Smith e Debbie Harry também não têm 28 anos. Tenho a sensação de que estou mais velha, mas, ao mesmo tempo, dou mais risada. Era bem mais séria quando nova. Minha filha me faz lembrar que eu odiava meus 20 anos. E, de verdade, eles não eram tão divertidos [risos]."

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