por Paula Gicovate

Não aguentei esperar pela versão em português e li Girl in a band , de Kim Gordon, em inglês mesmo. Resultado? Amo essa mulher mais ainda

A primeira vez que ouvi Sonic Youth foi em uma mixtape (pois é) que o Bernardo, um cara que eu gostava na faculdade, fez para mim.

A mixtape começava com The Diamond Sea e seguia com I wanna be adored, do Stone Roses, Shaky Ground do Lemonheads, Jesus dont want me for a sunbeam do Vaselines e outras pérolas que são minhas grandes paixões até hoje.

Por causa da mixtape eu fui ouvir os álbuns inteiros das músicas que o Bernardo tinha escolhido. Foi assim que eu pirei com Washing Machine, o nono disco do Sonic Youth, e com a baixista da banda, Kim Gordon, que lançou este ano o livro de memórias Girl in a Band pela Dey Street Books.

Eu esperava por este livro desde o início de fevereiro, quando o The Guardian publicou o trecho onde a Kim relatava a separação e, entre outras coisas, o quanto ela queria que Kurt Cobain e Courtney Love não tivessem se conhecido e que o quanto Billy Corgan era um bebê chorão. Sem conseguir esperar a edição brasileira, que deve chegar às livrarias em setembro pela editora Rocco, levei a versão em inglês mesmo para ser minha companheira de viagem.

Quando Só Garotos, livro da Patti Smith saiu, eu fiquei tão feliz por ter descoberto mais coisas sobre aquela mulher que era meu ídolo, que durante alguns anos eu só dava “Só Garotos” de presente para as pessoas. Fiquei tão obcecada que virou até o nome da série que eu escrevi. Girl in a Band causou um efeito parecido.

Assim como o livro da Patti Smith, Girl in a Band é mais do que um relato sobre o início de uma carreira musical ou sobre a construção de uma cena. Kim escreve sobre sua infância e adolescência na Califórnia, o gatilho da esquizofrenia paranoide do irmão mais velho, as mudanças para o Havaí e Hong-Kong por causa das pesquisas do pai acadêmico e sobre as inúmeras questões que fazem alguém se tornar artista. Quando ser artista é consequência de uma necessidade física de se expressar.

E essa necessidade a levou para Nova Iorque para ver o nascimento do movimento No Wave, a ebulição do Pós Punk e shows de artistas que ela amava. Ali, ela viveu momentos de dureza, morando de favor na casa de artistas como Jenny Holzer e Cindy Sherman e trabalhou como assistente de Larry Gagosian, um dos maiores dealers de arte do mundo.

No meio deste caminho Kim encontrou uma profissão – ou várias, e também um amor. Com Thurston Moore ela fez banda, filho, turnê e história, e 30 anos depois viu isso tudo acabar em um show do Sonic Youth em São Paulo, com sua dor escancarada para mais de mil pessoas em uma noite chuvosa de SWU.

Um pouco antes de terminar a leitura, eu acabei indo ao show do Thurston Moore no Primavera Sound em Barcelona, e confesso que foi uma experiência diferente ver o Thurston, agora personagem do livro e material de tantos parágrafos doloridos, tocar. Um dos meus amigos inclusive viu o Thurston passear com a nova mulher pelo festival. E como se eu fosse uma amiga próxima da Kim Gordon eu fiquei olhando ao redor para ver se encontrava os dois, se dava uma cara para a mulher que ela descrevia.

Em um dos parágrafos, Kim diz: “it´s hard to write about a love story with a broken heart” (é difícil escrever sobre uma história de amor com o coração partido), e é. No fim das contas a gente escreve sobre o que a gente sabe, sobre o que a gente sente, por mais ficcional que se queira soar. E ela não esconde em momento algum os seus sentimentos. O livro é magoado, tem cheiro de coração partido.

E é engraçado ler sobre uma mulher tão forte, tão punk rock e tão dona de si, assumindo que abriu o computador do marido e procurou mensagens de texto sem que ele soubesse. 

Kim descobriu que Thurston estava tendo um caso com uma mulher que tentava se aproximar dela, dele, e de outros integrantes do Sonic Youth alguns anos antes. E a história é pesada, obsessiva. Ela narra as mensagens, as mentiras, a tentativa de salvar o casamento muitas vezes, de tentar acreditar nele. E é engraçado ler sobre uma mulher tão forte, tão punk rock e tão dona de si, assumindo que abriu o computador do marido e procurou mensagens de texto sem que ele soubesse. 

Porque no fim das contas, mesmo na mais libertária e revolucionária das mulheres ainda bate um coração. E amor é coisa séria. Ver um amor acabar é mais sério ainda. 

Dar conta de dois finais tão intensos e escrever sobre isso mostra que Kim Gordon continua fazendo da arte uma forma de escoar, de se manter sã, e por consequência nos deixar sãos de volta.

Além de todas estas coisas Girl in a Band é um livro que fala de trajetória, encontro e de como nossos afetos nos constroem. Kim é, eu sou, e me sentir um pouco parecida com ela é algo que eu adoro desde os 19 anos. Obrigada, Bernardo.

Paula Gicovate é roteirista do programa Esquenta, do seriado Só Garotas e autora do romance Este é um livro sobre Amor. É carioca do Jardim Botânico e apaixonada por São Paulo

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