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É DOS CARECAS QUE ELES GOSTAM MAIS

Agora que terminaram os fogos, os salões de festas já foram dedetizados e encerados e as garrafas de Möet & Chandon vazias estão devidamente empilhadas, é que a tal mudança anunciada pelo novo milênio começa a dar as caras

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Agora que terminaram os fogos, os salões de festas já foram dedetizados e encerados e as garrafas de Möet & Chandon vazias estão devidamente empilhadas, é que a tal mudança anunciada pelo novo milênio começa a dar as caras. Com tudo o que traz de bom e de ruim.

Com a febre de ansiedade da internet puxando o bloco, o ano começa com movimentos bruscos e radicais que (como quase sempre) manifestam seus primeiros sinais através da mídia. Um desses sintomas contra o qual infelizmente parece não haver antídoto é o do culto ao efêmero e a valorização ao que é passageiro (para tristeza dos motoristas e cobradores). Cada vez mais os veículos de comunicação deixam a informação relevante e o jornalismo sério e aprofundado em segundo plano, em detrimento do oba-oba, do mundo da fantasia criado pela TV e pela propaganda.

Criadas na esteira do sucesso comercial de Caras, surgiram publicações como Chiques e Famosos (recentemente incorporada pela Editora Abril) e Isto É Gente. Esta última, desde seu lançamento chamou atenção pela busca de um diferencial jornalístico. Sua proposta pretendia ir além das fantasiosas coberturas de festas ou da exibição das banheiras e louças sanitárias das celebridades de ocasião. Em parte por carregar o pré-nome da competente irmã mais velha, a semanal de informações da Editora Três e em parte por perceber que o mercado da futilidade 100% já estava à beira da saturação, Isto É Gente apresentou desde seus primeiros números, uma mistura tão curiosa quanto perigosa. A revista alternava notícia, fatos jornalísticos e reportagens sérias, por exemplo com fotos e textos narrando cerimônias de casamento unindo os filhos de ‘autoridades’ de quinto escalão ou a intimidade do pagodeiro da semana ou do Padre Marcelo do mês. Fantasia e realidade numa assustadora simbiose.

ILHA DOS CARAS

Na edição da semana passada desta revista, um artigo me chamou a atenção de forma especial. Entre matérias revelando o salário faraônico de Fausto Silva e sua suposta vida de filântropo, as estripulias de Marcio Garcia, o novo namorado da Theresa Collor ou as aventuras do herdeiro dos Ermírio de Moraes, uma página dupla trazia o título ‘Os meninos do Brasil’. Uma foto de meia página mostrava quatro garotões de corpos malhados exercitando-se e posando numa praia qualquer. Razoavelmente atléticos e de cabeças raspadas ao estilo Ronaldinho, usavam bermuda tipo surfwear. Em uma linha sob a foto, um pouco mais sobre os retratados: ‘Juliano Sabino em uma das viagens dos Carecas do ABC à Praia Grande, em 1999: ‘Quero me casar ainda este ano’

‘Só o leitor mais interessado, que se dignasse a ler o artigo até a segunda coluna descobriria tratar-se de um dos acusados da morte por espancamento a sangue frio de um cidadão homossexual que passeava numa praça do centro de São Paulo. É verdade que há duas linhas sob o título revelando a acusação, e uma pequena vinheta no alto da página onde se lê ‘crime’. Mas é verdade também, que o tratamento dado ao careca acusado de crime bárbaro é muito semelhante ao dado à nova VJ da MTV ou a Danah Costa, ex ‘Garotas do Zodíaco’ e atual Paquita. Alteram-se as vinhetas no alto da página: Romance, televisão, drama e crime convivem de igual para igual.

O Grupo Polegar em férias em Angra dos Reis ou Os Carecas do ABC acusados de assassinato a sangue frio passeando na Praia Grande diferem pouco no tratamento de celebridade efêmera reservado a quem, por algum motivo, pouco importa qual, recebeu atenção da mídia naquela semana.

Parece possível pensar que o filho da dona de casa que comprou a revista naquela semana e que como 99% das crianças e jovens do país quer ficar famoso e fazer sucesso, terá agora a opção entre comprar uma guitarra, fazer aulas de teatro, ou simplesmente adquirir um soco inglês e um coturno e matar um homossexual após as refeições.

MICOS E FAMOSOS

O documentarista e video-maker Carlos Nader escreveu sobre o incrível livro ‘Vida, o filme’ de Noel Gabler: ‘No verdadeiro ano 2000, as celebridades são os verdadeiros extraterrestres. São seres virtuais feitos não de carne e osso, mas de tinta e cátodos explodindo nas telas. São seres que só existem de fato dentro de nossas cabeças – e, em alguns casos mais graves, dentro das cabeças deles mesmos. As celebridades invadiram e colonizaram nossas mentes. Celebridade, , a gente sabe, é uma pessoa famosa porque é famosa. Não precisa bater o récorde de 100 metros rasos, descobrir a cura da AIDS ou inventar a máquina do tempo. Na verdade, não precisa nem cantar direito. Precisa simplesmente aparecer. As celebridades não são apenas protagonistas de nossos noticiários. Elas estão tão entranhadas na nossa consciência que muitos indivíduos se dizem mais próximos e mais apaixonadamente apegados a elas do que aos próprios parentes e amigos’.

Será que isto é que é gente?

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