por Sidão Tenucci
Trip #93

O que poderia ser mais uma aventura de brasileiros destemidos pelas quinas do planeta acabou de transformando num estudo sobre o relacionamento humano. Cruzar o Cabo Horn é se autodescobrir

A expedição Rota Austral finalmente atinge o Cabo Horn, extremo meridional da América do Sul. Na chegada, uma forte discussão. Ao descer na Caleta Leon, a pequena e perigosa praia do Cabo, Betão, temendo a entrada de uma tempestade prevista para breve, ordena que sigam viagem até uma praia mais segura para preservar os barcos, a expedição — e, provavelmente, suas peles. Santiago Iza, seu companheiro no barco La Samba, começa a chorar, sentindo que não realizaria o sonho de sua vida. Na outra embarcação, Gui von Schmidt, não concorda com a decisão, apostando que haveria uma janela de tempo segura antes da tormenta. Parte para terra, desce à praia com seu proeiro Felipe Tommasi, sobe até o farol e assina o livro, em nome dos quatro tripulantes.


Depois de velejarem pelos perigosos fiordes chilenos, quebra-se a relação entre os dois comandantes Roberto Pandiani e Guilherme von Schmidt. Os cascos dos hobie cats de 21 pés resistiram à maldição do Horn — mas a amizade trincou. Os dois amigos, que passaram dois anos suando metro a metro para concretizar a inédita viagem de 7 mil quilômetros a bordo de dois catamarãs, agora mostram sinais de saturação mútua.

Da saída, em Puerto Montt, Chile, em 3 de novembro de 2000, até a chegada na Marina da Glória, Rio de Janeiro, em 21 de abril de 2001, foram 4 mil milhas náuticas, ou 7 mil quilômetros de pauleira sem trégua. De patrocínio um milhão e meio de reais e a responsa pesando na cabeça. Mais de cinco meses domando ondas de até cinco metros de altura. Sensações térmicas de 20o abaixo de zero. Ventos gelados de até 45 nós, com rajadas de 55 nos canais chilenos e na Patagônia. Quase um barco perdido, levado pela maré. Duas quedas na água quase fatais. A incidência dos fantasmagóricos willwaws — ventos em rodamoinho que vêm da terra de surpresa, responsáveis por um dos acidentes com tripulante ao mar. Desmonte e carregamento por terra, durante cinco dias, dos 800 quilos de equipamento, peça por peça, para evitar um longo trecho de mar aberto — incluindo os hobie cats. Mãos quase necrosadas pelo contato com o frio.
E finalmente a “dobrada”, pela primeira vez na história da navegação por dois catamarãs, do famigerado Cabo Horn — o Everest dos mares, responsável pelo naufrágio de mais de 200 barcos. Um feito antológico. Mas nada perto da tormenta existencial que fez Gui e Betão baterem de frente, ao chegarem ao Horn. Os sapos gordos engolidos para atingir o objetivo e os efeitos que esses simpáticos batráquios geraram nas suas entranhas até aportar na Marina da Glória são outras 4 mil milhas náuticas. Os homens que partiram de Puerto Montt não foram os mesmos que chegaram ao Brasil.

Para melhor compreensão do que será narrado a seguir, é necessário um pequeno histórico das versões de como surgiu a idéia. Gui:
— Desde criança sempre sonhei em ir ao Cabo Horn. Tive a idéia desde 1994. O Betão pensava em fazer uma viagem pela Patagônia. E eu só pensava no Cabo Horn.
Betão:
— A ideia surgiu em 1998. Se o Gui não me tivesse como parceiro, não teria realizado o projeto nem começado a viagem.
Frente aos riscos da odisseeia rumo ao mito Horn, todo o resto — vaidades, ambições, sonhos — pareceria secundário. Mas, dobrado o Cabo, a partir da segunda metade a viagem tornou-se real e potencialmente mais perigosa. Além de tecnicamente mais difícil, toda a costa do Atlântico ficou mais traiçoeira, por ter de ser enfrentada com o equilíbrio emocional da equipe abalado pelo recente confronto, resultando na quebra da sintonia entre Gui e Betão. Levar a bom termo a expedição exigiu todos os recursos políticos e espirituais dos dois líderes. Foi como dobrar um Cabo Horn por dia. 

Verso do cartão-postal

Para um aventureiro, o que mais exige coragem é assumir uma dificuldade emocional. “A aventura é teatro perto desta coisa mais verdadeira. Uma viagem como essa não tem sentido para ninguém, a não ser para nós mesmos”, afirma Gui. As diferenças de personalidade entre os dois vieram à tona da forma mais contundente no momento crucial de dobrar o Cabo. Assim, os amigos não tiveram alternativa senão encarar e superar a montanha do seu próprio orgulho. Deram continuidade a esse comportamento destemido inclusive agora,
na volta, abdicando da inócua “cara de paisagem” que a maioria dos aventureiros gosta de passar, como num comercial irretocável de uma margarina que não mela, não engorda, não tem gosto e não solta as tiras. Mas o que rola por trás do cartão-postal? Betão dá uma luz:

— Não tínhamos compromisso de parar na ilha, não tínhamos nem pensado nisso antes. Se tivéssemos a oportunidade de descer, ótimo. A imagem de dois hobie cats chegando ao Cabo Horn, como aconteceu com os franceses [anos antes, num vacilo, franceses perderam suas embarcações no mesmo local], ficou naufragando na minha cabeça. Nós tínhamos que dar a volta de 25 milhas, saindo da Caleta Martial e voltando ao mesmo ponto. Tínhamos três dias de janela antes da tempestade — já haviam se passado dois. O mau tempo ia chegar. Veio na praia um garoto francês de um outro barco e me deu um vinho tinto de presente: “Não vão fazer como os franceses. Primeiro dêem a volta e depois comemorem”. Aquilo bateu forte.
Do outro lado do palco, Gui rebate:

— Estar no Cabo Horn foi um momento de decisão. A meteorologia é determinante. Você só pode fazer o Horn de hobie cat com tempo bom. E a previsão do faroleiro era que entraria um vento nordeste, mais tarde, com tantos nós... Quando avistei a praia, a Caleta Leon, na hora em que meti a cara e vi, falei: dá para entrar. Houve um desejo do Betão de ser o líder, mas nunca me coloquei como seu subalterno. Comandado por ele, nunca! Ele me disse que lideraria a viagem só algumas semanas antes da partida. Só fiquei ouvindo. Se ele tivesse dito isso dois anos antes, não teria vindo. No mar, prefiro liderar. Não é da minha índole ser liderado. Por isso, soltei: “Betão, quero ir para terra. Vamos embora?
Betão manda a réplica:
— De manhã o barômetro estava baixando rápido. Fizemos tudo tranqüilo, mas tínhamos certeza de que algo estava chegando. O Gui propôs entrar na ilha, e eu respondi que seria muito arriscado. O projeto era ir até o Rio pelo Cabo Horn. Falei: foda-se assinar o livro! O Gui não aceitava que eu fosse o líder. Então, mandei: se você acha que deve ir, você vai. E ele foi, sem pensar que eu iria ficar sozinho no mar. Se entrasse uma tempestade, a gente não só não sairia de lá como perderia os barcos. O que era mais importante?

O livro

Então a ambição de pôr os pés na terra e a mão no livro do faroleiro foi maior que a responsabilidade? Gui quer a cena:
— Descer no Cabo Horn era a coisa mais importante da minha vida.
Betão teria sido excessivamente conservador na sua análise? Foco nele:
— Quem acha que viajar ao Cabo Horn de hobie cat é a coisa mais suicida do mundo está errado. Sou uma pessoa que detesta risco. Dirijo devagar, guio moto devagar. Fui lá porque acredito no meu potencial. Por que arriscar um projeto de quase três anos? Meu proeiro, o Santiago, teve um ataque de choro, implorava para subir no Cabo Horn e assinar o livro. Preferi ficar, tentando captar informação com o rádio, porque, quando a tempestade entra, não dá tempo de nada: em 20 segundos o vento chega e o inferno baixa... Fiquei lá fora irritado, decepcionado... Mas feliz por não ter descido. Respeitei o procedimento — que é a coisa mais sagrada numa viagem de aventura.
Gui se defende:
— Na hora, achei que a gente iria ter que parar não um, mas dois dias, fazer um barulho maior. Era o único lugar onde a gente poderia dedicar tempo, fazer imagem de terra. Abri mão disso para ficar só 40 minutos. Dava tempo de subir rápido e ir embora, ou dava tempo de baixar os dois barcos, desmontá-los durante dois dias e então ir embora. Na praia, depois, Betão me disse: “Isso simboliza nossa equipe: você me abandonou e foi para a terra”. Talvez me culpe o resto da vida por ter feito isso. O que ele queria? No momento mais importante vou deixar de pensar do meu jeito para pensar como ele? Pensava: “Vou ser um eterno frustrado se não descer o barco, subir o farol, assinar. Nem que afunde o barco, tenho que ir”. Isso sou eu.
Ou seja: desse ponto em diante, a lua-de-mel entre os dois terminou — daí para frente, a viagem foi casamento mesmo.

Moldar imagem e discurso de herói virou rotina e fórmula. Algo que o próprio Amyr Klink deve ter detectado, considerando que em sua próxima expedição terá de lidar com gente a bordo — nela, suas enigmáticas relações com pingüins ficarão provavelmente para trás dos icebergs. Ou será razoável imaginar uma família Schurmann velejando dez anos ao redor do globo sem nenhum ‘puta que o pariu’? Seria possível uma luta de egos sendo exposta no ar rarefeito da mídia em uma escalada de Valdemar Niclevicz ao K2? Sem o molho das relações, o angu das aventuras está fadado a um impiedoso ressecamento, tornando-se intragável. Gui confessa:

— Faltou coragem para vomitar mais esses problemas de relacionamento durante a viagem. Colocar tudo o que se vê e sente, sem censura... Seria a verdadeira revolução nesta babaquice de aventura. Gostaria de participar de um projeto com esta proposta. Algo mais importante tem que ser dito, fora a narrativa sobre pessoas e lugares.

Rotina seca

Depois da epopeia que mereceu um comentário elogioso de Amyr Klink — “O que fizeram é equivalente
a escalar o Everest de chinelos” —, Betão é ameno: “Em São Paulo venho à tona; nas minhas viagens vou à imersão em mim mesmo. Os dois lados são necessários”. Embora a cidade não seja o melhor cenário para a reflexão, é aqui que eles terão que terminar a aventura.
Gui: “Viajaria com Betão outra vez. Mas não sei se é recíproco”.
Betão: “Fui eu quem deixou ele passar na frente. Nesse sentido, ele ajudou muito a ver isso a meu respeito. Mas talvez ele não saiba disso”.
Chegou a hora em que nossas personagens têm de encarar a depressão “pós-parto” da viagem. “É mais perigoso viver em São Paulo que fazer o Horn. Quando o que você faz vira obrigação, perde o tesão, a magia; essa hora sim é perigosa”, explica Gui. “Agora a ansiedade é grande para preencher o vazio que se instalou depois de ter realizado algo tão intenso. Viver coletivamente é mais difícil. Ser zen no Tibete é mais fácil do que em São Paulo”, Betão fecha.

Depois da tempestade

Matar a saudade. Essa é a prioridade dos capitães Betão e Gui: ”o melhor da viagem não é partir, é chegar”, afirma Betão. Portanto, família, amigos e namoradas estão agora no centro das atenções. Mesmo abandonando respectivos projetos e ocupações para se dedicarem à vida pessoal, tanto Betão [empresário da noite, foi dono do Aeroanta, B.A.S.E., Lounge e outros) quanto Gui (fotógrafo profissional) ainda trabalham na divulgação da Rota Austral. Gui, por exemplo, está focado no livro e na exposição da aventura, rolando desde 16 de agosto, no shopping Iguatemi, onde deve ficar até 9 de setembro; depois vai para o Adventure Fair, na Bienal do Ibirapuera, e em seguida para o Rio de Janeiro.

O livro, ilustrado com fotos da viagem, chamado simplesmente Expedição Rota Austral, será lançado em novembro pela editora Terra Virgem – um DVD com o filme da aventura, editado pela ESPN Brasil, virá encartado no livro. Já Betão só quer começar a pensar em projetos novos em 2002. Ainda assim, não sabe se vai participar de novas peripécias com Gui: "Ele tem seus projetos, eu tenho os meus. Uma viagem de 5 meses é estressante demais...

matérias relacionadas