Era uma festa como aquelas de antigamente. O salão de tábua corrida, encerado, a percussão dos saltos dos sapatos acompanham as músicas românticas que incensam o ambiente penetrando ouvidos e corações atentos. No canto, as cadeiras dispostas lado a lado, as velhinhas conversam sobre os bailes de sua juventude, ouço o casal do lado se lembrar de quando ele a cortejou e de como ela terminara seu noivado para se juntar a ele e de como estavam felizes ali vendo sua filha dançar entre os convidados. Dirijo-me à mesa onde repousa o ponche, a sangria e os quitutes doces e salgados. Um rapaz me chama atenção. Exímio dançarino, pés leves e ritmo envolvente. Faz-se notar entre as meninas do salão. Sinto saudades dos meus tempos de garoto. Lembrei-me especialmente de um baile que resumiria minha existência:
– A senhorinha quer dançar?
– Menino, você é muito novinho para mim, por que você não chama para dançar as meninas de sua idade?
Tentava ser gentil com Constância. Ela ali esquecida no canto, vestida de juta. Solteirona, teve um filho muito nova, de pai desconhecido. Dizem que o menino era filho do primo Austecleniano. Ele, que sempre vinha passar as férias de verão na fazenda, nunca mais voltara, desde que a Constância embuchara. Sua família o mandara estudar na Suíça, num colégio interno. Colégio interno! Que medo eu tinha de colégio interno, imagina ficar preso o dia inteiro com um bando de bobocas estudando e ajoelhando no milho. Graças que papai precisava de mim no cafezal.
Tinha tomado ponche escondido, Dona Iolanda, a beata, simpatizava comigo e, embora tivesse apenas 14 anos; ela gostava de me ver embriagado. Não foram poucas as vezes que tomei do vinho do padre com a beata. Ela sempre ficava soluçando, gozado isso! Eu, na maior parte das vezes, dormia naquele fresco que era a sacristia e as dependências internas da Igreja. Podia estar o maior sol lá fora, que dentro da Casa do Senhor estava sempre fresco, e eu, meio ‘chuco’ por causa do vinho, descansava nos bancos enquanto Dona Iolanda fazia a faxina semanal do santuário. Naquela noite, na festa, D. Iolanda me chamara na cozinha:
– Menino, você já está virando rapaz e já é hora de começar a enxergar as moças. Aproveite e tome aqui este ponche para tomar coragem. E não se esqueça que as moças gostam dos rapazes desinibidos e que sabem dançar. Vai lá no salão e tire as moças para dançar, aproveite e comece pela Senhorinha.
Não fosse D. Iolanda, não teria chamado Constância para dançar. Oras, com esse monte de moças cheirando gostoso e eu sendo rejeitado por Constância?
– Vamos lá, menino, vamos ver se você é pé-de-valsa como dizem! Disse Constância, rindo pelo canto da boca.
O menino dança, embalado pela solteirona, como se estivesse nas nuvens, desliza sobre o assoalho inebriado pelo contato tão próximo com uma mulher. Constância era mesmo uma mulher de verdade, e eu, ali, me descobrindo um dançarino nato.
Lembro-me de que, por cima dos ombros de Constância, a primeira moça que me saltou os olhos foi Clara. Sentada ao lado da mãe percebia que me observava. Rodopiava com a Senhorinha, ia próximo a Clara só para provocá-la. Divertia-me.
Que vontade de dançar com Clara. Seus olhos quase vesgos sempre me chamaram atenção – mesmo poucos anos atrás quando a encontrei na saída do metrô da Voluntários das Pátria, de mãos dadas com um garoto, supostamente seu filho, e um homem que, por ter as feições muito parecidas com a do garoto, deduzi ser seu marido. Ergui a cabeça e fingindo não vê-los atravessei a rua.
– Clara, me concede esta dança?
Engraçado como me soou natural isto naquela noite. Clara ficou imóvel, sua mãe meio que a empurrou para os meus braços:
– Clara, você já está virando uma mocinha!
Dancei com Clara até que avistei a vovó Leda num canto do salão.
– Vó, vamos dançar?
Dancei com a vovó Leda para diverti-la. A partir daí virei a atenção da festa. Passado algum tempo, já tinha dançado com quase todas as meninas do salão, menos com Letícia. Como gostava de Letícia, sentia um frescor só de pensar nela. Mas queria dançar mais, queria dançar com todas e, no final, enfim, dançar com Letícia.
Naquela noite, eu mal começava a dançar e já ficava olhando por cima do ombro da moça que estivesse dançando escolher a seguinte para tirar para dançar. E Letícia ali. Sentada. Quase que me esperando. Sinto até um frio na barriga de pensar nela.
Chamo Letícia para dançar. Ficaria a noite inteira a dançar com Letícia.
Olho por cima de seus ombros e vejo que ainda há meninas as quais não cortejei no salão.
Hoje sinto que poderia ter dançado a noite toda com Letícia, sem pensar no tempo, nas outras pessoas no salão. Aqueles foram os melhores minutos da festa. Engraçado como até hoje me lembro perfeitamente daquela dança. Do sorriso de Letícia, da minha alegria e da vontade de não largar mais aquelas mãos miúdas.
Constância se aproxima:
– Vamos dançar de novo, menino.
Me distraí e não vi Letícia ir embora, estava tão preocupado em satisfazer meu sentido que não percebi sua saída. Olho por cima dos ombros da solteirona e percebo que todas as moças com quem dancei, e que poderia ter conversado, ter desenvolvido um passo adiante, se foram. Uma a uma. Devagar o tempo passou, a noite acabou e não me dei conta das pessoas que passavam na minha vida e que dançando deixei passar.
Estava sempre vislumbrando o próximo passo. Olhando por cima dos ombros. Constância estava comigo na primeira dança, mas no meu interior eu sabia que não deveria ser sua aquela última valsa. O salão vazio, o maestro avisara que era o último número da orquestra.
Assim terminou o baile.
Dancei com a felicidade e olhei por cima de seus ombros.
Casei-me com Constância. Não tive filhos.
* Augusto Sales é editor do Falaê!
www.falae.com.br
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
O plano do Google para uma internet sem cliques
-
Trip
Santos sempre foi caminho. Quando virou destino?
-
Trip
A revolução discreta da cannabis
-
Trip
5 livros para ler de graça no MEC Livros
-
Trip
Rir da própria desgraça para não pifar
-
Trip
Repara a bagunça
-
Trip
Diário de classe: como educar meninos na era Red Pill